Diferença salarial entre negros e brancos dispara 62% em cinco anos no Rio, diz pesquisa
Dado faz parte do Mapa da Desigualdade, que revela questões raciais, de gênero, econômicas e climáticas na Região Metropolitana do Rio
A disparidade salarial entre negros e brancos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro aumentou 62,5%, revelou pesquisa da Casa Fluminense divulgada nesta quinta-feira, 1º. A partir da análise de dados governamentais, a quinta edição do Mapa da Desigualdade levantou 40 indicadores voltados para a justiça racial, de gênero, econômica e climática na região. Veja os principais dados abaixo.
Justiça racial
Diferença salarial entre negros e brancos
O crescimento da disparidade do salário médio de negros e brancos em 62,5% traduz um alargamento de 1.039 reais na distância. O intervalo que já era de 1.661 reais a mais para brancos em 2021 passou para 2.700. Na capital, a diferença é a maior, cerca de 3.300 reais, seguida pelos municípios de Seropédica, Niterói e Itaguaí. A fonte dos números é a Relação Anual de Informações Sociais.
Pessoas negras assassinadas pelo Estado
O levantamento da Casa Fluminense também revelou que, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, mais de 70% das 741 pessoas mortas por agentes de segurança pública na Região Metropolitana do Rio em 2025 eram negras. Em Belford Roxo, Magé e Maricá, todas as vítimas eram negras e, na capital, 68% eram.
População negra em domicílios não destinados à habitação
A partir de dados do Cadastro Único do Governo Federal, o Mapa da Desigualdade constatou que 70% das pessoas que residem em domicílios particulares improvisados na Região Metropolitana do Rio são negras, o correspondente a 116.820 habitantes. Paracambi tem o maior índice, 80,4%, e Petrópolis, o menor, 47,3%. O índice médio do estado é semelhante ao da região, 69%.
Diferença de idade média ao morrer entre negros e brancos
Usando dados extraídos da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, o instituto calculou que negros tendem a viver, em média, 11 anos a menos do que brancos no município de Niterói. Na capital, são 10 anos e, em Petrópolis e Queimados, 9. Em todos os municípios da Região Metropolitana do Rio, a expectativa de vida é maior para brancos do que para negros, e a média tanto na região quanto no estado é 9.
População negra em situação de rua
O levantamento apontou que, de acordo com dados do Cadastro Único do Governo Federal, mais de 31.000 pessoas estão em situação de rua na Região Metropolitana do Rio e 23 mil delas são negras. Em percentual, o índice no estado e na região é o mesmo, 75%, e no Brasil, 71%. Sete dos 13 municípios da Baixada Fluminense estão acima dos 80%.
Justiça de gênero
Diferença salarial entre homens e mulheres
Com base em dados da Relação Anual de Informações Sociais, o Mapa da Desigualdade revelou que mulheres ganham menos que homens em 19 dos 22 municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. As cidades com maior desigualdade proporcional são Itaboraí, onde os salários são 30,6% menores, Itaguaí, onde a diferença é de 29,1%, e Paracambi, onde a disparidade é de 26,4%. Os únicos municípios onde mulheres ganham mais que homens são Maricá, Cachoeiras de Macacu e Tanguá.
Violência de gênero
O levantamento apontou, a partir de dados do Instituto de Segurança Pública, que 16,3% das mulheres foram vítimas de alguma forma de violência de gênero registrada oficialmente na Região Metropolitana do Rio. A capital concentra 35% das ocorrências, a Baixada Fluminense, 23%, e o Leste, cerca de 10%. Em Guapimirim, Maricá, Magé e Paracambi, mais de 25% das mulheres sofreram violência de gênero.
A violência de gênero pode ser física, sexual, psicológica, moral e patrimonial. O relatório chama a atenção para o fato de que violências praticadas contra a população trans raramente constam nos dados, que também não englobam ocorrências que deixam de ser registradas oficialmente.
Matrículas em creches
Apenas uma a cada três crianças de até três anos está matriculada em creches na Região Metropolitana do Rio. Em Queimados e Nova Iguaçu, cerca de 90% das crianças estão fora das salas de aula. Além de prejudicar o desenvolvimento cognitivo infantil, o déficit afeta principalmente as mães periféricas. A fonte é a própria Casa Fluminense, com base em dados do Censo Escolar de 2025 e projeções populacionais do Departamento de Informática do SUS
Mulheres negras em pobreza e extrema pobreza
Em 18 das 22 cidades da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, mais de 70% das mulheres que vivem com até 218 reais são negras. Em Japeri, São João de Meriti e Queimados, na Baixada Fluminense, o percentual é superior a 80%. O índice de mulheres negras comparado ao de mulheres brancas em situação de pobreza ou extrema pobreza é 72% na região, 71% no estado e 74% no Brasil. A fonte dos dados é o Cadastro Único do Governo Federal.
Violência sexual no transporte
Todas as mulheres que notificaram terem sofrido violência sexual nos municípios de Belford Roxo, Magé, Mesquita, Queimados e Tanguá eram negras. Na Região Metropolitana do Rio, 55% das 113 meninas e mulheres eram negras. Por se tratar de um crime muito subnotificado, os números reais podem ser de dimensão muito maior. Os dados trabalhados são do Instituto de Segurança Pública.
“A segurança de meninas e mulheres negras segue sendo comprometida até mesmo no transporte público. É um número que não para de subir, e ainda assim, não vemos políticas públicas voltadas para a proteção desse público, que a princípio parece ser um público muito específico, mas que representa 55% das mulheres da metrópole. Em 5 municípios, todas as vítimas de violência no transporte eram negras. Isso não é trivial, e o Estado não pode mais tratar como se fosse”, alertou a coordenadora de informação da Casa Fluminense, Iris Rosa, a VEJA.







