Escândalos deram mais engajamento que pesquisas na pré-campanha, diz instituto
Suspeitas envolvendo Alfredo Gaspar, vice de Flávio Bolsonaro, e Lulinha, filho de Lula, mobilizaram as redes sociais
A eleição de 2026 já começou a disputar espaço nas redes sociais, mas não são apenas pesquisas, alianças ou regras eleitorais que mobilizam a atenção. Na semana de 4 a 10 de agosto, denúncias e investigações estiveram entre os assuntos que mais movimentaram o debate político digital, segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque (DX). A escolha de Alfredo Gaspar (PL-AL) para vice de Flávio Bolsonaro e as investigações envolvendo Luiz Inácio Lula da Silva Filho, o Lulinha, foram os principais exemplos identificados pelo instituto.
O movimento chama atenção porque conteúdos sobre escândalos tiveram maior engajamento na imprensa do que publicações predominantemente informativas sobre política e eleições, segundo o relatório. No caso da imprensa, a escolha do vice de Flávio Bolsonaro respondeu por 23% da produção temática, enquanto a investigação sobre o INSS ficou com 22%. Já as publicações sobre lei eleitoral e propaganda somaram 19%, as pesquisas de intenção de voto 10% e as convenções partidárias 7%.
O fenômeno aparece também no volume de interações. O eixo dedicado à escolha do vice reuniu 4. 923 publicações e 38,1 milhões de interações. A investigação envolvendo Lulinha somou 2. 237 posts e 18,4 milhões de interações. Em comparação, a agenda de governo teve 2. 218 publicações e 7,1 milhões de interações.
Para o DX, o cenário merece atenção à medida que a eleição se aproxima porque pode aumentar o peso de denúncias, investigações e conflitos na formação da agenda pública e na disputa pela atenção dos eleitores.
Gaspar vira primeiro grande teste da chapa de Flávio
A escolha de Alfredo Gaspar como vice colocou a chapa de Flávio Bolsonaro no centro da conversa digital. O anúncio respondeu por 25% das publicações e 25% das interações entre os principais eixos analisados pelo DX e foi o único assunto a superar a disputa política nacional em um dos dias da semana. Em 5 de agosto, data do anúncio, foram registrados 1. 676 posts sobre o vice, contra 1. 085 sobre política nacional.
A indicação abriu uma disputa de narrativas. Enquanto a direita apresentou Gaspar como um nome de perfil anticorrupção e linha-dura, setores progressistas concentraram a reação nas acusações que envolvem o deputado. O DX registra que Gaspar é alvo de acusação de estupro de vulnerável (feita por parlamentares da base de Lula) e de suspeita de desvio de emendas — esta última, segundo o relatório, ainda sem inquérito formalmente aberto e negada pelo parlamentar.
A reação da direita foi rápida: segundo o instituto, a atuação nas redes em defesa de Gaspar passou pela divulgação de um exame de DNA. O episódio produziu, assim, duas versões do mesmo acontecimento: de um lado, a tentativa de apresentar o vice como reforço eleitoral para Flávio, especialmente em Alagoas. De outro, a exploração das acusações como possível fragilidade da chapa.
A escolha, portanto, manteve a candidatura de Flávio no centro do debate, mas não necessariamente em termos positivos. O nome do vice tornou-se um dos assuntos de maior repercussão da semana e levou a chapa a ocupar simultaneamente o espaço de campanha e o de resposta a acusações. Entre os três campos monitorados pelo DX, a escolha do vice foi justamente o eixo mais equilibrado: 48% das publicações vieram da extrema direita, 27% da esquerda e 25% da imprensa.
O dado ajuda a explicar a força do episódio: a escolha de Gaspar combinou um fato eleitoral com uma acusação criminal em apuração, combinação que ampliou sua presença jornalística. O próprio DX aponta essa característica como explicação para a participação de 25% da imprensa no assunto.
Lulinha vira munição contra Lula
O segundo caso destacado pelo DX envolve as investigações sobre Lulinha. O assunto representou 11% das publicações analisadas e foi o eixo de maior concentração da direita, com 73% das publicações desse campo.
A repercussão também foi concentrada no tempo. Em 4 de agosto, quando veio a público o terceiro inquérito envolvendo Lulinha, o tema chegou a 906 publicações, muito acima dos 97 a 481 posts registrados nos demais dias analisados.
Na estratégia da direita, o caso se encaixou em uma narrativa mais ampla de ataque ao governo. Segundo o DX, quase um terço da produção desse campo foi dedicado à crítica cotidiana a Lula, enquanto a escolha de Gaspar respondeu por outros 18% e a investigação sobre o INSS, por 16%. Somados, os três blocos representaram dois terços da produção semanal da direita e foram interpretados pelo instituto como parte de um esforço de construção da candidatura de Flávio e desconstrução do adversário.
O campo governista, por sua vez, respondeu enfatizando a independência das investigações e a ausência de interferência de Lula. O assunto, porém, não chegou a formar um eixo próprio entre os conteúdos da esquerda analisados pelo DX.
A eleição entre denúncias e propostas
O contraste aparece quando a atenção aos escândalos é colocada ao lado dos temas tradicionalmente associados à disputa eleitoral. A imprensa foi o único dos três campos analisados pelo DX a dedicar espaço específico às regras eleitorais para uso de obras e publicidade e às pesquisas de intenção de voto. Juntos, esses assuntos representaram quase um terço da produção jornalística analisada, mas não chegaram a constituir temas próprios nos campos políticos.
Na prática, o eleitorado digital está sendo apresentado a uma pré-campanha em que a disputa por atenção passa tanto — ou mais — por denúncias, investigações e conflitos quanto pela apresentação de propostas e pelas regras que organizam a eleição.







