Dois hotéis deixam o programa de Haddad contra o crack

Cerca de 140 beneficiários do De Braços Abertos foram avisados de que terão que deixar os estabelecimentos, em condições precárias de conservação

Por Eduardo Gonçalves - 1 abr 2015, 23h44

Dois dos sete hotéis conveniados pela Prefeitura de São Paulo para receber usuários de drogas na região da Cracolândia, no Centro da capital, serão descredenciados nesta semana devido a condições precárias de conservação. A decisão foi tomada após o dono dos estabelecimentos, Manoel da Soledade Souza, enviar um ofício à prefeitura e ao Ministério Público informando que se desligaria do programa De Braços Abertos por falta de recursos para manter as instalações da Pensão Azul e do Hotel Seoul.

Implementado há pouco mais de um ano, o projeto busca reabilitar os viciados, oferecendo-lhes hospedagem e um salário por serviços prestados. No entanto, após ter consumido cerca de 10 milhões de reais dos cofres municipais, o programa ainda enfrenta dificuldades para mostrar resultados efetivos, como a diminuição do “fluxo”, como é conhecido lugar onde os usuários vendem e consomem crack livremente.

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Os cadastrados no programa que vivem sozinhos foram avisados nesta quarta-feira que terão 72 horas para deixar os dois hotéis. Os casais com filhos terão pelo menos uma semana. Nos estabelecimentos, moram ao todo 148 beneficiários. Reportagem do site de VEJA visitou os locais e constatou que eles de fato estão “caindo aos pedaços”, como define o proprietário. O cenário é de desolação: além do forte odor de mofo, há buracos e infiltrações nas paredes e no teto, lixo acumulado nos corredores, infestação de ratos e banheiros entupidos. Souza reclama que os usuários de crack depenaram os estabelecimentos, roubando maçanetas, fios, chuveiros e outros objetos para trocar por droga. “Entreguei todos os meus hotéis em ótimas condições e hoje estão todos sem as devidas condições de uso. Já enviei diversos ofícios e documentos comprovando a incompetência dos órgãos que fazem a gestão do projeto”, escreveu o proprietário no documento remetido à prefeitura.

O aviso de mudança não foi bem recebido pelos beneficiários que ocupam os estabelecimentos. “Antes, os usuários e famílias podiam ficar e não tinha problema, agora não podem mais. Por que?”, questionou Cintia Cristina Souza, de 25 anos. “A gente já está um tempo aqui, sair agora vai ser complicado. E nós vamos para onde? Aqui tem muitas famílias”, queixou-se Felipe Aparecido de Lima, de 30 anos. “Nossa única opção vai ser a rua. Vamos construir os barracos de novo”, reclamou Luciene Targino do Nascimento, de 43 anos, enquanto cuidava dos três filhos pequenos brincando em frente à Pensão Azul.

Apesar das péssimas condições, a Pensão Azul foi o local escolhido pela prefeitura para abrigar os filhos pequenos dos dependentes químicos. Atualmente, há 32 crianças no local, entre elas dois recém nascidos.”O que tem mais que criança aqui é rato. À noite, a gente precisa ficar batendo com a vassoura na janela para espantar os bichos que pulam na gente”, disse Luciene.

Não é a primeira vez que um hotel é descredenciado do programa. Em outubro do ano passado, o Hotel do Cícero, também pertencente à Souza, precisou ser fechado por causa das péssimas condições em que se encontrava. O caso chamou a atenção do Ministério Público de São Paulo, que por meio de uma vistoria detectou inúmeras irregularidades no funcionamento dos hoteis contratados pela prefeitura.

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