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Delegado e policiais vendiam armas, drogas e vazavam informações para traficantes no Rio

Operação Guilhotina, montada pela PF, Secretaria de Segurança e promotores, tem como alvo grupo que explorava também 'espólio de guerra' das quadrilhas

“Nenhuma polícia do mundo vira a página enquanto tiver em seus quadros esse tipo de gente” – José Mariano Beltrame

Uma série de prisões e apreensões realizadas na manhã desta sexta-feira no Rio de Janeiro ajuda a explicar a facilidade com que bandidos no estado conseguem driblar as operações policiais e, apesar das sucessivas investidas das forças de segurança, manter seu poder e seu arsenal. A Operação Guilhotina, como foi batizada, tem como alvo um grupo de policiais que se valia de sua condição e de sua proximidade com as decisões do estado para vender informações a traficantes, dar cobertura à ação de milicianos e até revender às quadrilhas as armas e drogas recolhidas pela polícia.

A operação é executada pela Polícia Federal, que desde a madrugada cercou pontos estratégicos, como casas de acusados e locais apontados na investigação como ponto de esconderijo de armas e outras provas. As equipes da PF fora para a rua com objetivo de cumprir 48 mandados de prisão e 48 de busca e apreensão. Até o início da tarde, tinham sido feitas 28 prisões – a maioria, policiais.

O ‘peixe grande’ da investida é um delegado de polícia. Na verdade, mais que um delegado: o policial civil Carlos Antônio Luiz Oliveira, que comandou a Drae, unidade especializada na repressão às armas e explosivos no estado, já foi considerado um dos homens fortes da segurança no Rio. Atualmente, ele ocupava outro cargo de confiança, mas na prefeitura, como subsecretário de operações da Secretaria Especial de Ordem Pública, que combate, entre outros desvios, o comércio ilegal.

Oliveira está foragido, e teve seus dois imóveis vasculhados nas primeiras horas da manhã pela polícia. A Prefeitura do Rio informou que ele será exonerado. Segundo o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, “a situação dele é ruim”. O superintendente da Polícia Federal no Rio, Ângelo Gióia, afirmou que “há um conjunto probatório sólido” indicando a participação do delegado em uma série de crimes.

Foram identificados nas investigações quatro grupos de policiais, que atuavam explorando o chamado “espólio de guerra”, ou seja, as armas, drogas, dinheiro e bens resultantes das operações policiais; a venda de armas apreendidas para os próprios traficantes; a venda de informações sobre operações policiais, para permitir a fuga dos bandidos; o envolvimento com grupos de milicianos e todos os crimes a eles relacionados, como cobrança ilegal por serviços, assassinatos, ocultação de cadáver e outros.

Em uma entrevista coletiva para apresentar os resultados e os motivos da Operação Guilhotina, Beltrame, manifestou, mais uma vez, seu repúdio ao envolvimento de agentes da lei com o crime. “Nenhuma polícia do mundo vira a página enquanto tiver em seus quadros esse tipo de gente”, disse. Em seguida, defendeu a necessidade de a polícia “cortar na própria carne” para “extirpar” os maus policiais.

Pela manhã, foi ouvido, na condição de testemunha, o chefe de Polícia Civil, delegado Allan Turnowski. Segundo Beltrame, o depoimento se fez necessário por ser ele a autoridade máxima de uma instituição que está sendo alvo de investigações. O secretário afirmou que Turnowski “goza de sua confiança”.

Turnowski, ao terminar seu depoimento, disse que prestou esclarecimentos sobre o funcionamento interno da Polícia Civil, para ajudar a PF a combater desvios na instituição. Sobre o delegado Carlos Oliveira, Turnowski disse se sentir traído. “Se comprovado, do jeito que está aparecendo na denúncia, é pior do que se fosse uma pessoa que eu não conheço. Você dá um voto de confiança, bota do seu lado, e essa pessoa desvia. O nome disso é traição”, disse, elevando o volume da voz.

Polícia Federal – A Operação Guilhotina tem alguns aspectos inéditos na história do combate à corrupção policial no Rio. Pela primeira vez, frisaram as autoridades na coletiva, estão trabalhando em conjunto a Secretaria de Segurança, o Ministério Público do Estado e a Polícia Federal. A participação da PF se deu, segundo Beltrame e o superintendente da instituição, Ângelo Gióia, pela necessidade de isenção e distanciamento dos investigados, quase todos ligados ou a Polícia Civil ou à Polícia Militar.

A investigação que deu origem à Operação Guilhotina começou em Trabalho setembro de 2009, quando a Polícia Federal montou uma operação para prender o traficante Rogério Rios Mosqueira, o Roupinol, na favela da Rocinha, na zona sul do Rio. Roupinol, com informações repassadas por informantes que mantinha na polícia, conseguiu escapar. Mas a polícia conseguiu botar as mãos em um informante que, supostamente, ajudaria a polícia a investigar os traficantes.

A partir desse depoimento foram levantadas conexões de policiais com bandidos da Rocinha e do Complexo de São Carlos – reduto de Roupinol e, atualmente, ocupado pela polícia para a instalação de mais uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).