Em novo livro, jornalista francês mergulha no caso Marielle: ‘perguntas não foram respondidas’
A VEJA, Jean-Mathieu Albertini fala sobre suas descobertas e relação com a família da vereadora carioca
O jornalista francês Jean-Mathieu Albertini, especializado em notícias brasileiras, ficou em choque quando, numa noite de março de 2018, a vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes foram assassinados. Escreveu várias matérias sobre o assunto até que decidiu, em 2024, começar a tirar um plano do papel: escrever um livro sobre o caso.
Em 6 de agosto, a obra “Rio Confidential : qui a tué Marielle Franco ?” (Rio Confidencial: quem matou Marielle Franco?, em tradução livre), foi finalmente lançada na Biblioteca do Consulado Geral da França no Rio de Janeiro, no Castelo. O livro é um mergulho no caso Marielle, possível graças a uma ampla investigação conduzida por Albertini nos últimos anos.
A VEJA, o jornalista falou sobre a relação com a família da vereadora, as descobertas do livro e as perguntas que ainda permanecem sem resposta. Veja abaixo.
O que motivou um jornalista francês a dedicar anos de investigação ao assassinato de Marielle Franco?
Eu me interessei pelo assunto desde o início, em 2018, quando houve o assassinato. Todo mundo falava disso. Escrevi várias matérias sobre o caso na época, mas, como a investigação ainda estava muito no início, não tinha como mergulhar completamente no assunto. Quando houve a prisão dos mandantes, em 2024, a coisa pareceu tão grande e absurda que me deu vontade de cair de cabeça, de tirar um tempo e me dedicar para poder entender melhor. Alguns livros foram publicados sobre o caso, mas sentia que faltava uma atualização. O meu livro traz um panorama geral, mas também gera novas perguntas. Muitas delas ainda não foram respondidas.
Como foi sua relação com a família de Marielle durante a pesquisa para o livro?
Antes de escrever o livro, não conhecia ninguém da família da Marielle pessoalmente. Tinha entrevistado a Monica Benicio duas vezes depois do assassinato, mas só. Não tinha relação com o pai, a mãe, a filha de Marielle. Entrei em contato com eles porque sabia que seria muito difícil contar essa história sem a bênção deles. Era essencial. Não queria que parecesse algo tipo: “sou um estrangeiro e vou vasculhar a vida de vocês”. Queria contar a história da Marielle, quem era como pessoa, e precisava deles. Conversamos várias vezes. É uma relação muito boa.
Quais são as novidades que o livro traz?
O livro é quase um resumo de tudo o que aconteceu. Mas, ao mesmo tempo, também vai averiguar algumas perguntas que ainda não foram respondidas nas investigações. Infelizmente, não consegui encontrar respostas para todos os meus questionamentos, como o destino das armas usadas no assassinato. Levanto várias hipóteses sobre isso. Ninguém sabe, até hoje, o que motivou o porteiro do condomínio Vivendas da Barra (VEJA revelou que se tratava de Alberto Jorge Ferreira Mateus) a afirmar que Élcio Queiroz foi para o apartamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Há muitos pontos em aberto. Trouxe novas pistas. Espero que haja um desfecho completo no futuro.
O livro apresenta o assassinato de Marielle como um retrato de um sistema de poder mais amplo no Rio de Janeiro. Como definiria esse sistema e por que o caso se tornou um retrato dele?
O sistema do Rio de Janeiro, na verdade, político e policial. Isso não era desconhecido, mas o caso Marielle escancarou isso para os brasileiros durante meses, anos. Saiu de um pequeno círculo que entendia o que acontecia, como jornalistas, para se tornar de conhecimento público. Acredito que boa parte da população carioca é traumatizada pela violência. E isso faz com que muitas pessoas apoiem uma distopia policial em que se pode tudo, não se há controle. Há muita impunidade.
VEJA publicou reportagens exclusivas sobre os bastidores da investigação e a atuação dos supostos mandantes. Na sua avaliação, qual foi o papel da imprensa para que o caso continuasse avançando ao longo dos anos?
Sem a imprensa, o caso nunca teria ido tão longe. A pressão da mídia fez com que a investigação continuasse e ressuscitasse várias vezes. Acredito que os mandantes e os próprios implicados no crime não esperavam por isso: “Ah, vamos matar uma figura política, vai fazer um barulho, mas já fizemos isso antes. Ninguém vai encontrar nada, e vida que segue”. E não foi o que aconteceu. A imprensa foi fundamental para manter a chama acesa.







