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Depois dos traficantes, o desafio de acabar com as milícias

Organizações criminosas dominam 96 favelas cariocas

Glaucio Ary Soares, doutor em sociologia: “As milícias ficaram para depois porque incomodam menos. Quem está no comando de ataques terroristas são as facções”

A expulsão de centenas de traficantes da Vila Cruzeiro, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro deu fôlego a autoridades, policiais e moradores da cidade. Um clima de esperança tomou os cariocas, das vielas da favela aos cafés do asfalto. Afora a euforia, no entanto, ninguém sabe quando, de fato, os morros da cidade estarão livres da violência do tráfico de drogas.

Mantidas as operações da polícia, com apoio das Forças Armadas, há possibilidade de expurgar o tráfico de regiões estratégicas. Vence-se uma batalha, mas a guerra continua, travada com um inimigo íntimo: as milícias. Criam dificuldade para vender facilidade. Tomaram os morros de facções criminosas e passaram a controlar o fornecimento de água, energia elétrica e TV a cabo clandestinas, a venda de gás de cozinha e serviços de segurança e transportes. E cobram caro, com pistolas em punho.

Comandadas por militares, ex-militares, policiais e ex-policiais, as organizações criminosas já dominam 96 favelas cariocas. A zona oeste está na mão dos milicianos. A única favela que a polícia tomou das milícias foi a do Batan, em Realengo, após o sequestro e tortura de uma equipe de jornalistas que estavam infiltrados na região.

Domínio territorial – O doutor em Sociologia Glaucio Ary Soares, pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), explica que os milicianos foram, a princípio, bem recebidos pelos moradores. “Houve um apoio até maior do que o esperado às milícias. Aos poucos, os novos chefes do morro passaram a extorquir comerciantes e moradores, obrigá-los a consumir os serviços que ofereciam. Percebeu-se que era só mais uma forma de domínio territorial.”

Os morros dominados por traficantes foram escolhidos como alvo prioritário das autoridades por serem mais numerosos e pelo poder de dano à ordem pública das facções criminosas. “Eles têm o poder de parar a cidade. De 2000 a 2009, queimaram mais de 800 ônibus no Rio. Há um apelo de insegurança muito forte”, afirma Soares. “As milícias ficaram para depois porque incomodam menos. Quem está no comando de ataques terroristas são as facções.”

O diretor do Centro de Estudos em Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Claudio Beato, acredita que o combate às milícias, em uma segunda etapa da guerra contra o terror, colocará à prova a capacidade de planejamento da cúpula da Segurança Pública fluminense – que até agora se mostrou fraca. “O governo reage, não se antecipa aos acontecimentos. A violência do tráfico é um problema urgente e visível”, afirma. “As milícias são algo muito mais complicado de se enfrentar. Eles estão dentro da polícia, têm representação na política.”

Os milicianos incrustraram-se nas instituições de poder de uma forma que os traficantes jamais ousaram. Cooptaram colegas policiais. Elegeram deputados. Fazer frente a eles exigirá outra estratégia. “A cena de um bando de meninos sem camisa fugindo da polícia não se repetirá com os milicianos”, diz Beato.

Apoio – Para o estudioso, o poder público terá de atacar os grupos pela via econômica, com o apoio da Receita e de órgãos de combate a crimes financeiros. Será preciso centrar fogo ainda em crimes como extorsão, exploração irregular de serviços públicos e de jogos de azar, como o jogo do bicho.

O relatória final da CPI das Milícias, capitaneada pelo deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ), na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, recomenda ainda medidas como a regulamentação e o controle pelo Estado do transporte alternativo e a criação de um convênio da Agência Nacional do Petróleo com o Corpo de Bombeiros para fiscalização da venda ilegal de gás.

Para que a esperança dos cariocas para um Rio de paz não seja em vão, as linhas de ação contra traficantes e contra milicianos precisam se cruzar em momentos como o de agora. Com a expulsão do Comando Vermelho da Vila Cruzeiro, a ocupação da região pelo estado, precisa ser permanente – sob o risco de uma população no lugar de liberdade ganhar apenas um novo dono.