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Família é tudo que temos

Afinal, é o único grupo do qual participamos a vida toda

Antes mesmo do início de dezembro, o fim do ano já se anunciava. Percebemos isso por meio das escolas — muitos alunos já estavam prestes a entrar em férias —, pelo comportamento do comércio, que passou a mostrar publicidades com conteúdo natalino e a ofertar produtos para a passagem de ano, pela correria de muitos, pela intensificação do trânsito e, principalmente, pelo início dos planejamentos familiares para as celebrações do fim do mês.

A maioria das famílias comemora o Natal, mesmo as que não celebram o seu sentido religioso. É que em quase todas elas há crianças que anseiam por presentes — tradição da festa — e, como os integrantes de uma família hoje podem estar dispersos pelo país e pelo mundo, a data é esperada para o encontro de todos — ou quase todos — que pertencem àquele grupo. O Natal ganhou, portanto, também o caráter de reunião familiar.

E, por falar em família, hoje quase todo mundo acredita que entende desse núcleo e que pode analisá-lo. A frase “De médico e louco todo mundo tem um pouco”, que tem origem no conto O Alienista, de Machado de Assis, pode ser, na atualidade, complementada, já que há tantos pitacos sobre a família. Há quem acredite que a família está ameaçada de ser destruída ou que já se encontra em estado de falência. Os motivos seriam os mais diversos. O aumento do número de divórcios costuma ser muito citado. Ou a presença da mulher no mercado de trabalho, entre tantas outras causas já apontadas.

Ocorre que, ao mesmo tempo em que os divórcios crescem, há também recasamentos, e as mulheres que muito precisam ou querem se dedicar ao trabalho remunerado vivem se martirizando pela culpa de estar longe da família por tanto tempo. Isso significa que pertencer a uma família, com todos os bônus e ônus impostos, é essencial.

É na família que se buscam apoio e refúgio quando a vida se complica, provoca sofrimento, congela. Não importam a hora, o local, as dificuldades, a família oferece segurança, e não apenas aos mais novos: a todos os seus integrantes. É a fortaleza de cada um de nós. Não é à toa que a família é o único grupo ao qual pertencemos a vida toda. De todos os outros grupos, participamos temporariamente.

Não há dúvida de que algumas famílias, ou integrantes delas, recusam a convivência com o grupo, afastam-se para sempre, buscam apagar da memória a existência desse laço primordial. Mesmo essas pessoas procuram formar sua família fora dos laços tradicionais, que são os de sangue e os de aliança. Fazem dos amigos próximos sua família, por exemplo. Elas sentem na pele a importância de pertencer a um grupo e buscam criá-lo, já que enfrentaram impedimentos radicais em sua família de origem.

A família precisa ser cuidada porque sobrevive dos vínculos afetivos entre todos os seus integrantes, e isso dá trabalho. Mas enfrentar os conflitos que surgem no grupo com amorosidade, compaixão, respeito, generosidade e delicadeza, por exemplo, promove uma vida pessoal e familiar de qualidade.

Desejo a cada um carinhosas celebrações no Natal e na passagem de ano. Até 2019!

Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2018, edição nº 2612