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De caso com a máfia

Novos vídeos comprometem o governador Agnelo Queiroz, o ex-governador Roriz e uma advogada que fazia lobby no Planalto

Rodrigo Rangel e Gustavo Ribeiro

SURPRESAS
O delegado Durval Barbosa, que fez acordo de delação premiada, diz que muita coisa ainda está por vir: “Entreguei às autoridades muito mais do que apareceu até agora” SURPRESAS
O delegado Durval Barbosa, que fez acordo de delação premiada, diz que muita coisa ainda está por vir: “Entreguei às autoridades muito mais do que apareceu até agora”

SURPRESAS
O delegado Durval Barbosa, que fez acordo de delação premiada, diz que muita coisa ainda está por vir: “Entreguei às autoridades muito mais do que apareceu até agora” (/)

Os juristas discordam sobre os benefícios da delação premiada como método de combate ao crime organizado. Em Brasília, porém, restam poucas dúvidas sobre sua eficácia. Durante quase duas décadas, a cidade esteve sob controle de uma máfia que desviou mais de 4 bilhões de reais dos cofres públicos. Desde que o ex-delegado Durval Barbosa resolveu contar às autoridades o que sabia e, principalmente, entregar algumas das relíquias que guardava, a organização criminosa começou a ruir – e figurões da política foram sendo fulminados um a um. Um governador foi preso e cassado e parlamentares perderam o mandato. Na semana passada, a deputada federal Jaqueline Roriz, filha do ex-governador Joaquim Roriz, apareceu em uma gravação de vídeo recebendo dinheiro ilegal, o que a transforma na primeira candidata a perder o mandato na atual legislatura. Vem mais por aí. Em entrevista a VEJA, na última quinta-feira, Durval Barbosa disse: “Entreguei às autoridades muito mais do que apareceu até agora. A sociedade tomará conhecimento de tudo em breve”.

O delator do escândalo que ficou conhecido como “mensalão do DEM” ameaça tragar outras figuras importantes do cenário político nacional. Ele disse a amigos ter um vídeo capaz de causar sérios embaraços ao recém-empossado governador do Distrito Federal, o petista Agnelo Queiroz – eleito na esteira do escândalo que, graças às revelações do delegado, derrubou José Roberto Arruda em 2010. Durval Barbosa, ao longo de quase dez anos, foi membro destacado do que agora ele ajuda a desbaratar. O delegado arrecadava propina dos empresários prestadores de serviços ao governo e a distribuía entre os políticos. Durval registrava tudo em vídeo. Em uma das dezenas de gravações ainda inéditas, Agnelo aparece conversando animadamente com o delegado no mesmo cenário em que outros políticos brasilienses foram flagrados recebendo dinheiro. O teor do diálogo? VEJA ouviu de uma pessoa que assistiu à gravação a definição da conversa: “Nada ortodoxa”. O governador, que se preparava para disputar as eleições, aparece vendo com muita atenção os filmetes estrelados por seus principais adversários. Depois, pede para levar uma cópia, no que é atendido. Quando está saindo da sala com os CDs nas mãos, Durval chama Agnelo e lhe entrega um jornal dobrado, que foi usado para ocultar os discos debaixo do braço. O governador, através de sua assessoria, confirma o encontro com o delator, mas informa que o objetivo foi apenas assistir a trechos editados dos vídeos.

Há também um encontro marcado entre criador e criatura. O ex-governador Joaquim Roriz, mentor do esquema de corrupção, não enfrentará problemas apenas com o perrengue de sua filha. Ele é personagem de uma das gravações ainda inéditas. Em 2002, Durval recolheu 2 milhões de reais para a campanha do governador. O dinheiro foi entregue a um assessor de Roriz, que, por sua vez, levou a mala até o comitê de campanha. O que o assessor não sabia era que tudo estava sendo gravado. Durval Barbosa filmou a mala cheia de dinheiro antes de ser entregue ao assessor de Roriz, o momento da entrega, a conversa sobre o destino do dinheiro, o caminho percorrido depois pelo assessor, o instante em que ele entrou no comitê de campanha com a mala e o momento em que ele saiu do comitê sem a mala. O delator já exibiu trechos dessa gravação a mais de uma pessoa e disse que seu objetivo, ao gravar inclusive o chefe, era garantir a própria proteção.

Ao longo dos anos em que o sistema operou livremente, Durval Barbosa tratou de registrar tudo em vídeo: as conversas com empresários, as reuniões políticas e os encontros para distribuir o dinheiro arrecadado. A videoteca clandestina tornou-o figura onipotente na política local. Fazia nomeações para cargos importantes, demitia, ameaçava. A sanha de poder era tamanha que ele planejou estender sua influência para além do governo do Distrito Federal. Num dos depoimentos sigilosos prestados no âmbito da investigação, ao qual VEJA teve acesso, o delator admitiu ter feito chegar a Gilberto Carvalho, então chefe de gabinete do presidente Lula, um dos maiores interesses da máfia: a manutenção de um promotor ligado ao grupo na chefia do Ministério Público de Brasília. O recado a Carvalho, hoje ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, seguiu por meio de Christiane Araújo, uma advogada que goza de alguns privilégios e trânsito livre entre petistas poderosos da capital. Christiane integrou a equipe de transição de Lula para Dilma.

Ex-assessora do delator Durval Barbosa, Christiane Araújo também aparece em um vídeo da coleção do antigo patrão. Assim como todos os outros personagens, embolsando maços de dinheiro. Em entrevista a VEJA, a advogada garante que nunca recebeu dinheiro de Durval: “Se existe essa imagem minha pegando dinheiro, com certeza não era pra mim. Eu resolvia problemas dele e da esposa, pagava contas para ele”. Sobre o pedido ao ministro Gilberto Carvalho, a ex-assessora também desconversa: “O doutor Gilberto não sabia de nada do Durval. Quando eu conversei com ele sobre o procurador, a nomeação já estava definida. Eu só comentei sobre a escolha”. Ouvida pelos investigadores, Christiane confirmou ter enviado um e-mail a Gilberto Carvalho. A resposta do então chefe de gabinete de Lula acabou apreendida pela Polícia Federal durante uma operação de busca numa das empresas investigadas por ligação com a máfia. Carvalho, a partir de seu e-mail funcional do Planalto, dizia que iria “encaminhar a demanda” – isso significava dizer que levaria o pedido ao presidente. A VEJA, o ministro afirmou não ter atendido à solicitação.

A advogada foi demitida do governo de transição depois de descoberto seu envolvimento em outro escândalo, o da máfia dos sanguessugas. Leonardo Bandarra, o promotor indicado por ela, foi reconduzido ao cargo, como a quadrilha desejava. Hoje, sabe-se que o procurador-geral recebia dinheiro para impedir e atrapalhar investigações de seus colegas sobre a quadrilha. Ele foi afastado do Ministério Público.

O padrão de ética dos criminosos põe a traição no patamar das atitudes intoleráveis, passível da pena capital. Para o estado, a delação premiada constitui uma das mais eficazes maneiras de descobrir o funcionamento das organizações criminosas. A Justiça ofe-rece benefícios em troca de informações. O primeiro caso de delação de que se tem notícia aconteceu na Inglaterra, em 1775. Dois irmãos gêmeos fizeram fortuna falsificando títulos. Suas falcatruas contavam com a ajuda de uma cortesã. Quando o esquema foi descoberto pelas autoridades, os dois irmãos tentaram se eximir de culpa apontando a cortesã como responsável pelos golpes. Presa, ela decidiu revelar a verdade. Os gêmeos acabaram executados, e a cortesã, considerada uma “testemunha da coroa”, foi perdoada e passou a viver sob proteção do estado. Para conseguir os benefícios da delação, Durval, já condenado a dez anos de prisão, tem ajudado com revelações corretas e verificáveis. As autoridades confiscaram dezenas de milhões de reais em terrenos, imóveis e empresas, fortuna que o delegado amealhou durante os anos em que foi caixa da quadrilha. No fim do ano passado, a polícia descobriu um plano para emboscar Durval Barbosa. Uma testemunha ouvida contou que um conhecido pistoleiro do interior de Goiás foi contratado por 1,5 milhão de reais para assassinar o delegado. O criminoso chegou a receber metade do pagamento, mas o assassinato, que seria levado a cabo em uma fazenda, acabou sendo descoberto e abortado pela polícia. Nas boas histórias da máfia, os primeiros suspeitos da encomenda do crime seriam os personagens delatados por Durval Barbosa. Como é uma história de máfia, a polícia suspeita dos personagens que estrelaram os filmes recebendo propina.

NA MIRA

CORRUPÇÃO INSTITUCIONAL

Depois de destruir a carreira política do ex-governador José Roberto Arruda, o araponga Durval Barbosa direciona sua artilharia de vídeos comprometedores contra dois poderosos da capital: Joaquim Roriz (acima, à dir.) e Agnelo Queiroz. O primeiro, um notório ficha-suja, comandou Brasília por catorze anos e é considerado o criador do esquema de pagamento de propina a deputados distritais aliados. Foi sob os auspícios de Roriz que Durval ganhou poder e dinheiro e iniciou seus hábitos de gravar conversas. Também figura nos vídeos de Durval o atual governador, Agnelo Queiroz, que se apresenta como opositor do esquema que tomou de assalto o aparelho estatal de Brasília.

INVESTIGADA

CHORO
A deputada Jaqueline Roriz, filha de Joaquim Roriz, recebe dinheiro sujo e reclama da quantia: “Tem a possibilidade de aumentar?” CHORO
A deputada Jaqueline Roriz, filha de Joaquim Roriz, recebe dinheiro sujo e reclama da quantia: “Tem a possibilidade de aumentar?”

CHORO
A deputada Jaqueline Roriz, filha de Joaquim Roriz, recebe dinheiro sujo e reclama da quantia: “Tem a possibilidade de aumentar?” (/)

DE INGÊNUA, NEM A CARA

A deputada federal Jaqueline Roriz foi a mais recente estrela da repugnante cinemateca de Durval Barbosa. Ela aparece junto do marido recebendo 50 000 reais em maços de dinheiro do operador do mensalão de Brasília. Na ocasião, Jaqueline reclama que o valor recebido estava abaixo do combinado. Depois da divulgação do vídeo, a Procuradoria-Geral da República pediu ao Supremo Tribunal Federal que a deputada seja investigada. Ela também foi excluída da Comissão de Reforma Política da Câmara. Jaqueline não se pronunciou sobre o episódio, e o partido dela, o PMN, afirmou que seu envolvimento foi por “ingenuidade”.

CASSADO

Imagens devastadoras - Durante a campanha eleitoral de 2006, Arruda recebe um pacotão de dinheiro do operador do mensalão. “Ah, ótimo!”, comemora Imagens devastadoras – Durante a campanha eleitoral de 2006, Arruda recebe um pacotão de dinheiro do operador do mensalão. “Ah, ótimo!”, comemora

Imagens devastadoras – Durante a campanha eleitoral de 2006, Arruda recebe um pacotão de dinheiro do operador do mensalão. “Ah, ótimo!”, comemora (/)

PRESO E SEM MANDATO

O governador José Roberto Arruda não resistiu à divulgação de um vídeo em que ele recebia de Durval Barbosa maços de dinheiro para financiamento ilegal de campanha. Arruda tentou justificar que o dinheiro era para comprar panetones para crianças pobres da capital, mas não colou. Durante o curso das investigações, o ex-governador passou dois meses preso pela tentativa de subornar uma testemunha e teve o mandato cassado depois de se desligar do DEM, no intuito de evitar sua expulsão da legenda.

AFASTADO

Ousadia
Uma assessora de Durval é suspeita de servir de elo com o Palácio do Planalto. Amiga do ministro Gilberto Carvalho, ela fazia lobby para conseguir nomeações de interesse da máfia Ousadia
Uma assessora de Durval é suspeita de servir de elo com o Palácio do Planalto. Amiga do ministro Gilberto Carvalho, ela fazia lobby para conseguir nomeações de interesse da máfia

Ousadia
Uma assessora de Durval é suspeita de servir de elo com o Palácio do Planalto. Amiga do ministro Gilberto Carvalho, ela fazia lobby para conseguir nomeações de interesse da máfia (/)

AGENTE INFILTRADO

Durante quatro anos, Leonardo Bandarra ocupou o cargo de procurador-geral do Ministério Público do Distrito Federal. O responsável por zelar pelo bom funcionamento das instituições públicas foi filmado na casa de uma promotora de Justiça que escondia dinheiro sujo. Para manter o MP longe da quadrilha que rapinava os cofres de Brasília, Bandarra recebia mesada de 150 000 reais. Agora, o espião da quadrilha perdeu o cargo e responde a denúncias propostas pelo Ministério Público Federal por envolvimento com a máfia brasiliense.