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Covid-19: como as duas maiores cidades sem mortes enfrentaram a doença

Em Bonito de Minas, maior município sem óbitos, estratégia inclui testagem de quem teve contato com infectado, ação contra fake news e até 'fiscal de fila'

Por Juliana Castro 7 Maio 2021, 16h31

Em todo o país, menos de cem municípios seguem sem óbitos pelo novo coronavírus — a imensa maioria com menos de 4.000 habitantes. VEJA fez um cruzamento entre os dados mantidos pela plataforma Brasil.io, que consolida os números dos boletins epidemiológicos emitidos pelos estados, dados divulgados pelas prefeituras e do IBGE e confirmou que todas as cidades brasileiras com mais de 10 mil habitantes já tiveram ao menos uma morte por Covid-19.

Há apenas uma exceção: Bonito de Minas, pacata cidade no norte mineiro, encravada na divisa com a Bahia, a 210 km de Montes Claros. É verdade que o fato de ao menos 70% da população de pouco mais de 11.000 pessoas ser rural atenua a propagação do vírus, mas a lição de casa foi feita desde o início. Até hoje, não houve casos graves e nenhum paciente precisou ser internado. Tudo isso só foi possível porque a administração local conseguiu envolver os cidadãos e fez ouvidos moucos a qualquer tipo de negacionismo.

Vista da cidade de Bonito de Minas, onde 70% da população mora na zona rural
Vista da cidade de Bonito de Minas, onde 70% da população mora na zona rural ./Divulgação

As estratégias são diversas e não envolvem apenas profissionais da saúde. No coração de todo o plano, está um comitê interdisciplinar que discute medidas de prevenção quase diariamente. A cidade é dividida por cinco zonas e tem equipes de profissionais de saúde que fazem visitas aos domicílios. Aproveitam o ensejo e conscientizam as famílias.

Como contenção, assim que um caso é confirmado, todas as pessoas que tiveram contato com o infectado são isoladas, testadas e monitoradas com lupa. A cidade tem três Unidades Básicas de Saúde — na sede e duas na zona rural. Mas todos os casos de síndromes virais vão para um único comitê habilitado a agir nos casos de Covid-19. Bonito de Minas registrou 47 casos desde o início da pandemia e já vacinou 1.915 habitantes com a primeira dose e 634 com as duas doses.

‘Fiscal de fila’

Se houver alta no contágio, Bonito de Minas fecha o comércio. Nos primeiros dias do mês, quando é comum a população rural ir à sede do município e os bancos ficam mais cheios, uma espécie de “fiscal de fila” acompanha o movimento e se certifica de que o distanciamento é seguido à risca. São quatorze deles, que também percorrem os estabelecimentos – mais com o objetivo de conscientizar do que de punir. Aos poucos, a população identificou esses cuidados e incorporou-os à sua própria dinâmica. “Aqui a gente está conseguindo envolver a sociedade e isso é um diferencial”, afirmou a prefeita Vânia Carneiro (Avante).

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Outro plano envolve o âmbito da comunicação, com o uso das redes sociais, principalmente o Instagram, e um feed com linguagem despachada, com direito a expressões bem mineiras: “Inventa moda, não. Fique em casa”, “Não aglomera não, trem” e “Uai sô, fica em casa”. Tudo isso tem um objetivo específico. “A população idosa daqui já tem o hábito de ficar mais em casa. Então, a gente precisava conscientizar os jovens. O importante era mobilizar mais o neto do que o avô”, conta Gabriella Viana, de 17 anos, que integra o grupo de três pessoas que cuida do marketing.

Material de campanha conta a Covid-19 em Bonito de Minas
Material de campanha conta a Covid-19 em Bonito de Minas ./Divulgação
Material de campanha conta a Covid-19 em Bonito de Minas
Material de campanha conta a Covid-19 em Bonito de Minas ./Divulgação

A equipe “se infiltrou” em grupos de moradores no WhatsApp — comum em cidades do interior, o município também tem o grupo “Carona Bonito de Minas”, de igrejas, etc. Lá, colocam boletins e desfazem fake news. A prefeitura também criou um WhatsApp para receber denúncias de aglomerações e conta com o apoio da Polícia Militar para checá-las e contê-las se for, eventualmente, o caso. “A população está vigiando a população”, diz a secretária de Saúde, Lilian Xavier. 

Massapê do Piauí

Distante 320 km da capital Teresina, Massapê do Piauí tem pouco mais de 6.000 habitantes e faz parte da seleta lista de menos de 100 municípios brasileiros sem registro de mortes por Covid-19. Até o momento, 218 casos da doença foram confirmados. O novo coronavírus mal havia sido registrado no país e a cidade já adotou medidas de proteção. As autoridades foram à rádio local alertar a população de que não havia motivos para pânico, mas que cuidados precisariam ser tomados daquele fatídico mês de março em diante. Houve a suspensão das atividades comerciais não essenciais, a proibição da entrada de veículos de transporte coletivo intermunicipal de passageiros e a realização de eventos e de reuniões de qualquer natureza. Quem viesse de fora, mesmo não apresentando sintomas, deveria permanecer em quarentena por sete dias.

Atendimentos que não eram de urgência também foram paralisados inicialmente. Os decretos foram reeditados a cada vez que a situação perigava degringolar. A Polícia Militar participou de uma mobilização preventiva, percorrendo a cidade e as comunidades rurais, orientando a população a se dispersarem. Até carro de som foi usado para falar sobre as medidas de prevenção, e máscaras também foram distribuídas para a população.

Assim como ocorreu Brasil afora, Massapê do Piauí viu as ocorrências de Covid-19 aumentarem em março deste ano. Depois de chegar a zerar os casos ativos, 19 pessoas foram infectadas. Diante desse cenário, a prefeitura proibiu até mesmo o acesso aos rios, lagoas e barragens situadas no município. Quando um caso é detectado em um povoado, por exemplo, é realizada uma ação de busca ativa, com a testagem das pessoas que tiveram contato com quem foi infectado.

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