Derrota da seleção gera mais debate político do que esportivo, aponta estudo
Instituto Democracia em Xeque identificou que discussões sobre culpa, bolsonarismo e críticas a Lula superaram o volume de publicações dedicadas ao jogo
A derrota do Brasil para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo não só deixou escapar o sonho do hexacampeonato como produziu um efeito que foi além do futebol. Segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque (DX), o debate nas redes sociais foi dominado por disputas políticas em torno de Neymar, enquanto as discussões sobre a partida ficaram em segundo plano.
De acordo com o relatório, três eixos de natureza política — a disputa sobre a responsabilidade do atacante pela eliminação, a repercussão da fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamando Neymar de “jogador home office” e a construção da imagem do atleta como símbolo do bolsonarismo — responderam por 59% das publicações monitoradas e por 67% do alcance total nas redes. Juntos, tiveram quase o dobro da repercussão obtida pelos conteúdos dedicados ao desempenho da Seleção em campo.
A eliminação virou disputa política
O principal eixo identificado pelo instituto foi justamente a disputa sobre quem deveria ser responsabilizado pela derrota para a Noruega. Segundo o Instituto Democracia em Xeque (DX), o maior eixo de discussão identificado após a final não foi a atuação da equipe de Carlo Ancelotti, as decisões da arbitragem ou o desempenho coletivo da seleção, mas a disputa em torno de Neymar.
O levantamento mostra que 29% de todas as publicações monitoradas concentraram-se na discussão sobre quem deveria ser responsabilizado pela eliminação e na defesa do atacante das críticas recebidas após a partida. Nesse universo, a direita respondeu por 56% da audiência, tornando-se o campo político mais influente na condução da conversa digital.
A análise mostra que a derrota rapidamente deixou de ser interpretada apenas como um resultado esportivo. Enquanto parte das publicações responsabilizava Neymar pelas oportunidades desperdiçadas ao longo da campanha, outra parcela passou a defendê-lo como alvo de perseguição política, deslocando o debate do desempenho em campo para sua imagem pública. Para o Democracia em Xeque, a eliminação acabou funcionando como mais um episódio da disputa simbólica travada em torno do jogador.
No dia seguinte à final, essa politização ganhou novo impulso. Segundo o instituto, parlamentares e influenciadores ligados à direita passaram a associar a derrota ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, impulsionando a narrativa de que “a culpa é do Lula”. O relatório aponta que, em 6 de julho, esse grupo concentrou 57% da audiência das publicações sobre o tema — o maior índice registrado em todo o período analisado. Entre os nomes citados estão o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), o senador Sergio Moro (União-PR) e o economista Adolfo Sachsida.
Neymar como patrimônio do bolsonarismo
O relatório aponta que a politização da imagem de Neymar ganhou força depois que Lula ironizou o atacante ao afirmar que ele seria “o primeiro jogador convocado em home office”. A declaração desencadeou uma reação de lideranças da direita, entre elas o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), que passaram a associar a defesa do jogador à identidade política do bolsonarismo.
Segundo o Democracia em Xeque, esse movimento serviu tanto para fortalecer Neymar como símbolo político quanto para deslocar a atenção de temas negativos para a direita, como o caso do filme Dark Horse, o tarifaço anunciado pelos Estados Unidos, a crise entre Michelle e Flávio Bolsonaro e a atuação do influenciador Paulo Figueiredo (que disse que mulheres votam muito mal).
A defesa de Neymar, porém, não foi unânime entre os influenciadores conservadores. O estudo cita críticas feitas pelo pré-candidato Renan Santos, do Missão, que classificou o atacante como “ex-jogador em atividade”, evidenciando divisões internas no próprio campo político.
“A disputa de imagem [de Neymar] foi o eixo mais escorado à direita, com 58% da audiência, ao reunir a comparação de legado do jogador e a leitura explicitamente política da sua figura”, descreve o relatório.







