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Facções criminosas levam o terror para dentro da Terra Indígena Yanomami

Banditismo do PCC e do Comando Vermelho desafia as autoridades com onda de violência

Por Victoria Bechara Atualizado em 4 jun 2024, 10h35 - Publicado em 19 Maio 2023, 06h00

Em vídeos publicados nas redes sociais, Sandro Moraes de Carvalho, de 29 anos, ostentava armamentos pesados e objetos de ouro como relógio, cordões, pulseiras e barras, supostamente frutos do garimpo ilegal. Também exibia treinamentos de tiro na mata, inclusive um em que, ao lado de comparsas, disparava para o céu e dizia: “Não passa nada, se passar nós derruba (sic)”. No dia 30 de abril, ele e mais três criminosos foram mortos ao tentar emboscar uma aeronave que desembarcava agentes da Polícia Rodoviária Federal e do Ibama na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. Com o bando foram apreendidas onze armas, incluindo espingardas calibre 12 mm, um fuzil e pistolas calibre 45, tudo de uso restrito. Sandro não era um bandido qualquer. Membro da organização criminosa PCC — em um vídeo, ele mostra o chefe do grupo, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola —, a sua morte em confronto com o poder público dentro da terra ianomâmi expôs, mais uma vez, a escalada da atuação de facções criminosas em áreas sensíveis da Amazônia.

O recrudescimento da violência pode ser medido em números — no intervalo de uma semana, catorze pessoas foram mortas. O banho de sangue começou no dia 29 de abril, quando três indígenas foram baleados por garimpeiros na comunidade Uxiú — o agente de saúde Ilson Xirixana não resistiu. No dia seguinte, houve as quatro mortes em confronto com os agentes na mesma região. Dois dias depois, as forças de segurança encontraram oito corpos de garimpeiros. Por fim, foi localizado o cadáver de uma mulher, com sinais de enforcamento, no dia 6, na mesma região. A barbárie crescente mostra que a retirada de invasores do território chegou a um ponto de tensão, com a resistência de um núcleo duro da bandidagem depois da saída ordenada de milhares de garimpeiros. Com isso, começou a se criar o pior cenário: profissionais do crime passam a ganhar espaço e gangues rivais se confrontam por disputa territorial. “Existem alguns foragidos vinculados a facções na região, mas não sabemos o número exato”, afirma o secretário de Segurança Pública de Roraima, André Fernandes.

FIM DA LINHA - Sandro Moraes: baleado em confronto por agentes
FIM DA LINHA - Sandro Moraes: baleado em confronto por agentes (./Reprodução)

O entrelaçamento de delitos como tráfico, garimpo, caça, pesca, desmatamento e grilagem criou terreno fértil para grupos criminosos na região. O PCC já era forte em Roraima, mas o envolvimento com uma gama de atividades na área ianomâmi chama a atenção das autoridades. A facção tem controle de maquinários, atua na segurança privada de chefes do garimpo e administra casas de prostituição e pontos de venda de drogas. “A chegada das facções muda a dinâmica da região”, afirma Rodrigo Chagas, professor da Universidade Federal de Roraima e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O interesse das gangues não está, claro, só no lucro das atividades em torno do garimpo. Um ponto central é a consolidação de rotas de drogas na fronteira, tanto que a atuação na região ganhou o nome de “narcogarimpo”. O comércio de skank, um tipo de maconha mais forte (e mais cara), produzida na Colômbia e vendida principalmente no Sudeste, é algo importante para o PCC, de origem paulista, e para a organização fluminense Comando Vermelho. “O PCC mantém uma hegemonia política e de poder na região. O CV atua basicamente na logística, utilizando as pistas de pouso do lado de fora do garimpo, nos municípios de Alto Alegre e Mucajaí”, diz Chagas. Segundo o pesquisador, a facção fluminense mantém uma parceria com a venezuelana Tren del Sur. Outras organizações criminosas do lado de lá da fronteira, como Casa Podrida, Tren del Llanos e Tren de Aragua, também disputam espaço.

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ARSENAL - Apreensão em Roraima: espingardas, fuzis e pistolas de uso restrito
ARSENAL - Apreensão em Roraima: espingardas, fuzis e pistolas de uso restrito (PRF/Divulgação)

A perspectiva de novos confrontos entre os grupos criminosos e as forças policiais cresceu depois da megaoperação iniciada pelo governo Lula em fevereiro, quando veio a público a calamidade sanitária vivida pelos ianomâmis. Completando 100 dias nesta semana, a intervenção já destruiu 327 acampamentos e apreendeu 24 aeronaves e cinquenta embarcações. “Não há dúvida de que se trata de coisa do crime organizado”, diz Marivaldo Pereira, secretário nacional de Acesso à Justiça. O governo planeja mais ações no território, com o reforço de efetivo e a construção de bases permanentes de fiscalização.

A tomada de território pelas facções é mais um dos problemas causados pela longa ausência do Estado na região, em especial no governo Jair Bolsonaro, sendo que os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, em junho de 2022, viraram símbolos do descalabro. O crime não dá sinais de retroceder. Na terça 16, homens armados atacaram uma base no Rio Uraricoera, cortaram o cabo de aço que impedia a passagem em direção aos garimpos e trocaram tiros com a Força Nacional de Segurança. A disposição dos bandidos para o confronto precisa ser enfrentada — com organização, inteligência, estrutura e o rigor da lei. A Amazônia não pode virar terra sem lei.

Publicado em VEJA de 24 de maio de 2023, edição nº 2842

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