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Em 10 anos, EUA aumentam em 400% visto para brasileiros ultraqualificados

Crescimento reforça o movimento de "fuga de cérebros" pela qual o Brasil vem passando; país cai em ranking de retenção de talentos

Por Leonardo Lellis Atualizado em 25 set 2021, 20h46 - Publicado em 25 set 2021, 12h16

Em dez anos, os Estados Unidos aumentaram em mais de 400% a emissão de vistos a profissionais e pesquisadores brasileiros com conhecimentos excepcionais em suas áreas. Enquanto apenas 50 profissionais receberam os vistos EB1 ou EB2 em 2010, este número saltou para 281 em 2020, de acordo com números do Departamento de Estado americano.

Esses vistos são voltados para quem demonstra habilidades “extraordinárias” na ciência, negócios, educação e artes. Para se ter uma ideia, o candidato ao visto EB1, que não exige comprovação de trabalho, deve cumprir alguns requisitos como apresentar  premiações na área de atuação (como um Oscar) ou comprovar ter contribuições científicas originais. Já o EB2 exige a comprovação de emprego ao candidato, além de alto nível de formação acadêmica.

“A categoria EB de visto de imigrante é reservada para candidatos com talento extraordinário, permitindo a pessoas que se qualificam a continuar seu desenvolvimento nos Estados Unidos. O grande número representa um notável nível de talento presente no Brasil”, informa a Embaixada dos EUA no Brasi.

O aumento reforça o movimento de “fuga de cérebros” pela qual o Brasil vem passando nos últimos anos. O crescimento mais acelerado coincide com a expansão da comunidade brasileira no exterior. Segundo estimativas do Itamaraty, há 4,2 milhões de pessoas morando fora do país. Mas a crise econômica, escassez de boas oportunidades e a busca por melhor qualidade de vida têm levado muito gente a escolher o caminho do aeroporto.

Entre 2019 e 2020, o Brasil caiu da 63ª para a 70ª posição no quesito retenção de talentos em um ranking global de competitividade. Uma nota técnica do Instituto de Pesquisas Econômicas mostra que os gastos do governo Jair Bolsonaro em ciência e tecnologia somaram 17 bilhões de reais em 2020, um nível inferior ao observado em 2009 (19 bilhões em valores reais). 

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O ambiente inóspito para pesquisa e a incapacidade de o mercado absorver mão de obra qualificada também alteram o perfil de que vai embora. É cada vez maior o número de famílias com integrantes com ao menos um diploma de ensino superior indo embora, sem qualquer intenção de voltar.

O médico Eduardo Rodrigues, 45, deixou para trás uma carreira consolidada na área de oftalmologia e uma clínica com quase 10 mil pacientes em Florianópolis. Segundo ele conta, foi a instabilidade econômica daqui que pesou na hora de pensar no futuro dos três filhos e decidir ir embora. “Sempre ouvi que o Brasil é o país do futuro, mas esse futuro não chega”, diz.

Rodrigues entrou em contato com universidades americanas e recebeu ofertas de emprego de três instituições diferentes — ele já havia morado no país por períodos curtos, para cursos de especialização. Junto com a família, optou pelo Missouri, no meio-oeste americano, onde, desde 2019, dá aulas e atende pacientes na Universidade de Saint Louis. “Profissionalmente é um desafio, mas não é algo que eu precisava. Eu estava muito bem posicionado no Brasil”, explica, que ainda colabora com a Unifesp com aulas à distância.

Os Estados Unidos abrigam a maior comunidade de brasileiros no exterior, com 1,7 milhão de pessoas atraídas por mais segurança, educação superior de qualidade e salários mais competitivos. Recentemente, o país reduziu de 1,8 milhão para 900 000 dólares o piso para atrair investidores estrangeiros que queiram o green card, o famoso visto de permanência.

Mas o êxodo de brasileiros mostra o surgimentos de novos destinos interessados em atrair profissionais que oferecem a excelência que faz falta aqui. Reportagem de VEJA mostra que países como Irlanda, Austrália, Portugal e até o vizinho Uruguai têm ganhado espaço nos planos de quem quer ir embora — o número de brasileiros nestes países cresceu consideravelmente desde 2018.

“É um problema de falta de perspectiva”, afirma Vanessa Cepellos, professora de Gestão de Pessoas da FGV. “O salário aqui acaba sendo mais baixo e o custo de vida muito alto. A conta não fecha e os profissionais acabam buscando outras oportunidades.”

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