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Cracolândia: moradores de rua tentam se infiltrar em programa

Secretária Luciana Temer afirmou que 373 pessoas que não vivem na Cracolândia procuraram a prefeitura para ingressar no programa, que paga 120 reais por semana

Por Eduardo Gonçalves 31 jan 2014, 17h12

Atraídos pelo salário de 120 reais por semana e um quarto de hotel pago pela prefeitura de São Paulo, moradores de rua de outras regiões da cidade estão migrando para a Cracolândia na tentativa de embarcar no programa da administração municipal destinado a usuários de crack. Para ser aceito no programa, os usuários devem trabalhar quatro horas por dia varrendo ruas e praças do Centro e frequentar um centro de reabilitação para viciados.

Segundo a secretária municipal de Assistência Social, Luciana Temer, nos últimos dez dias, 373 pessoas foram até a Cracolândia para tentar ingressar no programa. Como o número de vagas é limitado e reservado aos usuários da região, ela disse que todos foram encaminhados para albergues da cidade. “Muita gente veio de outras regiões da cidade pela divulgação na mídia”, disse.

É o caso de Donizete Matos, de 28 anos, que dorme nas calçadas da Praça Dom Pedro II, no Centro. “Venho aqui todos os dias, mas eles [agentes da prefeitura] dizem que não têm vaga. Sempre falam para a gente voltar na próxima semana”, diz. Desde o início do programa, as idas a Cracolândia se tornaram rotina para ele. Matos afirma que não é dependente químico e diz que tentou se passar por usuário de crack para se inserir no programa:”Eu falei que usava, mas não deu certo”.

“Tem muito cadastrado aí que só quer saber de usar droga e dormir. Eu queria arranjar um serviço”, disse.

Segundo a ONG União Social Brasil, que tem convênio com a prefeitura para gerenciar o projeto, 25% dos cadastrados não estão comparecendo ao serviço, conforme reportagem da Folha de S.Paulo.

Morador da Cracolândia há dez anos, Joselito da Cruz, conhecido como “Miudinho”, não conseguiu ingressar no programa porque não é viciado em crack. “Meu problema é só alcool”, diz. Desempregado, ele afirma já ter trabalhado como carpinteiro, pintor e pedreiro. Agora tenta conseguir uma vaga no emprego de varrição de ruas do projeto – mas foi recusado seguidas vezes.

Vagas – Habituado a dormir na praça Princesa Isabel, no centro de São Paulo, Jefferton Pereira Silva, de 38 anos, também vai todos os dias à Cracolândia para tentar ingressar no programa. Ele costuma passar as tardes na tenda montada pela prefeitura aguardando ser chamado. “Fico esperando, mas não tem vaga”, diz. Quando não está no barracão, tenta ganhar dinheiro vigiando carros estacionados nas ruas do Centro. “Preciso tirar meu sustento para comprar comida e droga”, disse Silva, que consome uma pedra de crack por dia.

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Na mesma situação está Aristeu Santos Alves, de 33 anos. Ele diz morar nas ruas do Centro desde os 14 anos de idade. “Eu quero ser um desses azuizinhos aí”, disse Alves, referindo-se ao uniforme azul usado pelos cadastrados. Ele afirmou que está há quinze dias sem usar nenhum tipo de droga. “Quero me estabilizar, seguir a vida e ter onde dormir.”

Contrariado em não ser aceito no programa, Alves afirmou que a intenção da prefeitura era “tirar a favelinha dali”. As primeiras 300 pessoas inscritas pela administração municipal foram os moradores da favela montada na calçada da região. Em três dias, a favela foi removida e os viciados foram encaminhados para os hotéis conveniados.

A movimentação dos “novos moradores” também é percebida pelos comerciantes da região. Iara Gama, de 18 anos, que trabalha em uma loja de conveniência da Cracolândia, disse que desde que o programa entrou em atividade viu muita “gente nova” passar por ali. “Nós, que estamos aqui todos os dias, percebemos essa migração”, disse a vendedora.

A prefeitura informou que está fazendo um pré-cadastro das pessoas interessadas em aderir ao programa e que já chegou a inserir 41 viciados que não moravam na favelinha, mas frequentavam a Cracolândia. Questionada sobre como diferencia os usuários dos não usuários, a administração municipal afirmou que fez um reconhecimento da área, cadastrando todos que estavam consumindo droga no local, antes de iniciar o programa.

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