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Décadas de crescimento sem planejamento deixam Rio e São Paulo vulneráveis

No verão, São Paulo submergiu sob as águas de chuvas diárias ao longo de semanas. No princípio do outono, o Rio de Janeiro afundou numa chuva que não chegou a parar totalmente desde as 17h da segunda-feira. As duas maiores metrópoles brasileiras têm, em comum, o desafio do crescimento urbano acelerado e décadas de planejamento de drenagem deficiente � ou inexistente. As diferenças entre Rio e São Paulo estão na forma como a água tenta encontrar seu caminho em dias de chuvas atípicas.

“O Rio tem uma área plana muito estreita, a água chega com velocidade depois de percorrer as encostas íngremes. Nesse caminho ocorrem as tragédias, os transtornos. Em São Paulo, a imensa área impermeabilizada transforma em bolsões os locais onde a água consegue se acumular”, compara o professor de engenharia civil Paulo Canedo, do departamento de hidrologia da Coppe/UFRJ.

Enchentes, assim como outros problemas ambientais de solução cara e complexa, são, para Canedo, “abacaxis” das megacidades. “Não acho nada bonito uma cidade se orgulhar de ser tão grande”, afirma. “Rio e São Paulo conseguiram, com anos e anos de omissão do poder público, transformar em passivo o que era um ativo. As lagoas de Jacarepaguá, no Rio, eram uma maravilha natural que hoje não passam de uma latrina, um foco de poluição e doenças. Da mesma forma, os governantes de São Paulo provavelmente desejam simplesmente fazer o Tietê desaparecer.”

As enchentes no Rio têm solução, mas cada vez mais as intervenções são caras e dependem mais de planejamento integrado a outras áreas e não apenas da engenharia. O planejamento urbano, por exemplo, deveria considerar áreas não habitadas para onde a água da chuva vai escoar numa inundação. “Os piscinões são um arremedo desse conceito. Mas seria mais inteligente planejar, criar parques que, na seca, servem de área de lazer. Nas enchentes, evitam que as casas numa determinada área fiquem submersas”, explica.

De forma simplificada, Canedo expõe o que é o trabalho de um engenheiro ao pensar um sistema de drenagem. “No Rio, a missão é levar a água para o mar. Se levá-la para o mar é impossível, você tenta concentrar esta água numa área sem moradores. Mas, quando a cidade cresce demais, esta área simplesmente passa a não existir, ou exigir uma intervenção de engenharia cara, às vezes até inviável”, adverte.

Apesar de a chuva das últimas 48 horas representar um recorde negativo para o Rio, a postura do prefeito foi, para Canedo, elogiável em pelo menos um aspecto: “Pegar o microfone e pedir à população para ficar em casa foi uma medida corajosa. Melhor, por exemplo, que ficar apenas pedindo desculpas ou culpando governos anteriores.”