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Doria não conhece instinto de sobrevivência, diz Aécio

Para o deputado, candidatura do governador ao Planalto é um 'preço muito alto' para o PSDB e 'atende única e exclusivamente a um projeto local de São Paulo'

Por Rafael Moraes Moura 9 out 2021, 12h42

Ex-presidente nacional do PSDB e candidato derrotado ao Palácio do Planalto em 2014, quando obteve apenas 3,5 milhões de votos a menos que Dilma Rousseff (PT), o deputado federal Aécio Neves (MG) disse a VEJA que as prévias marcadas para novembro, quando os tucanos decidirão o nome que vão lançar na disputa pela Presidência da República, vão ser decisivas para o futuro da legenda. Na avaliação de Aécio, uma eventual vitória na disputa interna do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, vai permitir o surgimento de uma terceira via com “musculatura” e potencial de acabar com a polarização entre Lula e Jair Bolsonaro. As palavras são bem menos gentis quando se trata das chances do governador de São Paulo, João Doria, que rivaliza com o gaúcho nas prévias do PSDB. 

“A candidatura do Doria atende única e exclusivamente a um projeto local de São Paulo”, ataca Aécio, afirmando que o PSDB corre o risco de se tornar um “partido nanico” e “isolado” nesse cenário. Para o parlamentar, Doria desconhece um sentimento “muito forte na política”: o instinto de sobrevivência. Atrás de votos em sua campanha nas prévias, Doria conseguiu dividir a legenda em Minas – berço político de Aécio – e conquistou o apoio do deputado federal e vice-presidente da legenda, Domingos Sávio (MG), o que furou a adesão do PSDB mineiro a Leite. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Qual o  dilema do PSDB ao ter de escolher entre João Doria e Eduardo Leite nas prévias de novembro? O PSDB vai fazer uma escolha entre ser um partido capaz de aglutinar outras forças e construir uma terceira via com musculatura, capaz de romper a polarização, ou vai caminhar para se transformar num partido nanico, isolado de quaisquer outras forças, o que a meu ver significaria a eleição do governador de São Paulo. Como eu acho que só cabe uma terceira via, é o Eduardo, sem dúvida alguma. É ele quem tem maior capacidade de agregar forças, tanto internas quanto externas.

Por que, na opinião do senhor, uma vitória de Doria nas prévias seria apequenar o PSDB? Eu acho que é levar o partido ao isolamento e a consequência disso é sermos um partido irrelevante no futuro aqui no Congresso. O PSDB, a meu ver, tem chances de criar uma terceira via com musculatura com Eduardo vitorioso.

Necessariamente na cabeça da chapa ou Leite poderia cedê-la para um candidato mais bem colocado nas pesquisas? Na cabeça da chapa, preferencialmente. Eu acho que ele tem toda essa condição, mas temos ao mesmo tempo de fazer a travessia do Rubicão. Para o Brasil, é muito importante o PSDB ser forte no Congresso. O PSDB não pode ser irrelevante no Congresso. A candidatura do Eduardo pode também possibilitar a eleição de uma bancada maior, mais consistente, o que é bom para o país, não apenas para o PSDB.

Pesquisas recentes mostram que Leite tem uma rejeição inferior à de Doria, mas o gaúcho também é bem menos conhecido. Isso mostra que Leite tem um potencial de votos maior que o do governador de São Paulo? Acho que sim. Eu vejo que o partido caminha para tomar decisão em favor do candidato Eduardo Leite, até por um sentimento que talvez o governador Doria ainda não conheça, mas ele é muito forte na política, que é o instinto de sobrevivência. A candidatura do Eduardo permite ao PSDB se reorganizar e disputar com chances a eleição presidencial. A candidatura do Doria atende única e exclusivamente a um projeto local de São Paulo, dando a ele uma posição nessa eleição, mas é um preço muito alto.

De que forma Leite seria mais conciliatório que Doria? Acho que isso é perceptível, basta ver as manifestações de lideranças de outros partidos, até do presidente do DEM, que agora se transformou em outro partido. Sem dúvida alguma o Eduardo tem capacidade de construir, de liderar uma terceira via com maior musculatura. A eleição do Doria nos levaria ao isolamento.

Por que o senhor trabalha nos bastidores contra o PSDB lançar candidatura própria ao Palácio do Planalto? Isso é uma visão tão distorcida da realidade. O que eu defendo é uma candidatura de terceira via com musculatura, capaz de agregar outras forças políticas e impulsionar uma bancada na Câmara e no Senado, que nada tem a ver com Fundo Eleitoral. Até porque, até aqui, quem se preocupou em distribuir recursos do Fundo Eleitoral foi exatamente o governador de São Paulo, porque o único cargo na executiva do partido que ele indicou e fez questão de manter é do tesoureiro do partido, que inclusive hoje viaja pelo Brasil oferecendo apoios nas campanhas futuras. É uma visão extremamente equivocada, que repete a argumentação que vem do Palácio dos Bandeirantes.

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