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“Guru da cloroquina” de Bolsonaro, Arthur Weintraub entra na mira da CPI

Ex-assessor especial da Presidência estruturou grupo de médicos defensores do tratamento precoce e abasteceu o presidente com informações sobre os remédios

Por Eduardo Gonçalves Atualizado em 24 Maio 2021, 13h36 - Publicado em 24 Maio 2021, 13h35

Em fevereiro de 2020, quando ainda não havia nenhuma morte confirmada por Covid-19 no Brasil e a epidemia ainda se restringia à China e Itália, o então assessor especial da Presidência Arthur Weintraub já atuava junto ao presidente Jair Bolsonaro em prol da cloroquina e hidroxicloroquina como solução “anti-globalista” para neutralizar a doença e evitar as medidas de isolamento social. 

Irmão do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, Arthur foi escalado desde o início para tratar sobre o tema dentro do Palácio do Planalto e diuturnamente abastecia o presidente com informações a respeito dos medicamentos. Depois de várias pesquisas a respeito de sua possível eficácia contra o coronavírus, passaram a ser desconsiderados por boa parte da comunidade científico. Arthur não se contentou com isso e passou a procurar pelo Brasil médicos dispostos a defender os remédios. Nasceria daí o grupo de milhares de médicos que até hoje defendem e pressionam pela adoção do chamado “tratamento precoce” junto a Bolsonaro, governos estaduais, prefeituras, redes hospilatalares e conselhos de medicina. 

A médica Nise Yamaguchi e o empresário bilionário Carlos Wizard acabaram aparecendo ao público como os principais cabeças desse movimento – a primeira como suporte científico, o segundo como braço financeiro. Arthur Weintraub era o principal articulador desse grupo e o que tinha mais acesso a Bolsonaro. Tanto que ele nunca chegou a discutir o assunto com os ministros da Saúde, já que despachava diretamente com o presidente. Do seu aconselhamento, saíam medidas práticas, como a isenção de impostos dada à hidroxicloroquina e cloroquina no início de 2020, e a tentativa de mudar a bula dos medicamentos por meio de decreto estadual.

Weintraub e o grupo de médicos ‘cloroquiners’ agora entraram na mira da CPI da Pandemia, que trabalha com a linha de investigação que existia um “gabinete paralelo” responsável por convencer Bolsonaro a levantar a bandeira do tratamento precoce em detrimento de medidas em prol da vacinação em massa e do isolamento social. Dois requerimentos que pedem a convocação de Weintraub e a quebra do seu sigilo fiscal devem ser apreciados nesta semana.

  • Senadores da CPI apontam que o autor do rascunho do decreto que mudaria a bula da cloroquina seria o tenente-médico Luciano Dias Azevedo, da Marinha, bastante ligado a Weintraub. Em evento no Planalto realizado em agosto de 2020, Azevedo fez um discurso de agradecimento à atuação do então assessor especial da Presidência por ter lhe “aberto as portas”. “Em fevereiro, ele nos procurou e conseguiu unir os grupos de médicos para pesquisar a doença, para aprender com colegas de outros países. (…) Arthur é especialista na área de neurociência, mas entende farmacologia como poucos”, declarou ele. Dois meses antes, Azevedo havia sido nomeado pelo então ministro da Educação, Abraham Weintraub, a um posto no Conselho Superior da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). 

    “Os dois irmãos Weintraub sempre participaram de reuniões essenciais e têm um papel muito grande na linha ideológica do governo”, disse o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), autor dos pedidos e integrante da CPI. 

    Com mestrado e doutorado em Direito e especialização em previdência e neurociência, Arthur Weintraub se viu habilitado para analisar estudos científicos relacionados à Covid-19. No governo, ele tinha o cargo nominal de “assessor-chefe adjunto da Assessoria Especial da Presidência”, que, nas palavras do seu amigo, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), possuía a seguinte atribuição: “Ficar antenado e abastecer o presidente de informações”. O posto também conferia acesso livre às reuniões mais importantes da Presidência e ao gabinete de Bolsonaro. Seguidor das teses “antiglobalistas” e olavistas, ele foi exonerado do cargo em setembro de 2020, mas ainda continua exercendo forte influência sobre o presidente, os filhos e os apoiadores bolsonaristas. 

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