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Fortaleza, uma cidade fantasma

Greve de policiais militares e bombeiros encorajou criminosos a agirem. O resultado foi uma onda de medo, que deixou desertas as ruas da capital

Por Mariana Penaforte, de Fortaleza (CE) - 3 jan 2012, 21h22

“Vi três homens assaltando duas moças que estavam na parada de ônibus. Depois, eles abordaram a dona de uma banca de revistas. Subi no primeiro ônibus que passou”, Rafaella Otávia, estudante

Mesmo as avenidas mais movimentadas de Fortaleza ficaram vazias nesta terça-feira. O congestionamento de fim de tarde começou mais cedo, às 15 horas. À noite o que se via era uma cidade deserta. Os moradores da capital do Ceará entraram em pânico diante de dezenas de roubos praticados por bandos a pedestres, motoristas e ao comércio. Os criminosos foram encorajados a sair às ruas pela greve de policiais militares e bombeiros, iniciada no dia 29. A onda de crimes e a sensação de insegurança da população fizeram com que comércio, bancos e servidores da prefeitura encerrassem o expediente mais cedo. Parte das agências dos Correios suspendeu as entregas. Ao longo do dia, postos de saúde, órgãos públicos e do judiciário e escolas públicas fecharam as portas e liberaram seus funcionários, que voltaram para casa temerosos. A estudante Rafaella Otávia, de 22 anos, presenciou dois assaltos à mão armada praticados por três homens na Avenida Dedé Brasil, local de movimento intenso na cidade. “Eu estava assistindo aula na auto-escola, quando chegou a informação de que estava tendo um arrastão. Nos trancamos na sala de aula”, disse Rafaella. “Ao sair, corri para a parada de ônibus e vi três homens assaltando duas moças que lá estavam. Depois, eles abordaram a dona de uma banca de revistas. Subi no primeiro ônibus que passou.” O estudante de engenharia de produção Francimário Silva, de 23 anos, disse que pegou um táxi para voltar para casa, pois foi liberado da empresa em que trabalha para sair mais cedo. “No percurso vi dois assaltos. Primeiro, no bairro Benfica, dois homens armados em uma moto assaltaram quem estava na parada de ônibus. Depois, dois outros homens estavam a pé e renderam e roubaram um motoqueiro na Avenida Bezerra de Menezes”, diz. Informações de assaltos e arrastões se espalharam rapidamente pelas redes sociais. No Twitter, elas estão sendo disseminadas por meio da hashtag #CaosEmFortaleza. No final da tarde, um vídeo da população linchando um suspeito de assalto no Conjunto José Walter foi postado no Youtube. Comércio e transportes prejudicados – O presidente do Sindicato do Comércio e Lojista Varejista de Fortaleza (Sindilojas), Cid Alves, confirmou que foram registrados arrastões em duas grandes cadeias de lojas de Fortaleza. “Houve invasão. A partir de 15 horas, o comércio todo já estava fechado nos bairros do Centro e do Montese”, afirma Alves. Dimas Barreira, presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Ceará (Sindiônibus), informa que não houve paralisação da frota de ônibus em Fortaleza, mas alguns problemas isolados. “Circulamos normal. Tivemos o pico de passageiros antecipado para as 15 e 16 horas, o que normalmente acontece entre 17 e 18 horas. Os trabalhadores voltaram pra casa antes”, afirmou. Por causa da violência, ônibus tiveram que mudar as rotas em alguns bairros, como o Conjunto Palmeiras e Quintino Cunha. O presidente do Sindilojas avaliou a situação para o comércio como um prejuízo total, já que janeiro é um mês movimentado na cidade. “Para amanhã, estamos orientando: abre quem quer, quem achar que o custo-benefício vale a pena. Se o lojista achar seguro, abra, se não, se preserve”, disse. O empresário Victor Kubrusly, de 23 anos, proprietário de dois supermercados de pequeno porte, resolveu fechar as portas na terça-feira, como diversos outros comerciantes. Questionado se pretende abrir seus estabelecimentos na quarta-feira, o empresário diz: “Depende de como terminar o dia de hoje. Tenho esperanças que o cliente que não comprou hoje compre amanhã.” Policiamento precário – Segundo o capitão Wagner Sousa, presidente da Associação dos Profissionais de Segurança Pública do Ceará (Aprospec), já são 12 mil homens parados no estado. Segundo Sousa, cerca de 5 mil pessoas já passaram no quartel da 6ª Companhia do 5º Batalhão, onde os PMs montaram acampamento desde o início da greve. As ocorrências dirigidas ao 190 estão sendo atendidas apenas pela Força Nacional de Segurança e por militares do Exército, responsáveis pela segurança da cidade durante a greve. Segundo informações oficiais da 10ª Região Militar e do governo do estado, cerca de 130 viaturas estão rodando na capital, sendo que trinta delas foram cedidas na terça-feira pelos policiais grevistas. Segundo o governo do estado, 813 homens do Exército e 204 da Força Nacional de Segurança ajudaram na segurança da cidade. A 10ª RM informou que o policiamento está focado no centro de Fortaleza, na região do aeroporto, orla marítima, Palácio da Abolição e Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará, Batalhão de Turismo, instalações de Comando da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militares. Policiais militares e bombeiros querem reajuste salarial de 80% até o fim de 2014, além de uma gratificação de 859 reais para todos os PMs, concedida hoje apenas para quem trabalha no turno da madrugada. Os policiais pedem ainda a anistia a todos os que participam do movimento, e a redução da carga horária semanal de 44 para 40 horas. A categoria negocia com o governador Cid Gomes a volta ao trabalho.

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