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‘Cometi diversos crimes, mas nesse eu sou inocente’, diz Beira-Mar sobre chacina em presídio

Maior traficante do Brasil está sendo julgado no Tribunal de Júri do Rio de Janeiro por quatro homicídios ocorridos durante rebelião em 2002

Por Leslie Leitão 13 Maio 2015, 18h43

Com um megaesquema de segurança montado nos arredores do Fórum da capital, no Centro do Rio – até um helicóptero blindado foi utilizado – o novo julgamento de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, começou com duas horas de atraso. Treze anos depois da rebelião de 11 de setembro de 2002, que resultou na morte de quatro traficantes dentro de Bangu 1, o maior traficante do Brasil voltou a sentar no banco dos réus. Trazido de Porto Velho, em Rondônia, onde já cumpre pena, ele é apontado como um dos articuladores da trama que resultou na chacina. Entre as vítimas estava o rival Ernaldo Pinto Medeiros, o Uê, outra liderança do tráfico carioca.

Beira-Mar apareceu de camisa branca para dentro da calça jeans, sapato e óculos. “Eu cometi vários crimes na vida, mas nesse eu sou inocente”, afirmou o traficante, que disse ser “pecuarista de coisa ilícita”.

A linha de defesa para tentar convencer os sete jurados está baseada em dois fatores. O primeiro é que Beira-Mar ocupava uma cela na Galeria A quando outros comparsas da Galeria C (também do Comando Vermelho) invadiram a vizinha Galeria D e mataram os quatro inimigos da facção Amigos dos Amigos (ADA). A outra é que, na época, ele estava com o braço praticamente imobilizado em virtude de um tiro de fuzil que levou um ano antes. Para o Ministério Público, apesar de não ter feito as execuções, o criminoso articulou tudo.

Dez testemunhas foram arroladas, mas apenas uma delas compareceu. Surpreendentemente, outro traficante que, na época, era aliado de Uê e virou refém dentro de Bangu 1, Celso Luiz Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém. Uma das lideranças da facção ADA, ele disse acreditar ter sido poupado porque não participava da guerra psicológica, com xingamentos e ameaças, que havia entre criminosos presos nas Galerias C e D. Visivelmente alterado, Celsinho começou seu depoimento mandando um recado para comparsas que estão fora da cadeia: “Durante anos fiquei com essa fama de ter traído meus companheiros porque não morri naquele dia. Não traí ninguém não”, disse, sendo interpelado pelo juiz Fábio Uchoa.

Em seguida, Celsinho – testemunha arrolada pela defesa de Beira-Mar, tentou livrar o réu: “Fernando entrou na minha cela com um rádio ou um celular na mão, não estava armado. E eu estou aqui, vivo, fiquei com essa dívida”, afirmou, concluindo: “Se ele tivesse matado um companheiro meu, nunca ia depor a favor dele”.

Enquanto ouvia o rival falar, Beira-Mar fazia anotações num papel: “Nunca vi, em 30 anos, um réu fazer isso”, disse o juiz para o traficante, que foi ouvido em seguida e pediu para ler suas considerações sobre o depoimento de Celsinho: “Não somos amigos, mas temos respeito um pelo outro”, afirmou.

O julgamento tem previsão de terminar ainda hoje. Se condenado, o criminoso pode ser condenado a mais 120 anos de prisão (30 anos por cada um dos quatro homicídios).

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