Família imperial brasileira distribui ‘Ordens Imperiais’, como se houvesse algum valor
Honrarias do Brasil Império seguem sendo entregues por herdeiros de Dom Pedro II; entenda
Historicamente, as condecorações são uma ferramenta utilizada por governantes de diferentes orientações políticas para homenagear indivíduos considerados merecedores (ou não) de honrarias por seus feitos ou atitudes. A prática foi instituída no Brasil durante o Império e mantida pelos governos republicanos posteriores, embora as chamadas Ordens Imperiais, que faziam referência à monarquia da família Orleans e Bragança, tenham sido extintas.
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Dessa forma, honrarias como a Ordem Imperial da Rosa, a Ordem Imperial de São Tiago da Espada e a Ordem Imperial de Dom Pedro I tornaram-se apenas memórias distantes de um regime anterior — pelo menos oficialmente. Isso porque um dos ramos da autodenominada família real brasileira, o ramo de Petrópolis, continua concedendo condecorações a pessoas consideradas dignas das honrarias, dos mais variados perfis.
Em seus canais oficiais nas redes sociais, o ramo de Petrópolis anuncia com pompa a concessão das honrarias aos homenageados. É o caso do empresário Filippo Marcon, sócio-gerente da M3GA Holding, que recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Grão-Pará, em 31 de agosto, concedida em reconhecimento “aos serviços prestados na defesa do histórico Palácio do Grão-Pará”.
“Tive a honra de ser agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Grão-Pará, distinção conferida por Sua Alteza Imperial e Real, o Príncipe Dom Pedro Tiago de Orléans e Bragança, em reconhecimento aos serviços prestados na defesa do histórico Palácio do Grão-Pará, especialmente pela atuação jurídica, institucional e diplomática desenvolvida em favor da proteção de seu patrimônio, de sua memória e dos direitos de seu legítimo titular, em um dos períodos mais desafiadores de sua história recente”, escreveu Filippo em seu perfil nas redes sociais, explicitando tal condecoração.
Honraria semelhante recebeu Fabrizio Vecchio, agraciado com a Imperial Ordem de São Tiago da Espada. De acordo com o site oficial da chamada “Casa Imperial”, a condecoração remonta a uma antiga tradição cavalheiresca portuguesa do período da Reconquista Ibérica e era concedida quase exclusivamente a militares. Ao que tudo indica, a tradição de só condecorar militares não foi mantida, já que Vecchio é advogado e sócio da Vecchio & Associados.
Há uma disputa interna entre herdeiros de Dom Pedro II por posse dessa chancela pelas honrarias. Até mesmo estrangeiros são agraciados, como o médico húngaro Ádám Berniczei-Roÿkó, que recebeu a Ordem Imperial de Cristo em uma cerimônia realizada na Suécia, em 7 de agosto. Berniczei-Roÿkó é conhecido por sua atuação em círculos conservadores na Hungria. Em que pese a vaidade pela medalha recebida, não custa lembrar, nada disso tem valor além de uma tradição familiar.
Após a publicação da matéria, Filippo, um dos homenageados, esclareceu que a Ordem do Mérito Grão-Pará não tem vinculação com as Ordens Imperiais do antigo Estado Brasileiro.
“A distinção possui natureza privada e honorífica, e é vinculada ao Instituto Histórico-Cultural Palácio do Grão-Pará, associação civil sem fins econômicos, de caráter cultural, científico e educativo, regularmente constituída e estatutariamente autorizada a conceder honrarias e títulos de reconhecimento. Entre suas finalidades estão a preservação, o estudo e a divulgação da história e da memória do Brasil, bem como a valorização de seu patrimônio histórico e cultural
A Grã-Cruz que me foi conferida decorreu dos serviços prestados na defesa dos interesses históricos e patrimoniais ligados ao Palácio do Grão-Pará, especialmente no contexto das medidas judiciais relativas à posse e ao usucapião do imóvel”.






