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Eduardo Paes critica governo Dilma: “Só marketing não resolve”

Prefeito do Rio de Janeio defende a alternância de poder e aposta que a Olimpíada vai projetar a imagem de um Brasil eficiente, sério e honesto

Por Monica Weinberg e Thiago Prado - 30 mar 2015, 15h38

Eduardo Paes, 45 anos, 22 deles na política, entrou em 2015 com a cabeça em 2016 e os olhos em 2018. No ano que vem, o último de seu segundo mandato na prefeitura do Rio de Janeiro, Paes terá seu destino atado ao sucesso ou ao fracasso da realização da Olimpíada. Para quem considera que a Copa do Mundo no Brasil no ano passado “foi um fracasso”, dá para imaginar o padrão de sucesso que Paes espera do evento. Com o governo Dilma trôpego e seu partido, o PMDB, ganhando força, o nome de Paes passou a ser opção natural para a disputa do Palácio do Planalto em 2018. Como virou regra entre os aliados do governo, Eduardo Paes critica o sectarismo do PT e quer punições severas para os implicados no escândalo do petrolão.

Por que o senhor decidiu bater de frente com o governo de sua aliada Dilma Rousseff ao exigir que se fizesse valer a renegociação das dívidas de estados e municípios com a União?

Vinha tratando o assunto de maneira institucional desde que a lei foi sancionada pelo Congresso Nacional. Aliás, lei que corrige uma injustiça histórica. Voltar atrás seria quebra de contrato, um gesto nada benéfico a um país que luta para manter seu grau de investimento. É inaceitável para mim, como prefeito de uma cidade que zerou sua dívida e produziu superávit primário, acordar devendo à União meio bilhão de reais. Primeiro procurei o ministro Aloizio Mercadante, que me empurrou para o Joaquim Levy, que deu aquela enrolada. Aí conversei com a própria Dilma. Saí de lá sem nenhuma solução. Mas fui leal. Avisei que entraria na Justiça.

O senhor se desentendeu com o ministro Joaquim Levy?

Ele quer que eu seja carinhoso e compreensivo. Nesse caso não dá. O Levy é um homem sério. Sou defensor da presença dele no governo e apoio o ajuste fiscal. Agora, acho que ele deveria seguir Maquiavel – o mal de uma vez só -, e não despejar sobre nós a cada dia uma notícia pior do que a outra.

O senhor não está com um discurso crítico demais para um aliado do governo?

Justamente como parte do governo é que me vejo na obrigação de criticá-lo, mas prefiro sempre ir primeiro a Dilma, dizendo o que penso, antes de sair por aí me queixando em público.

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O que o senhor tem dito à presidente?

Reforço minha posição de que o diálogo é essencial neste momento. A eleição foi definida por uma margem estreita de votos. Quando a vitória se dá assim, o mais importante é entender que do outro lado existe um adversário legítimo, e não um inimigo pronto para armar uma conspiração contra o governo. Ter opinião diferente não é crime. Já aconselhei a presidente a escutar quem não concorda com ela. Com todo o respeito que tenho pelo ministro Miguel Rossetto, fiquei apavorado com aquela entrevista que ele deu logo depois dos protestos de 15 de março (em que chamou os manifestantes de golpistas). Também não consigo entender essa organização política do governo. O Mercadante é hoje chefe da Casa Civil e articulador político. Ninguém pode fazer bem as duas coisas. No cenário, o PMDB tem sido essencial para garantir a estabilidade. Não é um partido só de gente pura. Tem seus problemas e equívocos. Mas o governo deveria agradecer todos os dias e com muitas orações o papel que estamos exercendo.

Isso é discurso de candidato à Presidência?

Bota o jingle aí (fala em tom de brincadeira a um dos assessores). Claro que fico lisonjeado por meu nome ser lembrado. Político que é político só sai de cena se não tem mais voto. Tenho minhas ambições. Mas agora estou absolutamente focado no meu trabalho como prefeito da cidade olímpica, uma cidade que passa hoje por uma transformação urbanística radical. Antes de qualquer coisa, a Olimpíada precisa ser um estrondoso sucesso.

2018 será o ano de o PMDB desgarrar­-se do PT?

Não tenho a menor dúvida de que será a hora de o PMDB lançar uma candidatura própria à Presidência. O partido precisa se posicionar, ter candidato. Acho até que, em 2018, quando o PMDB apresentar o seu, poderá fazer isso sem virar oposição. É saudável que o PT perca a próxima eleição. Há que reconhecer que houve mudanças e avanços nesse período, mas hoje olho para os nomes do PT e não vejo ninguém melhor do que muitos de nossos quadros. Também pesa a incapacidade de diálogo do PT. É muito sectarismo. Certas alas do governo continuam com as mesmas opiniões e procedimentos de quando eram oposição. Há forças petistas que ainda ficam por aí defendendo besteiras, como o controle da mídia. Essas antas despreparadas estão no mesmo patamar de primitivismo dos que usam a democracia para destruir a democracia.

Qual seria o debate mais qualificado a travar agora?

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Há todas as reformas a encarar – a tributária, a da Previdência – e questões urgentes a ser revistas, como o erro que se cometeu ao adotar o modelo de partilha na exploração de petróleo (em que a Petrobras entra como sócia em todos os campos). Está claro que a empresa não tem capacidade para fazer esse investimento. Por que ninguém tem coragem para enfrentar isso? Há ainda o desafio da qualidade na educação. O MEC precisa ser tratado como prioridade, e não com a brutalidade que temos visto. Você pode vender um slogan por um tempo, mas, se não tiver conexão com a realidade, não sobreviverá. Marketing não resolve governo.

O senhor esperava que o ex-governador do Rio Sérgio Cabral e o atual, Luiz Fernando Pezão, aparecessem na lista dos investigados na Operação Lava-Jato?

É muito ruim você se ver numa situação dessas, mas acho que nenhum dos dois está diretamente envolvido nessa história. Todo o escândalo me faz pensar que devemos discutir o foro privilegiado neste país de tanta impunidade. Sem o privilégio, talvez o Brasil estivesse melhor hoje. Caixa dois virou lugar-comum e desculpa para justificar qualquer tipo de roubo. Caixa dois que nada. O que tem aos montes por aí é gente comprando pintura bonita para pendurar na parede, lancha, casa de praia e viagem para o exterior. Essa roubalheira é o retrato de um país que não pune, que não enjaula e onde falta rigor.

O balanço da Copa do Mundo revelou sobrepreço em dezenas de obras e um legado questionável. Como evitar o mesmo na Olimpíada?

A Copa não serve de exemplo para nada. Foi um fracasso. Só serviu para reforçar velhos estereótipos, como o de um país que sabe fazer uma boa festa, cheio de gente bonita, mas que usa o dinheiro para deixar elefantes brancos na paisagem e entrega obras pelo triplo do valor acordado. O pior é que ainda perdemos um estereótipo bom, o da pátria das chuteiras. A Olimpíada dá agora a chance de nos firmarmos diante do mundo de maneira diferente.

E qual seria ela?

A Espanha usou os Jogos em Barcelona para mostrar que poderia ser um país unido; a Coreia fez de Seul a vitrine dos Tigres Asiáticos; Pequim queria exibir as reformas iniciadas por Deng Xiaoping. O que eu quero enfatizar no Rio é a ideia de um país que, apesar de ter uma quadrilha incrustada no poder assaltando sua maior empresa e tantos outros problemas, não é uma republiqueta das bananas com cucarachos mal resolvidos. Há setores que funcionam, inovam, entregam as coisas no prazo – enfim, um Brasil que dá certo.

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Muitas das empreiteiras envolvidas no propinoduto da Petrobras têm obras no Rio de Janeiro. Isso o preocupa?

Garanto que aqui não há propina nem Paulos Robertos Costa (ex-diretor da estatal).

O senhor fala muito em legado olímpico, mas uma das principais promessas para os Jogos, o saneamento quase total da Baía de Guanabara, não deve ser cumprida. Não é um baque?

Sem dúvida que é uma grande chance perdida, mas não está na minha alçada: a responsabilidade é do governo estadual.

Alguma obra olímpica lhe tira o sono?

Neste momento, não. O velódromo estava um pouco atrasado, sim, mas não mais. O interessante é que o atraso era de três semanas e todo mundo caiu em cima. Não deixa de ser uma maneira diferente de ver as coisas no Brasil: já viu brasileiro incomodado com um atraso de três semanas? A corrida é para evitar isso. Atraso em obra é sinônimo de aditivo. O empreiteiro chega para você, governante, e fala: “Ô chefe”. Empreiteiro só chama a gente de chefe. Mas depois vem a facada.

Por que o senhor puxou para a prefeitura responsabilidades que eram do governo federal na organização da Olimpíada?

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São muitas alçadas de poder envolvidas nos Jogos e muita burocracia. A Autoridade Pública Olímpica (APO), por exemplo, é desnecessária. Só que os prazos são apertados. Não dá para esperar demais.

A burocracia emperrou a assinatura do BRA, carta de garantia em que o governo federal se colocava como fiador de um adiantamento de verbas do COI para o Comitê Rio 2016?

O Brasil criou centenas de instâncias de controle que não controlam nada. Os processos vão da Controladoria-Geral da União para a Advocacia-Geral da União, depois para a área jurídica de algum ministério, e ficam ali. Um dia, falei com o pessoal do COI, que estava angustiado com tanta demora em assinar o BRA. O dinheiro que viria depois era necessário para deslanchar a Olimpíada. Ficou decidido então que eu e Pezão daríamos a garantia, e não mais o governo federal.

Com a economia de tantos países em crise, não está fácil para o COI atrair candidatos a sediar uma Olimpíada. No Brasil será gasto algo na casa dos 36 bilhões de reais. Vale mesmo a pena?

Tenho dois argumentos para defender os Jogos. O primeiro é que, sem eles, não conseguiríamos dinheiro nem teríamos prazos para tirar do papel tantas obras ao mesmo tempo. A Olimpíada significa, portanto, um impulso decisivo para avanços básicos, necessários, mas que vinham sendo adiados, engavetados. O outro ponto é que, dos 36 bilhões gastos, 24 bilhões estão sendo investidos em legados valiosos: o transporte público vai dar um salto de qualidade e a região portuária, há décadas degradada, será completamente revitalizada.

Seu candidato a sucessor na prefeitura é o deputado federal Pedro Paulo. E se Cabral quiser entrar no páreo?

Aí o Pedro Paulo retira a candidatura. É como Pelé: você escala na hora. Cabral pode ter tido seus equívocos, mas ainda é o melhor quadro do PMDB no Rio.

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O senhor vem conversando com todos os seus possíveis adversários em 2016: tenta atrair Marcelo Crivella e até já acenou a Romário com a possibilidade de indicar um secretário. O objetivo é dar um nó na oposição?

Não. Penso que, se os nomes são bons, quanto maior o arco de alianças, melhor.

O senhor já trocou de partido quatro vezes. O que o motivou?

Foi um erro. Não tinha crença nenhuma em partido. Hoje tenho mais, mas acho que o Brasil deveria começar a pensar em um modelo de candidaturas independentes. Significaria uma mudança nas relações do poder com a população.

O senhor ainda mantém contato com seu ex-secretário e homem forte Rodrigo Bethlem (gravado pela ex-mulher confessando receber propina)?

Nunca mais nos falamos. Queria matar o desgraçado. Se cruzar com ele, dou uma bordoada. Foi o momento mais triste da minha administração.

José Mariano Beltrame, secretário de Segurança, atribuiu a culpa pelo aumento dos índices de criminalidade nas favelas do Rio a ações “pífias” do estado e da prefeitura no campo social. Ele está certo? Beltrame é preparado, mas discordo dele. Acho preconceituosa a visão de que, se o sujeito não tem acesso a serviço público, vai acabar pegando um fuzil e sair matando. É uma visão distorcida. Temos de parar no Brasil de tentar dar respostas fáceis e politicamente corretas a problemas complexos.

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