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Entenda a sucessão à prefeitura de São Paulo

Depois da decisão de Serra de concorrer, Matarazzo desistiu e Covas deve fazer o mesmo. Veja 19 perguntas e respostas sobre a disputa na capital

Por Da Redação 26 fev 2012, 17h57

O secretário estadual de Cultura, Andrea Matarazzo retirou oficialmente sua pré-candidatura neste domingo. Após a confirmação de que o ex-governador José Serra vai formalizar sua participação na disputa eleitoral, o anúncio já era esperado. “Vocês nunca vão me ver disputar uma eleição com Serra”, disse Matarazzo, em entrevista coletiva. O secretário estadual de Meio Ambiente, Bruno Covas, deve fazer o mesmo anúncio até segunda-feira.

Apesar dos sinais de que o PSDB vai se unir em torno da candidatura de Serra, São Paulo assiste à disputa eleitoral de resultado mais incerto desde que o eleitorado das capitais recuperou o direito de eleger o prefeito. Isso se deve à determinação do PT de se aliar, no primeiro ou no segundo turno, a qualquer bicho que se mova – desde que não seja tucano.

O PSDB, por sua vez, já percebeu que a eleição na capital paulista é vista pelo Planalto como um ensaio geral para tentar tomar o Palácio dos Bandeirantes, onde petista nunca pôs os pés. Seguem, abaixo, 19 perguntas, com suas respectivas respostas, sobre a sucessão na maior cidade do país.

1 – Por que Serra será o candidato do PSDB? Porque é o único que tem condições de reunir o atual arco de alianças que se opõe ao petismo no estado e na cidade. O prefeito Gilberto Kassab dizia aceitar a aliança com os tucanos desde que o titular da chapa fosse do seu partido, o PSD. Sabia que a condição era considerada inaceitável pelo governador Geraldo Alckmin. Kassab só admitia uma exceção: Serra como cabeça de chapa.

2 – Kassab queria, então, Serra como candidato? Não exatamente. Kassab considera que seu principal adversário em São Paulo é Geraldo Alckmin, que foi o único tucano de alta plumagem que tentou inviabilizar o seu partido, o PSD. No resto do Brasil, os tucanos apoiaram a criação da nova legenda. Em São Paulo, Alckmin hostilizou o PSD e demitiu do secretariado o vice-governador, Guilherme Afif. Assim, Kassab preferiria estar num grupo que fizesse oposição ao governador. Por isso se aproximou do PT. Com Serra candidato, o prefeito, por dever de lealdade, adia o seu projeto de fazer oposição aberta a Alckmin.

3 – Mas o que quer Kassab? Quer ser poder onde quer que esteja. Por isso o seu partido não é “de direita, de esquerda ou de centro”. O PSD não faz oposição a nenhuma administração estadual nem ao governo federal. Formalmente ao menos, não se opõe nem a Alckmin. Hoje, é o partido mais governista do país. É uma espécie de PMDB elevado ao estado de arte. Seu lema poderia ser: “Se há governo, sou a favor”. O prefeito estava doido para cair no colo da presidente Dilma. O apoio a Fernando Haddad seria o primeiro passo. A candidatura de Serra adiou a sua adesão.

4 – O projeto de Kassab é partidário ou é pessoal? As duas coisas. Na esfera federal, o partido quer exercer a sua vocação governista. Na estadual, o propósito esbarra em Alckmin e seu grupo. Kassab quer se candidatar ou ao governo de São Paulo ou ao Senado em 2014, quando se elege apenas um senador. Tudo o mais constante, Alckmin concorrerá à reeleição. Dificilmente Kassab será o candidato ao Senado do grupo. Por isso ele tentou se unir aos petistas: o objetivo, de fato, seria unir forças para derrotar Alckmin em 2014.

5 – Kassab tem baixa popularidade. Por que PSDB e PT lutaram tanto por seu apoio? Kassab está montado num caixa considerável para gastar até as eleições – algo em torno de 5 bilhões de reais. Tem grandes inaugurações a fazer – entre elas, três grandes hospitais. Há áreas da administração que mereceriam destaque nacional: os professores do município são, por exemplo, os maios bem-pagos do país. O prefeito tem ainda sob a sua influência algo em torno de 60% ou 70% da Câmara de Vereadores. É difícil vencer uma eleição sem eles, como percebeu Geraldo Alckmin em 2008. Kassab tem hoje bons amigos até na bancada petista.

6 – O PT conseguirá reproduzir em São Paulo a aliança que existe em escala nacional, como queria Lula? Não no primeiro turno ao menos. Lula sonhou, por exemplo, em ter Gabriel Chalita como vice de Fernando Haddad. Não terá. Considera, em todo caso, um prejuízo menor porque o ideólogo da “política e da pedagogia do amor” tende a tirar a votos, avalia o ex-presidente, do eleitorado que poderia escolher Serra. Nos debates, o PT espera que o neopeemedebista eleja o tucano como alvo. Num eventual segundo turno disputado por Fernando Haddad, o PT considera o apoio do “candidato do amor” (e do ódio a Serra) como certo.

7 – E o PCdoB, do vereador Netinho de Paula? Apoiará Haddad? O PT luta por isso, mas não é o que está dado hoje. Netinho, até agora, rejeita a aliança com o PT. Alas ideológicas do PCdoB também não estão satisfeitas com o petismo. O ex-ministro Orlando Silva (Esportes), por exemplo, atribui ao PT a fritura a que foi submetido. Os petistas querem impedir a candidatura de Netinho. Se avaliam que Chalita tira votos de Serra, acham que Netinho tende a pegar uma fatia do eleitorado potencialmente petista. É bom lembrar que o PCdoB tem uma secretaria na gestão Kassab, a que cuida da Copa do Mundo.

8 – Quem será o vice de Serra? Tanto o neocandidato como Kassab lutam para que seja alguém do PSD. O mais cotado, nessa hipótese, é o secretário de Educação do município, Alexandre Schneider, ex-tucano convertido ao kassabismo, mas ainda próximo de Serra. Há resistências no PSDB e, sobretudo, no DEM, um potencial aliado importante, sobretudo por causa do tempo de TV.

9 – O DEM aceita um vice do PSD? Em princípio, não, e ameaça migrar para Chalita. O partido tem uma espécie de deliberação nacional, embora não posta em papel, segundo a qual pode integrar uma aliança de que o PSD faça parte, mas jamais apoiar um chapa em que o partido tenha o titular ou o vice. Se o DEM bater o pé e decidir recusar um vice de Kassab sob pena de apoiar Chalita, o nome de Schneider sobe no telhado.

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O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab VEJA

10 – E se o DEM se juntar a Chalita? Será ruim para o PSDB, que perde um tempo precioso na televisão, mas pode trazer prejuízos ao próprio Democratas. O partido pretende ser inequivocamente “de oposição” ao PT. Gabriel Chalita, o amoroso, orgulha-se, no horário político do partido, de fazer parte da base de apoio a Dilma e de ter ajudado a elegê-la. A menos que o DEM pretenda exibir o seu lado adesista, governista, a aliança é incômoda.

11 – É possível haver uma chapa tucana pura, só com tucanos? É possível, mas é difícil.

12 – Quem venceria as prévias do PSDB, antes da candidatura Serra? Nove entre dez tucanos asseguram que seria Andrea Matarazzo. Ele pertence, originalmente, ao grupo político de Serra, mas não tinha a sua bênção para se lançar na postulação. A razão é simples: inicialmente, Serra defendia que o candidato do atual arco de alianças que governa São Paulo fosse Guilherme Afif, do PSD. Matarazzo se lançou na empreitada por conta própria e viu sua pré-candidatura crescer no partido.

13 – Caso se faça a chapa pura, isso significa que Matarazzo seria o favorito para vice? Não necessariamente. Matarazzo e Bruno Covas vão, com certeza, retirar as suas respectivas postulações nas prévias. José Aníbal e Ricardo Trípoli dizem que as manterão. Caso se optasse por uma chapa pura, avalia-se que o governador Geraldo Alckmin pressionaria para que o indicado fosse Bruno Covas, já que Matarazzo é considerado um “serrista”, embora, nessa disputa, tenha se lançado sem a anuência do líder do seu grupo.

14 – O que fará o PSB? O PSB é um dos principais aliados do PT no Brasil. Mas o partido sonha em construir o seu próprio espaço. Pertence ao arco de alianças de Alckmin em São Paulo e tem uma secretaria no estado. Eduardo Campos, governador de Pernambuco e grande chefe do PSB, é, hoje, um dos principais interlocutores de Kassab – o prefeito de São Paulo deixou o Carnaval de sua própria cidade para prestigiar o de Recife… No Palácio dos Bandeirantes, há quem considere que o PSB caminha para o apoio a Serra. O PT considera essa hipótese improvável.

15 – A eleição de 2012 já traz conseqüências para 2014? Sim! Pode-se até dizer que se vive em 2012 uma espécie de prévia de 2014 e até de 2018. Alckmin e os tucanos nunca aceitaram dar a cabeça de chapa ao PSD porque consideravam que, em caso de vitória, os tucanos ficariam enfraquecidos em São Paulo, já que o prefeito eleito seria candidato natural à reeleição em 2016. Um dos arranjos iniciais possíveis era Kassab surgir como vice de Alckmin em 2014. Nessa hipótese, alertaram alguns tucanos, chegar-se ia a 2018 com a possibilidade de o PSD estar na Prefeitura e pleitear a cabeça de chapa na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. O PSDB estaria, assim, voluntariamente, entregando a cabeça à guilhotina.

No petismo, ninguém esconde que a eventual conquista da Prefeitura é só um primeiro passo para a verdadeira jóia da caroa: o governo do estado, aonde o PT jamais chegou. O partido já governou a capital duas vezes, mas sempre naufragou na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. Por isso seria tão importante rachar o atual condomínio que governa capital e estado; por isso a tentativa de atrair Kassab para o petismo.

16 – O que acontece se Serra vencer? E se perder? Caso Serra vença, Kassab terá de adiar os seus planos de ser base do petismo, a menos que o próprio tucano deserte e deixe seu aliado livre para fazer suas próprias escolhas. Caso Serra seja derrotado, Kassab se livra de qualquer obrigação e poderá fazer o que sempre quis: conduzir a sua legenda para a base de apoio a Dilma Rousseff. PT e PSD estão juntos em várias cidades importantes, inclusive na mítica São Bernardo, onde Lula nasceu para a política.

17 – Serra desistiu da Presidência? Na disputa de 2014, sim! Terá de gastar boa parte de suas energias tentando convencer o eleitor paulistano de que não vai deixar a administração para se candidatar a outro cargo. Esse será o flanco principal a ser atacado pelos adversários. Se não for convincente nessa resposta, sua candidatura naufraga.

18 – Aécio Neves é, então, o candidato certo do PSDB à Presidência? Em tese, sim! Mas só em tese. O próprio ex-presidente Fernando Henrique Cardoso já afirmou que ele tem de demonstrar que tem condições de ser o candidato tucano. Serra não será mais um empecilho, ganhe ou perca a disputa pela Prefeitura. Agora ele terá de se estabelecer por conta própria, sem adversários internos. E isso significa que terá de dizer alguma coisa. Oposicionistas o tratam pelos corredores como uma decepção, incapaz de orientar a resistência ao petismo.

19 – O que vai acontecer? A disputa pela Prefeitura de São Paulo, em 2012, vai se mostrando uma das mais incertas da história. Tudo pode acontecer. Em sua sede de abraçar o mundo, o PT aceita qualquer bicho que se mova, desde que não seja tucano. Os aliados de sempre, por outro lado, começam a sonhar em construir o seu próprio espaço, o que abre vaga para novas vocações adesistas.

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