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Fogo no Pantanal ameaça milionário negócio do turismo das onças-pintadas

O maior felino do continente americano é o principal atrativo para uma atividade milionária, agora em risco

Por Jennifer Ann Thomas - Atualizado em 11 set 2020, 09h55 - Publicado em 28 ago 2020, 06h00

Na lei da selva, nada é mais antinatural do que a ideia de uma onça-­pintada abatida. Predador de topo de cadeia, ela é conhecida por se adaptar a qualquer ambiente: pode viver na copa de árvores, mergulhar em rios para caçar e percorrer longos quilômetros por terra. A cena que mostra uma onça prestes a receber tratamento no Hospital Veterinário da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, é o retrato da distorção da natureza. Ao mesmo tempo que o felino pode caçar animais como capivaras, veados e até mesmo jacarés, os seres humanos são os únicos capazes de interferir em seu hábitat a ponto de deixar uma das espécies mais emblemáticas em uma maca de hospital. Além de ter um papel importantíssimo para o equilíbrio do ecossistema, a onça-pintada é a protagonista de um tipo de turismo bastante valioso para o Brasil: por ano, 7 milhões de dólares circulam na região de Porto Jofre, no Pantanal mato-grossense, com a entrada de estrangeiros que querem vê-la de perto, mas nem tanto assim (para a saúde dos animais e dos turistas, a orientação é manter uma distância mínima de 10 metros).

Na região, cerca de 90% dos visitantes são estrangeiros. Consequentemente, durante a pandemia do novo coronavírus, com as fronteiras fechadas, a atividade despencou na mesma proporção. Para a temporada deste ano, os pacotes de viagem comprados por viajantes internacionais foram remanejados no primeiro semestre. Como se apenas uma tragédia não fosse suficiente, os meses de julho e agosto, período de seca no Pantanal, chegaram com um número mercurial: o aumento de mais de 200% nos focos de calor em comparação com o ano anterior. Estima-se que cerca de 10% da área do bioma tenha sido afetada pelo fogo, mas as imagens dramáticas não diferenciam quais locais são os mais críticos. De acordo com o biólogo da ONG Panthera, Fernando Tortato, a crise começou a dar sinais preocupantes no turismo. “Alguns operadores receberam questionamentos de viajantes”, diz. “Mesmo com muitas opções de destino dentro do Pantanal, o cenário caótico pode atrapalhar a retomada econômica da região.”

Além do clima seco, o vento transporta fagulhas para áreas com matéria orgânica disponível, como pasto e vegetação nativa, compondo o combustível para queimar. Um ponto crítico está na região da Transpantaneira, rodovia que liga Poconé, município entre os cinco com maiores números de queimadas no país, a Porto Jofre, o ponto de partida para ver as onças. O caminho é constituído por dezenas de pontes de madeira. O Parque Estadual Encontro das Águas, que abriga uma das maiores concentrações do felino no mundo, teve recentemente um primeiro episódio de incêndio e a equipe de brigadistas se deslocou para apagar as chamas no local.

Há medo e expectativa de dias ruins no ar. “Estávamos totalmente desesperados”, afirma o empresário e guia especializado em onças Ailton Lara. “O fogo foi extinto, mas qualquer fagulha que chegar ao parque tem o potencial de dar início a uma queimada incontrolável.” Com a ameaça no horizonte, empresários da região se organizaram para monitorar os focos de calor. Eles se uniram aos brigadistas e adaptaram barcos para combater os incêndios.

Em 2016, o governo de Mato Grosso estimou que o turismo no Pantanal poderia se tornar a primeira opção ecológica para o público europeu até este ano, à frente de destinos como o continente africano e a Tailândia. Quênia e África do Sul, que recebem entre 2 milhões e 5 milhões de visitantes por ano em áreas protegidas, têm receita estimada em 90 milhões de dólares. Na África como um todo, viagens para a observação de vida selvagem representam 80% das vendas anuais.

Apesar da natureza exuberante e da fama do Brasil como o país mais biodiverso do mundo, imagens como a da onça machucada, que teve as quatro patas queimadas, comprometem os planos para o setor. Além de proteger a vida selvagem, a atividade econômica traz vantagens para a população. Antes de empreender, Ailton Lara trabalhou em uma fazenda. Durante um bico como guia, ganhou uma gorjeta de uma senhora australiana, que especificou o uso do dinheiro para ele aprender inglês. Lara seguiu a orientação, aprendeu o idioma, concluiu o ensino superior e abriu uma pousada. Agora ele é recomendado pelo guia de turismo Lonely Planet e trabalha em produções de grandes documentários, como o Planeta Terra II, da BBC One. Há dinheiro para explorar a natureza. Contudo, sem a onça-pintada, não há atrativo que garanta um bom negócio.

Publicado em VEJA de 2 de setembro de 2020, edição nº 2702

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