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Declaração de Beltrame abre crise na Polícia Civil do Rio

Secretário anuncia projeto de delegacias em favelas e afirma que novas unidades devem ter policiais "sem os vícios da guerra e da corrupção", numa referência aos delegados e inspetores em atividade

Por Leslie Leitão - 16 set 2013, 20h57

(Atualizado às 13h de 17/09/2013)

O que deveria ser o anúncio de uma nova empreitada na Polícia Civil tornou-se uma crise entre o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, e os delegados do estado. Em entrevista ao jornal O Globo, publicada no domingo Beltrame anunciou a chegada de delegacias às favelas com Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). A forma como a ideia foi apresentada, no entanto, foi interpretada como um desprestígio e uma crítica a policiais civis. “Não vou fazer delegacia com a polícia que está aí. As novas unidades contarão com delegados e inspetores recém-formados, sem os vícios da guerra e da corrupção”, afirmou.

Ao longo desta segunda-feira, a chefe da instituição, delegada Martha Rocha, demonstrou sua insatisfação em conversas com subordinados diretos e disse estar à espera de um pedido formal de desculpas. Em entrevista à TV Globo, ela já havia discordado do discurso de Beltrame. Mas a insatisfação geral foi exposta através das redes sociais e nas próprias delegacias.

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O delegado Luiz Lima propôs uma ação coletiva de reparação de danos, enquanto a delegada Monique Vidal sugeriu que todos entregassem seus cargos: “Por mim todo mundo entrega as DPs! Eu tô dentro!”, escreveu a profissional, que atual no 9ª DP (Catete). A comissária Suely Gusso, que há anos é o braço direito de Martha Rocha como chefe de investigações, também reagiu à declaração do secretário. “Ele foi muito infeliz”.

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Em um fórum de discussão de delegados do Facebook, as acusações ficaram ainda mais graves. Outros preferiram a ironia para tratar o caso: “Depois de chamar todos os policiais civis de corruptos ou guerrilheiros, o Super Secretário (que virou delegado de polícia federal sem passar regularmente num concurso público) foi curtir uma boquinha na área VIP do Rock in Rio com a esposa”, escreveu o delegado da Corregedoria, Glaucio Soares.

Ex-presidente do sindicato dos policiais civis, o inspetor Carlos Gadelha fez uma carta aberta exigindo que a instituição peça uma retratação ou processe Beltrame. No início da noite, o Sindicato dos Delegados de Polícia (Sindelpol) emitiu nota oficial cobrando uma retratação. “Analisando a infeliz colocação do Secretário de Segurança Pública, observamos que este buscou depreciar, de forma genérica, toda a Polícia Civil do Rio de Janeiro, externando visões preconceituosas e que desmotivam todos os integrantes da instituição”, diz um trecho da nota.

Para o presidente do Sindicato dos Delegados, Leonardo Affonso, as declarações de Beltrame são um tiro no pé, pois dos quase 10 mil policiais civis na ativa atualmente, cerca de 20% dos agentes e 30% dos delegados foram formados na gestão do atual secretário. “Também somos a favor do combate interno a qualquer forma de corrupção, mas é preciso lembrar que foi ele quem nomeou esse pessoal”, questionou, avisando que interpelará judicialmente o secretario de segurança.

O Sindicado dos Policiais Civis do Estado do Rio manifestou, em uma nota, “repúdio” ao que classificou como afirmações “lamentáveis, preconceituosas e contraditórias”. Desde o último domingo, quando foi publicada no jornal O Globo uma entrevista na qual o secretário criticou a instituição, delegados e agentes usam redes sociais para cobrar um pedido de desculpas.

Na entrevista, Beltrame anuncia a criação de unidades da Polícia Civil em favelas do programa de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Ele também faz uma ressalva, para justificar a opção por policiais recém-formados para atuar nas novas unidades. “Não vou fazer delegacia com a polícia que está aí. As novas unidades contarão com delegados e inspetores recém-formados, sem os vícios da guerra e da corrupção”, afirmou.

A nota do sindicato faz um ataque ao secretário. “Também soou, aos nossos ouvidos, deveras contraditória a menção feita ao “vício da guerra”, já que, como é público e notório, foi justamente na gestão do atual Sr. Secretário de Segurança Pública, iniciada em janeiro de 2007, que foram adquiridos helicópteros blindados (de um modelo que, como sabem os especialistas no assunto, foram largamente utilizados na Guerra do Vietnã como apoio aéreo de fogo) e, ainda, ampliada a frota de veículos blindados (vulgarmente conhecidos como “caveirões”) tanto na PCERJ, quanto na PMERJ”, diz a nota, que termina com um pedido de retratação.

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