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Dono da Kiss responsabiliza autoridades pela tragédia: ‘Deveria ter mais gente dando explicação’

Elissandro Spohr prestou mais de oito horas de depoimento à Justiça do Rio Grande do Sul; incêndio matou 242 pessoas em janeiro de 2013, em Santa Maria

Por Da Redação - 2 dez 2015, 10h48

Um dos donos da boate Kiss Elissandro Spohr, o Kiko, réu no processo criminal sobre a tragédia, responsabilizou o Ministério Público, Corpo de Bombeiros e a prefeitura de Santa Maria (RS) durante as mais de oito horas de seu depoimento à Justiça. Encerrado na noite desta terça-feira, este foi o interrogatório mais longo do caso até agora. O incêndio que atingiu a casa noturna em janeiro de 2013 matou 242 pessoas e deixou mais de 600 feridos. Spohr chamou os órgãos de “negligentes, omissos e irresponsáveis” e afirmou que eles nunca obrigaram o fechamento da boate por problemas de regularização antes da tragédia.

Ele também implicou o então prefeito de Santa Maria Cezar Schirmer na tragédia . “Se eu era dono da boate, o prefeito era o dono da cidade”, disse ao juiz Ulysses Fonseca Louzada. Kiko respondeu às perguntas do juiz, do Ministério Público, do próprio defensor e dos advogados dos outros três réus – Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão, músicos da banda Gurizada Fandangueira; e Mauro Hoffmann, o outro proprietário da boate. “Só eu sento aqui para explicar? Junto comigo também deveria ter bem mais gente dando explicação. O senhor não deveria ter aceitado denúncia só contra quatro bocós.”

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Spohr desmentiu o que Santos disse em depoimento prestado anteriormente e afirmou que não sabia que a banda Gurizada Fandangueira usava artefatos pirotécnicos em suas apresentações. “Não sabia, nunca vi”, disse. O empresário também falou que mesmo se o grupo tivesse pedido, ele não aceitaria que os fogos fossem utilizados e pediu uma acareação entre ele e Santos, ex-vocalista da banda, para esclarecer a questão.

Kiko se emocionou e começou a chorar quando o magistrado perguntou o que motivou o fogo. “O que causou o fogo foi a brincadeira errada. Foi um erro o Marcelo [de Jesus dos Santos] ter usado o artefato luminoso que causou o incêndio. Mas ele não queria matar ninguém. Com certeza, não”, afirmou.

Sobre a espuma por onde o fogo se alastrou, Spohr explicou que nunca foi advertido pelas autoridades sobre os riscos do material e disse que ela foi uma indicação do engenheiro responsável pela adequação acústica. Ele também foi questionado sobre o guarda-corpos – estrutura de proteção usada em sacadas e varandas para evitar queda – e negou que ele foi colocado em frente à única porta de entrada e saída para barrar as pessoas que não pagassem. “Era para evitar que alguém entrasse armado”, disse. O empresário reforçou, inclusive, que o Ministério Público sabia da existência dele e da espuma.

Rebatendo mais uma pergunta, o ex-dono da Kiss negou que houvesse mais de mil pessoas na boate na noite da tragédia e revelou que jamais foi informado da capacidade máxima da boate. Segundo ele, o ideal era cerca de 700 pessoas, o que permitiria a circulação das pessoas e o acesso aos bares. Ele definiu como “pouco inteligente” admitir mais gente no local. O empresário também respondeu sobre sua sociedade com Hoffmann e disse que foi “induzido ao erro” pelos antigos proprietários da boate, que, de acordo com ele, esconderam problemas com multas e documentação na hora da compra do imóvel.

Nesta quinta-feira, será a vez de Hoffmann ser ouvido no Foro Central de Porto Alegre nesta quinta-feira, 3. Ele e os outros três réus são acusados de homicídio qualificado (242 vezes consumado e 636 vezes tentado) pelo motivo torpe e emprego de fogo, asfixia ou outro meio insidioso ou cruel que possa resultar perigo comum. Após os interrogatórios, será aberto prazo para que a acusação, assistência de acusação e defesas apresentem por escrito suas alegações finais, último passo antes de o juiz decidir se os réus serão levados a júri popular.

(Da redação)

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