Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Geraldo Alckmin: ‘O PSDB está unido’

O ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin nem sempre esteve alinhado com colegas de seu partido, o PSDB. Em 2006, depois de uma batalha interna, conseguiu ser indicado candidato presidencial dos tucanos no lugar de José Serra, tido até então como o nome favorito na disputa. Em 2008, sua candidatura à prefeitura de São Paulo dividiu o partido – muitos apoiaram abertamente seu adversário, o prefeito Gilberto Kassab. Desta vez, Alckmin garante que o PSDB está unido em torno de um “compromisso político” e chama Serra de líder. “Quando perdi a eleição para a prefeitura, o Serra me ligou e disse: já perdemos duas vezes para prefeito e uma para presidente cada um. Agora é só vitória, não é?”

Em 2006, o senhor deixou o governo de São Paulo com 69% de aprovação, o que não foi suficiente para elegê-lo presidente. Que lições as campanhas de 2006 e 2002 trazem para a de 2010?

A eleição deste ano será muito disputada e vai ganhar quem errar menos. O PSDB aprendeu com as campanhas anteriores. Estamos mais fortes. Quando você perde, reflete mais. Algo que eu senti é que uma coisa é apoio, outra coisa é campanha. Às vezes, você tem muito apoio, mas pouca campanha. Hoje, sabemos que o mais importante é ter bloco na rua. Isso faz diferença, porque não é só ter tempo de televisão, é preciso ter trabalho em equipe. Afinal, eleição é convencimento, ganha quem tem defensor no ponto de ônibus, no almoço de domingo, na igreja, na escola. Eu vejo que o partido está mais fortalecido. E, quando você tem mais chance de vitória, a animação é maior.

Quais são as diferenças mais marcantes entre os dois momentos?

A principal é que Serra entra como favorito, o que não era o caso na eleição anterior, quando o favorito era o presidente Lula. Isso faz diferença. Eu só tive o apoio do DEM. O Serra já tem o apoio do DEM, do PPS, do PSC. O PTB tem tido conversas importantes, além da hipótese do PP. Isso garante mais tempo de TV.

O senhor acha que Serra também terá palanques mais fortes que os de 2006?

Certamente. Em 2006, em determinado momento, eu fiz campanha nas ruas apenas com o Roberto Freire [presidente do PPS] e a mulher dele. Freire me deu de presente um sudoku [jogo de lógica]. À noite, íamos para o hotel e eu ia fazer sudoku. Naquele ano, havia no Rio de Janeiro a forte possibilidade de uma aliança com o PMDB, que tinha como candidato Sergio Cabral, que depois se tornou governador. Essa aliança passava pelo não lançamento de um candidato do PSDB. Numa noite, o acordo estava totalmente fechado. Mas então o Eduardo Paes, que era secretário-geral do PSDB, resolveu ser candidato a governador. A aliança se inviabilizou, ele foi para o pleito e teve uma votação pequenininha. E veja como é o destino: logo depois, Eduardo Paes acabou saiu do partido e entrou no PMDB, para ser secretário do Sérgio Cabral. Esse caso do Rio se repetiu em sete estados. Hoje, temos condições melhores de disputa.

Por quê?

O presidente do PSDB, senador Sergio Guerra, trabalhou muito bem, mostrou que é um bom articulador. No Nordeste, por exemplo, temos bons palanques no Rio Grande do Norte, Piauí, Pernambuco, Bahia, Sergipe e Alagoas. Nossos aliados sabem que, completados os dois mandatos de Lula, as chances de a oposição chegar ao governo são muito maiores.

Na campanha de 2006, ficou a impressão de que o senhor colocou Serra contra a parede na luta pela indicação do PSDB à candidatura presidencial. Aquilo deixou mágoas?

É natural que um partido tenha vários líderes com aspirações. Ainda mais um partido que tem quadros. Eu sempre apoiei o Serra. Inclusive, em 2004, o meu apoio para o Serra ser prefeito de São Paulo, quando eu era governador e tinha uma aprovação altíssima, foi decisivo. Eu entendia que, não podendo ser candidato à reeleição como governador, era mais lógico que eu disputasse uma eleição muito mais difícil, contra o Lula. E o Serra seria candidato a governador – até porque não tínhamos outro nome tão forte. O próprio Serra entendeu que esse era o melhor caminho. Ele ganhou a eleição no primeiro turno e se preparou até melhor para disputar a eleição presidencial.

Outra diferença, é que na eleição presidencial de quatro anos atrás, ninguém sabia, até o último minuto, quem seria o candidato tucano. Desta vez, Aécio Neves abriu mão rapidamente em favor de Serra. Aécio será vice numa chapa tucana puro-sangue?

O governador Aécio vai ser o que ele quiser. E ajudará em qualquer posição que escolha. Estaremos juntos. Quem apostar em divisão no PSDB vai perder.

Na eleição para a prefeitura, em 2008, também houve brigas sérias no PSDB, já que parcela do partido resolveu apoiar o prefeito Gilberto Kassab (DEM). O disse então que havia fundadores e “afundadores” do partido. O ex-ministro Clóvis Carvalho afirmou que o senhor iria ser cobrado pelo “oportunismo” e perda de compostura….

Vejo mais convergência este ano. Há um sentimento geral entre os tucanos de compromisso político. O mesmo entusiasmo que eu tenho hoje eu tinha em 2008. O que percebi no final daquele processo eleitoral é que a população me via mais como governador do que como prefeito. Mas eu fiz boa campanha para a prefeitura, no segundo turno apoiei o Kassab, o partido se fez representar na maior cidade brasileira.

Foi difícil para o senhor, ex-governador e ex-candidato à Presidência da República, aceitar ser secretário de Desenvolvimento do governo José Serra em São Paulo?

Quando acabou o primeiro turno da eleição para prefeito em 2008, e eu havia perdido a eleição, estava sentado nesta sala da minha casa, quando o Serra ligou. “Olha, agora nós empatamos. Nós dois perdemos duas para prefeito de São Paulo e uma para presidente [Serra foi derrotado para a prefeitura em 1988 e 1996, Alckmin, em 2000 e 2008]. Daqui para frente é só vitória, não é?”. Eu gostei da abordagem e do bom humor. Depois ele me convidou para ser secretário, eu refleti , aceitei e trabalhei mais de 14 horas por dia, o que completou a minha formação. Tanto o convite do Serra quanto a minha aceitação foram importantes para cimentar essa unidade partidária, que é a base para o Serra poder alçar vôo. São Paulo unida ajuda muito.

Nessa mesma fase de pré-campanha em 2006 o senhor dizia que “treino é treino, jogo é jogo”. Lula não é candidato, mas é um técnico de peso para Dilma. O PSDB não teme que ela surpreenda quando o jogo começar?

A campanha só começa quando entra no ar o horário eleitoral. É aí que os eleitores começam a comparar os candidatos. Recentemente, fui a uma missa em homenagem a Mario Covas na zona leste de São Paulo. Um eleitor veio todo animado e gritou: “José Serra!”.. Por enquanto, a população ainda não está tão focada, Por isso, treino é treino e jogo é jogo. Mas eu acho que o jogo depende mesmo do jogador e nosso ataque faz lembrar o do Santos. A comparação é desfavorável para Dilma. Serra tem larga bagagem política e, pelo fato de ter disputado e perdido em 2002, acumulou experiência eleitoral. Experiência não se transfere por palanque. Lula é Lula, Dilma é Dilma. Há um sentimento de preparo, de amadurecimento da liderança do ex-governador José Serra. Ele é o líder que o Brasil precisa.

O PSDB aprendeu a fazer oposição em oito anos?

Aprendeu e mostrou coerência. Na oposição, o compromisso do PT era com o PT, não com o país. O PT votou , depois de derrotada a emenda das Diretas Já, contra Tancredo Neves, no colégio eleitoral. Como é que pode? Eles expulsaram os deputados que votaram em Tancredo. Eles se negaram a assinar a Constituição Brasileira e o doutor Ulisses [Guimarães] teve que insistir para que assinassem. Eles foram contra o Plano Real e agora estão colhendo os frutos da estabilidade. A Lei de Responsabilidade Fiscal comemora 10 anos e eles foram contra, entrando com uma Adin [Ação Direta de Inconstitucionalidade] no Supremo Tribunal Federal. Isso não é oposição, é absoluto descompromisso com o interesse do país. O PSDB tem sido coerente com o que prega, faz e acredita.

Hoje, o PSDB de São Paulo apoia para o Senado Orestes Quércia, do PMDB, e Aloysio Nunes, que foi vice-governador de Luiz Antonio Fleury. É um palanque confortável?

O Brasil tem um quadro pluripartidário. Um dia desses fui ao interior de São Paulo com o Serra e um deputado estadual dizia que a base aliada do governo tinha 14 partidos. As alianças são necessárias. Pode-se fazer aliança depois da eleição, mas o melhor é fazer antes e por meio de um projeto. O PMDB de São Paulo tem sido muito firme com o Serra, o ex-governador Quércia é importante nessa aliança.

O PT fez o mensalão. Mais recentemente, o mensalão de Brasília mandou para a cadeia o governador José Roberto Arruda, do DEM, principal partido aliado do PSDB. Com escândalos por todo lado, a discussão ética ficará de fora da campanha de 2010?

A questão ética é essencial na vida pública e está no DNA do PSDB. Basta lembrar de Mario Covas, Franco Montoro. No caso do mensalão de Brasília, os democratas agiram com firmeza e rapidez. Eles expulsaram o Arruda do partido, mesmo sendo ele seu único governador. A reforma política tem de ser um dos temas desta campanha. A adoção do voto distrital pode transformar a maneira como as eleições são feitas no Brasil. Ela diminuiria o custo das campanhas, e aumentaria a capacidade dos cidadãos de fiscalizar os políticos. Observe o caso do mensalão petista. Todos os políticos envolvidos no esquema foram derrotados em seus distritos ao concorrer nas eleições seguintes. Todos. Se o voto fosse distrital, ninguém teria sido reeleito.

O sr. citou dois ex-governadores de São Paulo. Já são 16 anos de poder tucano no estado e o senhor será novamente candidato em 2010. Há alguma coisa nova a ser proposta?

Claro. Podemos avançar mais na saúde, educação, segurança. É um trabalho interminável. Um dado importante é que há quatro anos São Paulo cresce acima do PIB brasileiro. Eu me sinto mais preparado, mais experiente para poder equacionar e resolver problemas que ainda existem. E muito confiante no trabalho que a gente pode fazer junto com o Serra. Ele colocou uma questão fundamental, do ministério da Segurança Pública. São Paulo teve uma redução de quase 70% na taxa de homicídios em 10 anos – é verdade que houve um aumento no primeiro trimestre deste ano, mas isso não indica uma tendência. O fato é essa que é uma questão prioritária do governo federal. Tráfico de droga e de armas são questões federais, assim como lavagem de dinheiro. A possibilidade de ter o governo federal liderando esse trabalho terá efeito no país inteiro.

O candidato do PT, Aloizio Mercadante, já começou a fazer críticas contundentes ao PSDB em São Paulo. Quão dura será a campanha no estado?

Se for um debate de ideias, não há problema que ele seja acalorado. Terrível é a imagem que ficou da campanha de 2006. Ninguém esqueceu da montanha de dinheiro que os aloprados petistas, na expressão do próprio presidente Lula, queriam usar para comprar um falso dossiê contra os tucanos. Espero que o PT tenha aprendido.