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Defesa fala em ‘guerra de vaidades’ entre peritos no caso PC Farias

Advogado sustenta tese de crime passional e afirma que fatos foram distorcidos para acusar Augusto Farias, irmão de PC

Por Felipe Frazão 10 Maio 2013, 15h42

A defesa dos quatro policiais em julgamento pela morte de Paulo César Farias, o PC, e Suzana Marcolino, sugeriu nesta sexta-feira aos jurados que a acusação de duplo homicídio contra os réus surgiu de uma guerra de vaidades entre os peritos que auxiliaram na investigação. Para a defesa, o objetivo seria “atingir” o ex-deputado federal Augusto César Farias – o irmão de PC, que chegou a ser indiciado como mandante do crime, mas teve a acusação arquivada. O advogado dos réus, José Fragoso Cavalcante, que é pago por Augusto Farias, afirmou que Suzana atirou em PC e se suicidou. “Foi a [tentativa] de destruição de Badan Palhares. E a [tentativa] de atingir de forma leviana e irresponsável o ex-deputado Augusto Cesar Farias”, disse Fragoso.

Enquanto teve a palavra, Fragoso se dedicou a desconstruir os métodos utilizados pelos peritos da Universidade de São Paulo (USP), entre eles o médico legista Daniel Muñoz, que realizaram a revisão das provas criminais. O trabalho de Muñoz indicou que tanto Suzana quanto PC foram assassinados. Depois do relatório dele, o crime passou a ser investigado e chegou à Justiça como homicídio – e não mais como crime passional, como haviam sustentado os peritos da polícia de Alagoas e o perito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Badan Palhares. O advogado disse que a tese de duplo homicídio só foi adiante por causa de pressão da “grande mídia” nacional. PC morreu a cerca de um mês de depor na CPI das Empreiteiras, que apurava as denúncias de corrupção no governo Fernando Collor de Mello.

Reconstituição – Fragoso apontou o que considera erros na reconstituição do crime cometidos pela equipe de Muñoz, entre eles a definição da altura de Suzana Marcolino e a ausência de vestígios de sangue e impressões digitais na arma. Ele disse que Muñoz repetiu testes até conseguir o resultado pré-determinado para contradizer Palhares. “Falta de honestidade científica no caso da falta de sangue na arma. É uma coisa abominável”, disse o defensor. “A questão é que queriam desmascarar Badan Palhares”.

Fragoso ressaltou que as condições de trabalho da polícia de Alagoas eram mais limitadas à época do crime, em junho de 1996, mas que devem ser consideradas, porque “foram os primeiros a chegar” à casa de praia de Guaxuma. “Metodologia do teste é diferente da vida real. É diferente de laboratório”, disse Fragoso.

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A defesa também procurou ressaltar aos jurados acontecimentos relacionados a Suzana Marcolino. Fragoso afirmou que o perfil psiológico dela “precisa ser considerado” e citou, por exemplo, a falta de contato telefônico entre PC e a namorada enquanto ela estava em viagem a São Paulo.

Para dissuadir os jurados de uma hipótese de “orientação de depoimento” aos réus, Fragoso disse que “só com mágica” um advogado conseguiria fazê-los repertir a mesma versão por dezessete anos. Também afirmou que seria inviável pensar em um pacto entre polícia, peritos, caseiros, investigados para “acusar Suzana”. O advogado afirmou que os policiais – que faziam a segurança de PC informalmente, estavam no local do crime em horários diferentes. Ele lembrou que os laudos informavam que a casa estava fechada na hora das mortes. “Quem entrou lá? Quem deu o tiro, se não foi a Suzana?”, questionou. “O laudo do Badan está correto. Não existe complô em Guaxuma e sim tragédia”.

Com o fim dos debates, houve uma pausa para o almoço e, no retorno, os jurados devem ir para a sala secreta, onde definirão a sentença dos réus.

Histórico – PC Farias foi o cabeça do esquema corrupto instaurado no governo Collor no início dos anos 90. Em troca de dinheiro, facilitava a vida de empresários interessados em tocar obras públicas, aproveitando-se da influência que exercia sobre o então presidente. PC nomeou, demitiu e influenciou as decisões do governo. Comandando um esquema de poder paralelo, traficou influência e desviou recursos públicos, como ficaria provado por uma série de documentos revelados por VEJA na época.

Em 1993, ao ter sua prisão preventiva decretada, PC fugiu do país para a Tailândia – e voltou algemado. No ano seguinte, foi condenado a sete anos de prisão por falsidade ideológica e sonegação fiscal, mas fugiu do país em seguida. Cumpriu um ano e meio de prisão, até obter a liberdade condicional por decisão do Supremo Tribunal Federal. Fora da cadeia, tentou retomar sua vida como empresário, até que foi encontrado morto.

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