‘Hoje, até Lula me pediria para permanecer no Senado’, diz Marina Silva
Candidata por São Paulo, ex-ministra afirma que ‘o risco da agenda ambiental hoje está no Congresso’
Com uma trajetória marcada por pioneirismos, Marina Silva (Rede) mira de volta o endereço onde construiu boa parte de sua história política. Aos 68 anos, a ex-parlamentar que assumiu o Senado aos 36 — tornando-se a senadora mais jovem do país e representando o Acre por dois mandatos — entra agora na disputa pelo Senado por São Paulo.
Sua caminhada recente inclui duas passagens pelo Ministério do Meio Ambiente e uma eleição como deputada federal paulista, cargo que praticamente não ocupou ao ser convocada para o Executivo dias após a posse. Desta vez, porém, o plano é fincar raízes no Congresso. Em entrevista a VEJA, ela foi categórica: “Eu vou exercer o mandato de senadora”.
A decisão, segundo Marina, dialoga com o próprio cenário político em um eventual quarto governo de Luiz Inácio Lula da Silva. “O presidente Lula, se for reeleito, com certeza vai me pedir para ficar no Senado, porque o risco da agenda ambiental hoje está no Congresso”, conclui.
A declaração resume a principal justificativa de Marina para a candidatura. A ex-ministra não enxerga o Senado como uma etapa intermediária até um eventual retorno ao governo, mas como o lugar em que, hoje, a disputa ambiental será travada. Ela relembra que o Congresso alterou regras de fiscalização de equipamentos utilizados em crimes ambientais e aprovou mudanças no licenciamento ambiental que, em sua avaliação, representam uma ameaça à proteção dos biomas brasileiros.
“Foi o Congresso que mudou a legislação que permitia que se queimassem os equipamentos criminosos de dragagem, correntões, tratores, retroescavadeiras, cavadeiras, que destroem a Amazônia e fazem garimpo ilegal em áreas remotas”, afirma. Para Marina, o problema não termina na fiscalização: “Você faz uma ação de fiscalização, quando vira as costas, se esses equipamentos ficam lá em uma área remota, eles voltam a cometer o crime”.
O licenciamento ambiental é outro ponto de tensão. Marina classifica a mudança aprovada pelo Congresso como “uma verdadeira demolição do que protege de fato o meio ambiente” e diz que a nova legislação tende a judicializar os processos. A crítica ajuda a explicar por que ela considera o Senado estratégico. “Se eu fosse senadora, o licenciamento ambiental não teria passado da forma como passou”, afirma.
‘Ir para o ministério foi levar as nossas pautas para o primeiro plano’
A opção pelo Congresso também responde a uma questão mais delicada de sua trajetória recente. Eleita deputada federal por São Paulo em 2022, Marina praticamente não exerceu o mandato: deixou a Câmara para assumir o ministério no início do governo Lula e só retornou à Casa neste ano. Agora, diante da possibilidade de conquistar oito anos de mandato no Senado, ela foi questionada e rejeitou a ideia de que tenha abandonado o eleitor paulista. Para Marina, assumir o Ministério do Meio Ambiente significou ampliar, e não reduzir, sua atuação em favor do estado.
Ela cita programas de resíduos sólidos, adaptação de cidades às mudanças climáticas e instrumentos econômicos criados em parceria com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Segundo ela, parte dos recursos para recuperação de áreas degradadas e sua disponibilização para a agricultura também beneficia São Paulo. “Geralmente, ao contrário, não é que fica em segundo plano, vai para o primeiro plano”, argumenta.
Marina também não demonstra preocupação em deixar a pasta. Segundo ela, o ministério já foi reconstruído depois do desmonte promovido durante o governo Jair Bolsonaro. “Eu fui ministra pela terceira vez porque era um desafio enorme e eu tinha certeza de que precisava estar lá com o presidente Lula”, diz. Agora, avalia que a missão é outra: proteger no Congresso as políticas que foram reconstruídas.
Nesse cenário, ela vê João Paulo Capobianco, atual ministro do Meio Ambiente, como um nome capaz de dar continuidade ao trabalho. Marina faz questão, porém, de ressaltar que a escolha de ministros cabe exclusivamente a Lula. “Nós temos quadros excelentes, inclusive o ministro João Paulo Capobianco”, afirma. “Mas essa decisão é do presidente. ”
A proximidade com Lula é outro elemento central de sua campanha. A relação entre os dois, que já foi marcada por divergências, hoje é definida por Marina como uma “parceria profunda”. Ela atribui ao presidente parte importante das conquistas ambientais do atual governo, incluindo a implementação da meta de desmatamento zero até 2030, a elaboração do Plano Clima e a realização da COP30.
“Foi o presidente Lula que ajudou e está ajudando na implementação do manejo integrado do fogo”, afirma Marina, citando a redução das queimadas na Amazônia em 2025. Para ela, a parceria não significa, contudo, que o principal espaço de atuação deva continuar sendo o Executivo. Ao contrário: “Logo à frente do apoio à agenda ambiental e de suporte para o presidente está o Senado da República”.
Eleições em São Paulo
É nesse ponto que a eleição de São Paulo ganha dimensão nacional. Lula colocou nomes de peso de seu governo na disputa estadual, entre eles Haddad, Márcio França, Simone Tebet e Marina. Para a ex-ministra, não há dúvida sobre a importância do estado para o resultado nacional. “São Paulo é um estado que define, com certeza, os rumos do Brasil”, afirma.
Ela cita o peso econômico, político e populacional do estado e argumenta que São Paulo também precisa mudar de rumo. Segundo Marina, o estado perdeu competitividade industrial, enfrenta problemas de segurança pública, saúde, educação e violência contra as mulheres. A candidatura ao Senado, diz, nasce também da necessidade de apresentar uma alternativa para esse cenário.
A pauta ambiental aparece novamente como uma oportunidade econômica. Marina defende que São Paulo atraia investimentos verdes para a indústria automobilística, avance em pesquisas de hidrogênio verde e utilize os biocombustíveis como parte da transição energética. Para ela, porém, o estado tem adotado uma postura política que ameaça essas possibilidades. “Tudo isso fica muito difícil com uma visão que, em vez de colocar o chapéu de São Paulo, coloca o chapéu do MAGA, o chapéu do Trump”, afirma, em referência ao governador Tarcísio de Freitas e à aproximação com o ex-presidente americano Donald Trump.
Apesar da proximidade com Lula, Marina decidiu permanecer na Rede Sustentabilidade. Segundo ela, recebeu convites de partidos como PT, PSB, PDT, PCdoB e PV, mas optou por permanecer na legenda que ajudou a fundar. “O meu cálculo não é pragmático. É um cálculo programático”, diz.
A política também descarta, pelo menos por ora, uma nova candidatura à Presidência. Marina disputou o Palácio do Planalto em 2010, 2014 e 2018 e afirma que já deu sua contribuição. “Não faz parte mais do meu projeto a Presidência da República”, afirma. Seu objetivo agora, diz, é ajudar na reeleição de Lula e garantir a continuidade das políticas do atual governo.
No Senado, vai fazer oposição à família Bolsonaro
É também por isso que ela vê o Senado como uma trincheira. Marina não esconde que espera encontrar na Casa uma oposição dura ao governo e à agenda ambiental, especialmente de parlamentares ligados à família Bolsonaro. Se eleita, diz que seu parâmetro será a Constituição. “Os poderes são independentes”, afirma. E acrescenta: “É preciso salvaguardar a independência e a autonomia dos poderes e não permitir qualquer tipo de retrocesso”.
Ao ser questionada sobre como pretende dialogar no Senado com integrantes da família Bolsonaro caso eles também sejam eleitos, ela não fala em negociação política, mas em limites institucionais. “Para quem é democrata, quando você tem uma força política que não tem uma visão democrática, a base de qualquer coisa são as leis, a Constituição Federal. Os poderes são independentes”, afirma.
A referência é sobretudo à promessa de parlamentares bolsonaristas de usar o Senado para tentar promover o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Marina diz que sua atuação na Casa terá como premissa preservar a autonomia dos Poderes e impedir retrocessos.
Ela também associa o bolsonarismo a uma ameaça que, em sua avaliação, extrapola as instituições e alcança a soberania econômica do país. Marina critica a aproximação da família Bolsonaro com Donald Trump e afirma que a articulação em torno das tarifas impostas pelos Estados Unidos representa uma postura “entreguista” em relação ao Brasil. “Não é justo que alguém que tem um país soberano, conquistado de toda uma luta histórica para deixarmos de ser colônia e ser um país soberano, tenha uma visão entreguista do nosso país, da nossa soberania”, diz.
Para a candidata, os efeitos dessa disputa já podem ser sentidos em São Paulo. Ela cita a indústria calçadista de Franca e os produtores de café como setores que sofrerão com o tarifaço americano. E deve falar sobre as tarifas ao longo da campanha: na sua avaliação, São Paulo pode perder bilhões de reais em sua economia em razão das medidas articuladas pelo governo Trump.
Ela se apresenta como uma candidata capaz de atuar simultaneamente na defesa da democracia, da soberania nacional e de um modelo de desenvolvimento que combine crescimento econômico e preservação ambiental. “A agenda da sustentabilidade é uma agenda generosa”, afirmou em outro momento da conversa. “Ela não é de esquerda, não é de direita, não é de centro. É uma agenda de seres humanos que sabem que a gente precisa mudar. ”
A candidata chega, portanto, à eleição com uma promessa bastante específica: não voltar ao Ministério do Meio Ambiente, ainda que Lula permaneça no Planalto. Marina quer ocupar uma cadeira no Senado para disputar, de dentro do Congresso, as pautas que considera ameaçadas. Depois de 16 anos como senadora, ela diz conhecer a Casa — e acredita que, neste momento, é lá que sua presença será mais necessária.







