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Com a crise, Lisboa redescobre seus engraxates

Desempregado há muito tempo e vivendo na rua, Orlando Sousa diz que está se sentindo “renascer”. Aos 62 anos, tornou-se engraxate, graças a várias instituições que trabalham para fazer ressuscitar ofícios tradicionais em Lisboa, capital de um país em crise.

“Minha vida mudou completamente, é como se acabasse de nascer”, resume com um sorriso o homem, de boné quadriculado na cabeça.

Operário da construção civil, pai de sete filhos, começou a trabalhar aos 14 anos, mas precisa sobreviver com uma aposentadoria de 113 euros, recebendo ajuda do Exército da Salvação.

Sob as arcadas da praça do Comércio, no centro do bairro da Baixa, de Lisboa, ex-centro de negócios da cidade, hoje tomada por turistas que vêm admirar o estuário do Tejo, Sousa espera os clientes sob o olhar atento de seu mestre de ofício, José Roque, engraxate há 30 anos.

Os dois homens se encontraram durante um programa posto em prática pela Santa Casa de Misericórdia de Lisboa, junto com uma escola de comércio e a associação Cais, dedicada a pessoas desabrigadas.

O objetivo do projeto é restaurar ocupações que tendem a desaparecer, como as de sapateiro ou alfaiate. No momento, o projeto dedica-se a dez aprendizes de engraxate e quatro mestres, recrutados entre os 15 que ainda vivem em Lisboa.

Para Henrique Pinto, presidente da Cais, “queremos reviver o ofício, porque compreendemos que trabalhando muito para constituir uma clientela, um engraxate encontra meios para subsistir e até ajudar a família.”

– “É preciso saber usar a escova” –

Obrigado a reerguer as finanças públicas do país, em troca de um plano de ajuda internacional, o governo português tenta poupar os mais carentes das medidas de austeridade que está adotando, pondo em prática um “plano de emergência social”.

Mas a recessão, o desemprego e o aumento dos preços vão atingir o conjunto da sociedade ainda mais duramente no ano que vem. “Hoje, muitas pessoas só conseguem fugir da miséria total com a ajuda de suas famílias, mas quanto tempo isso vai durar ?”, pergunta-se Henrique Pinto.

Diante do café Martinho da Arcada, estabelecimento bicentenário frequentado na década de 1920 pelo grande poeta português Fernando Pessoa, o mestre José Roque conta que ganha cerca de 35 euros por dia, com as tarifas oscilando entre 2,5 euros para os sapatos e 5 euros para as botas.

Em Portugal, o salário mínimo é de 565 euros por mês.

“Não é um ofício tão fácil quanto parece, previne o homem de óculos com lentes grossas. É preciso saber usar a escova, lustrar com a flanela e, principalmente, agradar.”

Seu aluno Orlando Sousa ainda tem todo um caminho a percorrer. Após uma formação de dois meses, ele se instalou numa esquina da praça há uma semana e conta, por enquanto, com dois ou três fregueses por dia.

“Mas não se deixa abater. É uma boa oportunidade que se apresentou e eu saberei agarrá-la”, afirma.

Alguém, finalmente, senta-se na cadeira alta junto da parede. “Você acaba de ganhar um freguês”, diz a Sousa um funcionário público de 57 anos que almoça diariamente no Martinho da Arcada. “O senhor conseguiu um bom lugar aqui, em um ano terá 20 fregueses por dia”, encoraja.