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Empresa que inspecionou barragem da Vale fez consultoria para mineradora

Caso configura conflito de interesse: segundo The Wall Street Journal, fiscais não teriam independência para prestar serviço

Uma das empresas que atestaram a segurança da barragem de Brumadinho que se rompeu na última sexta-feira 25 também prestou serviços de consultoria para a Vale, segundo o jornal americano The Wall Street Journal. O cenário poderia configurar conflito de interesse.

De acordo com a reportagem, a empresa alemã TÜV SÜD, que a Vale contratou para averiguar a Barragem I da Mina Córrego do Feijão, também atuou como consultora da mineradora em projetos de descomissionamento de minas no país.

Além disso, funcionários da TÜV SÜD também teriam elaborado relatórios de pesquisa para a multinacional e participado de conferências com representantes da Vale.

É consenso internacional que fiscais de segurança de barragens devem demonstrar independência em relação aos seus clientes, segundo o WSJ.

Em alguns países se discute, inclusive, se empresas deveriam concorrer a trabalhos de consultoria enquanto realizam auditorias independentes. A preocupação é que a objetividade de um fiscal possa ser comprometida se ele também ganhar dinheiro aconselhando seu cliente em questões de negócios.

Nos Estados Unidos, por exemplo, empresas são proibidas por lei de fornecer muitos tipos de consultoria para as empresas cujas demonstrações financeiras auditam. No Canadá, que também tem grande atividade mineradora, as auditorias de empreendimentos do ramo devem ser realizadas por organizações cuja independência possa ser demonstrada “pela liberdade de responsabilidade” ou “pela ausência de preconceito e conflito de interesses”.

Na última terça-feira 29, os engenheiros da TÜV SÜD Brasil e terceirizados da Vale André Yassuda e Makoto Manba, ligados ao projeto da barragem que se rompeu, foram presos.

Eles são suspeitos de fraudarem laudos técnicos da empresa, permitindo operações na barragem da Mina Córrego do Feijão e atestando sua estabilidade. As ordens de prisão foram expedidas pela Justiça de Minas Gerais.

Também foram presos, em Minas Gerais, outros três funcionários da Vale diretamente envolvidos e responsáveis pelo empreendimento. Cesar Augusto Paulino Grandchamp, geólogo, Ricardo Oliveira, gerente de Meio Ambiente Corredor Sudeste e Rodrigo Artur Gomes de Melo, gerente executivo do Complexo Paraopeba.

O número de mortos na tragédia subiu para 115, segundo informou a Defesa Civil de Minas Gerais no começo da noite desta sexta-feira 1. Ainda há 248 desaparecidos. Foram identificados 71 corpos até o momento.

A Vale informou ao Wall Street Journal por e-mail que a TÜV SÜD atua como auditora externa para a Vale, mas não respondeu ao questionamento sobre o conflito de interesse.

Também disse que a barragem em Brumadinho foi fiscalizada repetidas vezes, por diversas empresas, inclusive pela Vale, que afirmou em janeiro que a estrutura não corria riscos.

Já a TÜV SÜD lamentou a tragédia, mas afirmou que não comentaria outros temas, já que a investigação ainda está em andamento.