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Famílias brasileiras já não adotam apenas recém-nascidos brancos

Por Da Redação - 30 abr 2010, 15h42

Por João Marcello Erthal

A nova foto do álbum de família de Sandra Bullock correu o mundo. O pequeno Louis Bardo Bullock, adotado em janeiro e revelado ao público na quarta-feira, aproximou Sandra da personagem que a levou a conquistar o Oscar de melhor atriz este ano. Em ‘Um sonho possível’, ela encarna uma rica empresária e mãe de família que se encanta por um adolescente negro sem-teto e, ao adotá-lo, transforma o garoto em astro do futebol americano. O novo capítulo da vida privada de Sandra sepultou por ora o passado recente de conflitos amorosos e colocou a atriz ao lado de famosos como Angelina Jolie, Madonna, Hugh Jackman, Michelle Pfeiffer, Sharon Stone e um time de estrelas com filhos adotivos e admirados muito além das páginas de celebridades.

No Brasil, Louis, o novo membro da família Bullock, e ‘Big Mike’, o personagem adolescente negro da trama no cinema, também transformaram a atriz, sem querer, em garota-propaganda de dois tipos de adoção que ainda engatinham por aqui: as inter-raciais, como são classificados os processos em que adotantes e adotados têm características físicas distintas, e as tardias – que envolvem crianças mais velhas, acima dos 4 anos. Autoridades ligadas à adoção e grupos de apoio às famílias interessadas no acolhimento torcem para que ficção e realidade em torno da queridinha da América transformem Sandra Bullock em símbolo da quebra de paradigma que aos poucos leva famílias adotivas a buscarem não apenas recém-nascidos brancos � algo mais que desejável em um país que tem na miscigenação uma característica marcante de sua população e que soma hoje perto de 80 000 crianças e adolescentes à espera de uma nova família.

A boa notícia: apesar do crescimento tímido, os números do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) e os relatos de quem acompanha o dia-a-dia dos abrigos revelam que ganha espaço a adoção de crianças mais velhas, grupos de irmãos, crianças com necessidades especiais e até adolescentes. Antes da criação do CNA, sistema que visa a aproximar crianças de abrigos e famílias aptas a adotar em todo o país, não havia dados precisos sobre as idades dos adotados em território nacional. Mas, de acordo com juízes e profissionais ligados a processos de adoção, até 2007 era desprezível a proporção de criança acima de 4 anos que conseguiam deixar os abrigos.

O sistema do CNA demorou a engrenar. Em 2008, quando começou a funcionar o cadastro unificado, foram concluídos apenas sete processos de adoção, quatro deles com crianças acima de 4 anos � quantidade ainda fora de qualquer possibilidade de interpretação estatística. Em 2009, das 89 adoções por esse mecanismo, 35 foram de crianças com mais de 4 anos, muitos deles adolescentes. E, este ano, até março, das 46 adoções, 18 estão acima dessa idade. A juíza da 1ª Vara Regional da Infância, Junventude e do Idoso da Capital, Mônica Labuto, acompanha de perto a transformação recente no perfil das adoções. “Até cinco anos atrás, era inconcebível para a maioria das famílias adotar uma criança com mais de seis anos. A partir dos quatro anos as chances já ficavam muito reduzidas. Hoje, conseguimos muitas adoções até os seis anos, e, particularmente, no estado do Rio, são aceitas com facilidade crianças negras”, compara Mônica.

Parte do avanço se deve aos grupos de apoio à adoção que preparam as famílias. “Quando vi a foto do bebê negro com a Sandra Bullock, meu coração se cobriu de alegria. Apesar de todo o processo e da burocracia envolvidos, a adoção não é tão difícil. O problema é que o brasileiro quer o bebê branquinho de olho azul. O entrave, então, não está apenas no trâmite da adoção, mas no perfil desejado pelos pais. A preparação das famílias tenta quebrar esse visão, muitas vezes alimentada por puro preconceito”, afirma a desembargadora Conceição Mousnier, coordenadora da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja) no estado do Rio e que também está à frente da criação dos Grupos Institucionais de Apoio à Adoção (GIAA). Os GIAA são estruturas formadas dentro do Judiciário para atuar exclusivamente na preparação dos adotantes – ainda considerada incipiente e com um universo de profissionais muito aquém do necessário.

Desde que foi criado o Cadastro Nacional de Adoção, todas as famílias pretendentes devem necessariamente ser cadastradas por esse sistema. Atualmente, há no cadastro 27 000 interessados autorizados a adotar. Mas nem todas as crianças constam no banco de dados, que, na última semana, tinha um total de 3.785 nomes à espera de novas famílias. “No CNA só são incluídos crianças e adolescentes cujos pais biológicos já foram destituídos do poder familiar e para as quais a Justiça entendeu que a inserção em uma nova família é o melhor caminho”, explica a psicóloga Eliana Bayer Knopman, da Vara da Infância, da Juventude e do Idoso de Teresópolis, na Região Serrana do Rio. Concluir o processo na Justiça para que a criança possa ser encaminhada à adoção ainda é a etapa mais demorada desse trabalho, e a falta de profissionais na Justiça aumenta a distância entre crianças e pais adotivos. No Rio, por exemplo, para resolver a situação jurídica das mais de 800 crianças distribuídas em 40 abrigos da capital, há apenas 25 profissionais, entre psicólogos, assistentes sociais e técnicos.

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