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Entidade indígena contesta laudo que apontou que cacique morreu afogado

Para o Conselho das Aldeias Waiãpi, corpo tinha marcas de pancadas na cabeça, cortes atrás da orelha e abaixo do olho e outras lesões; PF espera outro laudo

O Conselho das Aldeias Waiãpi – Apina emitiu nota oficial na qual questiona laudo necroscópico preliminar divulgado pela Polícia Federal na sexta-feira 16 que apontou que o cacique Emyra Waiãpi morreu por afogamento. O documento, assinado por dois médicos legistas do Amapá não apresentou evidências de que ele tenha sido assassinado a facadas, conforme chegou a ser dito por indígenas da aldeia à qual ele pertencia.

A PF também descartou preliminarmente que tenha havido confronto entre ele e garimpeiros invasores, porque não encontrou em seu corpo “lesões de origem traumática”, fraturas nem marcas no pescoço que indicassem enforcamento. A perícia identificou apenas um machucado superficial, “que não atingiu planos fundos”, na cabeça do cacique. “Apesar das informações iniciais darem conta de invasão de garimpeiros na terra indígena e sugerirem possível confronto com os índios, que teria ocasionado a morte da liderança indígena, o laudo necroscópico não apontou tais circunstâncias”, diz texto divulgado pela PF.

O Apina discorda. “Entendemos que o laudo da Polícia Técnica que concluiu que a causa da morte do chefe Emyra foi afogamento não significa que esta morte tenha sido por acidente, pois o laudo também confirma ferimentos na cabeça. Continuamos acreditando na versão da família do chefe de que a morte foi violenta, pois vimos as imagens do corpo onde aparecem marcas de pancadas na cabeça, cortes atrás da orelha e abaixo do olho e um furo no pênis que parece ter sido feito por uma faca. Estas imagens já foram entregues para a Polícia Federal, para a Funai (Fundação Nacional do Índio) e para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Além disso, o corpo foi encontrado em um igarapé muito raso, onde é muito difícil uma pessoa adulta se afogar por acidente”, afirma trecho da nota.

O corpo de Emyra precisou ser exumado para a realização do exame. A PF agora aguarda o resultado do laudo toxicológico, que deve sair em 30 dias. Com idade estimada em 68 anos, o líder indígena foi encontrado caído em um rio no dia 23 de julho. O cacique é descrito como alguém tranquilo, que mal falava português e não era afeito a visitas às cidades. A morte alarmou o povoado porque o chefe indígena nunca havia se envolvido em conflitos anteriores.

A informação sobre o assassinato e sua relação com os invasores chegaram aos ouvidos do vereador Jawaruwa Waiãpi, da cidade de Pedra Branca do Amapari, um dos líderes da etnia. Ele repassou os pedidos de socorro dos indígenas ao senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que ajudou a espalhar o alerta a artistas e publicou um vídeo sobre o caso na internet. Na ocasião, a Funai emitiu um comunicado em que detalhava a versão contada pelos habitantes da aldeia — e o caso ganhou repercussão em todo o mundo.

Na nota, o Apina afirma que a palavra “garimpeiros” foi usada por alguns Wajãpi para se referir aos supostos invasores “porque desde o tempo da invasão do nosso território por garimpeiros, na década de 1970, acostumamos a usar esta palavra para falar na nossa língua sobre qualquer pessoa estranha que entra na nossa terra sem autorização”. “Mas temos certeza que invasores entraram na nossa terra, conforme ouvimos de testemunhas que viram essas pessoas na região da aldeia central Mariry e próximo à aldeia CTA, na região da BR 210. Além disso, muitas pessoas encontraram rastros e outros sinais de passagem de pessoas estranhas nestas duas regiões da Terra Indígena Waiãpi”.

Também no comunicado, o Apina diz que a situação voltou ao normal na terra indígena. “Desde o dia 7 de agosto, nossos guerreiros pararam de realizar buscas porque não foram encontrados novos rastros. Os homens já voltaram a caçar e as mulheres já estão indo para suas roças, mas todos ainda continuam preocupados porque não temos certeza de que os invasores realmente foram embora. Entre os dias 13 e 17 de agosto realizamos o V Encontro de Chefes Wajãpi no Posto Aramirã, onde recebemos representantes do movimento indígena, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, da Funai, da 6ª Câmara do Ministério Público Federal, da Defensoria Pública da União, da Associação de Defensores Públicos do Estado do Amapá e do Exército Brasileiro para apresentar nossas preocupações e discutir medidas para a proteção da Terra Indígena Wajãpi”, afirma.