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Enchentes: só tecnologia de ponta não basta para evitar tragédias

As previsões meteorológicas no Brasil vão dar um salto de qualidade a partir do fim do ano. No município de Cachoeira Paulista (SP), entrará em operação o novo supercomputador do Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (Inpe), comprado por 31 milhões de reais e que deve aumentar em 50 vezes a capacidade de processamento de dados sobre meteorologia no Brasil, que passa a integrar o grupo dos 25 países com maior capacidade de previsão do clima. É tanta velocidade que fica difícil traduzir a capacidade da nova máquina. Para quem sofreu com a violência das chuvas no Grande Rio, o interessante é saber que o nível de detalhamento da precisão do tempo passará de 20 para cinco quilômetros – o que significa, por exemplo, diferenciar o volume de chuvas que cairá entre o Rio de Janeiro e Niterói, ou entre bairros da mesma cidade.

O cronograma do Inpe foi pensado para que, já a partir da próxima estação de chuvas, o equipamento fornecido pela empresa Cray, adotado em outros centros de tecnologia de ponta nos EUA, esteja a serviço dos órgãos de defesa civil de todo o país. A tecnologia de ponta, no entanto, não basta para evitar tragédias. Como destaca o especialista em risco e planos de emergência Moacyr Duarte, da Coppe/UFRJ, soluções tão antigas como o uso eficiente de telefones de emergência – para que autoridades saibam o que está acontecendo em pontos vulneráveis da cidade – e a organização de núcleos locais de defesa civil têm tanta importância quanto a exatidão da previsão do tempo.

“As cidades só estarão preparadas para enfrentar catástrofes quando pensarem no atacado, estrategicamente. O varejo não comporta mais a complexidade dos centros urbanos e de todas as ameaças com que a população convive hoje”, ensina Duarte.

Pensar no atacado significa, na prática, estar pronto tanto para mobilizar a sociedade em uma chuva atípica como em um derramamento de carga tóxica em uma via expressa. “O nó de tudo isso é que o Programa Nacional de Defesa Civil distingue ação preventiva, resposta e recuperação. As defesas civis não têm autoridade para gerir, sozinhas, os riscos que têm obrigação de enfrentar”, critica Duarte.

Áreas de risco – O que o pesquisador da Coppe defende é que as informações disponíveis, como as que serão geradas pelo supercomputador, tenham como chegar rapidamente à população que pode ser afetada pelo dano iminente. E que não só a autoridade, mas pessoas com algum treinamento, nos locais vulneráveis, possam devolver aos gestores dados para identificar áreas de maior risco.

“Imagine núcleos de defesa civil com protocolos estabelecidos em cada bairro. Quando a cidade ficar ilhada, como em grandes temporais, as pessoas saberão o que fazer. Existem dispositivos de baixa tecnologia que ajudam a prever acidentes, com a observação de detritos correndo em calhas de chuva. São sinais típicos de pré-desmoronamento. Se cada núcleo local tiver como transmitir esse tipo de informação aos gestores da crise, administradores e Defesa Civil saberão para onde devem enviar recursos”, detalha.

Para terem utilidade prática, os 244 trilhões de cálculos por segundo do supercomputador Cray terão que encontrar, nas cidades, informações bem mais simples de se obter: onde há risco de deslizamento e, principalmente, se alguém mora naquele local. Nesse ponto, o Rio falhou. As mais de 250 mortes ocorreram, quase todas, em deslizamentos registrados em ocupações ilegais. “Processos geológicos, como desmoronamentos, precisam de mapeamento e inspeção constante, porque são dinâmicos. A chuva que caiu em abril instabilizou muitos sítios que, até então, não eram considerados críticos”, alerta Duarte.

O problema é que, mesmo onde o risco era conhecido, as defesas civis estadual e municipal não foram capazes de evitar mortes. E, nesse ponto, não há supercomputador que possa ajudar. A competência dos estados é prover suporte e agir onde os municípios identificam riscos – o que nem sempre acontece. “Vimos situações muito preocupantes nas defesas civis de cidades atingidas, uma delas Niterói”, limita-se a dizer o secretário estadual de Saúde e Defesa Civil, Sérgio Côrtes.

Núcleos de Defesa Civil (Nudecs), estruturas previstas pelo Plano Nascional de Defesa Civil e que poderiam desempenhar o papel imaginado pelo especialista da Coppe, já operam em alguns bairros da capital e em municípios com características específicas – como Angra dos Reis, que tem usinas nucleares, e Macaé, com instalações da Petrobras. Mas, para dar conta do trabalho em uma região metropolitana rodeada de favelas, é pouco.

Coordenação – No estado do Rio, formalmente, existem unidades municipais de Defesa Civil em 91 dos 92 municípios – a exceção, segundo o Corpo de Bombeiros, é Quatis, com cerca de 12 mil habitantes. Da existência à ação, porém, o caminho é longo. Niterói, que beira o meio milhão de moradores e foi a cidade com maior número de mortos na tragédia da semana passada (166, pela contagem oficial), fundiu a Defesa Civil a uma secretaria municipal de Segurança. Mas, na prática, desde a tragédia do Morro do Bumba, depende de outros órgãos do estado – com a própria Defesa Civil Estadual e o Departamento de Recursos Minerais – para coordenar as ações de emergência e descobrir onde ainda há risco geotécnico. Ambas são atribuições do município.

A exceção entre as cidades da Região Metropolitana é a capital. Desde a desastrosa enchente de 1966, quando um temporal deixou 70 mortos no Rio, funciona na cidade uma fundação com corpo técnico que monitora áreas de risco geotécnico e orienta ações da prefeitura, a GeoRio. Mesmo assim, a cidade teve 66 mortes nas últimas chuvas. Niterói só agora vai criar um serviço semelhante, que está sendo chamado de GeoNit. Da assinatura do prefeito ao resultado efetivo do trabalho de um grupo técnico, no entanto, muita água ainda pode rolar.