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Cruz Vermelha Brasileira troca presidente suspeito por outro indiciado em CPI

Walmir Serra, que depositava dinheiro no Maranhão, foi demitido. Novo dirigente é Nício Lacorte, acusado de desviar recursos em Santa Catarina. Troca de comando garante permanência de aliados no comando da entidade por mais um ano

“Temos solicitado prestações de contas. Isso não é normal nem bom, porque afeta a imagem da Cruz Vermelha no Brasil e internacionalmente. Não podemos aceitar esse tipo de comportamento porque vivemos de nossa credibilidade”, disse Gustavo Ramirez, representante da Federação Internacional da Cruz Vermelha

As denúncias de desvio de dinheiro doado para a Cruz Vermelha derrubaram o presidente e o vice-presidente da instituição no Brasil. Walmir de Jesus Moreira Serra, presidente da Cruz Vermelha Brasileira, e Anderson Choucino, o vice, pediram demissão após uma reunião realizada ao longo desta terça-feira. O pedido foi, na verdade, uma negociação entre os representantes do conselho da entidade, que disseram não admitir mais as “infrações ao estatuto” da entidade, ocorridas na gestão de Serra e Choucino. Entre as irregularidades estão a falta de prestação de contas e o não pagamento de uma anuidade devida à Cruz Vermelha Internacional – o débito, acumulado desde 1994, que já atinge 3,4 milhões de francos suíços (ou 4 milhões de dólares).

Uma chapa única, liderada por Nício Brasil Lacorte, que presidia a filial do Rio Grande do Sul, foi eleita e já assumiu o comando. Começa, então, outro problema: Lacorte foi indiciado por uma CPI da Câmara Municial de Balneário Camboriú. Ele figura entre os envolvidos no desvio de recursos destinados à gestão de um hospital na cidade. A prefeitura de Balneário Camboriú, em Santa Catarina, cancelou o contrato que previa repasse de 82 milhões de reais para administração do hospital Ruth Cardoso. A gestão do contrato estava a cargo da filial gaúcha. Do total repassado pela prefeitura à entidade, cerca de 100 mil reais foram parar nas mãos do Instituto Interamericano de Desenvolvimento Humano (Humanus), de São Luís do Maranhão. O Humanus já esteve registrado em nome da mãe do vice-presidente nacional da Cruz Vermelha, Anderson Marcelo Choucino. O dinheiro teria sido usado para quitar dívidas com agências de viagens e repassados à filial maranhense da Cruz Vermelha.

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Lacorte aparece, no relatório da CPI, com papel semelhante ao de Walmir Serra – também indiciado. Diz o item 5.4 do relatório: “Os Senhores Nicio Brasil Lacorte e Walmir de Jesus Moreira Serra Júnior, na qualidade de dirigentes da Cruz Vermelha Rio Grande do Sul, apropriaram-se de verbas que deveriam ser utilizadas no atendimento hospitalar do Hospital Ruth Cardoso ao encaminhar mais de R$ 1.500.000,00 (um milhão e quinhentos mil reais) a duas outras entidades (Cruz Vermelha Nacional e Cruz Vermelha Nacional do Maranhão), sem previsão e sem justificativa plausível, incorrendo, assim, nas sanções do art. 312 do Código Penal Brasileiro; além disso, também deram aplicação diversa à verbas públicas ao adquirirem produtos e em especial veículo camionete Chevrolet S10, no valor de R$ 79.092,45 em nome de pessoa estranha ao contrato, sem qualquer previsão legal, infringindo o art. 315 do Código Penal Brasileiro; além de terem incorrido nas sanções dos arts. 10º. e 11 da Lei 8.429/92, por terem praticado atos de improbidade administrativa que causaram prejuízos ao erário e atentaram contra os princípios da administração pública, especialmente o da legalidade.

Nesta terça-feira, VEJA obteve um ofício que prova que era Walmir Serra quem determinava o destino do dinheiro. A empresa Mitsui & Co. S.A., que doou cerca de 150.000 reais para as vítimas da tragédia na serra fluminense, foi orientada, em um ofício enviado por Serra, a depositar o dinheiro em uma conta do Banco do Brasil em São Luiz do Maranhão. A filial maranhense é dirigida pela irmã de Serra, Carmen Serra.

As irregularidades começaram a ser levantadas pela funcionária Letícia Del Ciampo, que assumiu o escritório de Petrópolis da entidade. Depois de encaminhar documentos ao Ministério Público e de dar declarações públicas sobre as irregularidades, ela recebeu ameaças de morte e pediu proteção policial.

Na reunião desta terça-feira, foi confirmado oficialmente o que VEJA noticiou em agosto: não se conhece o destino do dinheiro arrecadado para ajudar as vítimas da chuva na região serrana, do terremoto no Japão, e da crise humanitária na Somália. As três campanhas foram realizadas em 2011, na gestão de Serra. O rombo, no entanto, deve ser ainda maior do que o estimado inicialmente. De acordo com Gustavo Ramirez, representante regional da Federação Internacional da Cruz Vermelha, “há muito tempo” a Cruz Vermelha Brasileira não presta contas. “Temos solicitado prestações de contas. Isso não é normal nem bom, porque afeta a imagem da Cruz Vermelha no Brasil e internacionalmente. Não podemos aceitar esse tipo de comportamento porque vivemos de nossa credibilidade”, disse.

O chefe da delegação regional do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Felipe Donoso, manifestou preocupação com o abalo à imagem da instituição. “É a primeira vez que vejo uma situação como essa. A partir do momento em que não temos a garantia e a possibilidade de prestar contas, nossa entidade está ameaçada”, disse Donoso.

VEJA descobriu que a Embaixada da África do Sul destinou 230.000 reais aos desabrigados da serra fluminense e nunca recebeu um relatório sequer sobre a utilização do dinheiro. VEJA teve acesso a uma lista de empresas e bancos que juntos doaram cerca de 1,5 milhão de reais para os desabrigados fluminenses. A Cruz Vermelha do Japão registra o recebimento de 164 000 reais para as vítimas do tsunami, mas os recursos eram provenientes apenas da Cruz Vermelha de São Paulo. O dinheiro arrecadado pelo escritório nacional foi parar nas contas secretas do Maranhão, como mostrou a reportagem.

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