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Cidades históricas enfrentam problemas de metrópole

Favelização, crescimento descontrolado e ocupação de áreas de risco ameaçam a região de Ouro Preto, Mariana, Congonhas, Tiradentes e Sabará

Por Andréa Silva, de Belo Horizonte (MG) - 11 jan 2012, 11h47

A prefeitura de Ouro Preto decretou situação de emergência no município. Até o momento foram registrados 175 deslizamentos, 70 famílias estão desabrigadas e 82 desalojadas

A chuva que causa mortes e prejuízos em Minas Gerais desenterrou, para o resto do país, um problema que já atormenta moradores e visitantes das cidades históricas. O relevo que emoldura preciosidades arquitetônicas dos séculos XVII e XVIII enfrenta favelização e construções fora de controle que criam, ao redor de Ouro Preto, Mariana, Congonhas, São João Del Rei, Tiradentes e Sabará um cinturão de áreas de risco. São milhares de famílias que chegam e resolvem, à sua maneira, a falta de uma política eficiente de habitação popular. O patrimônio histórico enfrenta, assim, problemas semelhantes aos de grandes centros urbanos, com risco de tragédias no período de chuvas.

Comandante do grupamento do Corpo de Bombeiros de Ouro Preto, o subtenente Roberto Dutra, que também é responsável pela região de Mariana e outros 19 municípios, conhece de perto o problema. E vem assistindo a um perverso mecanismo de incentivo às ocupações de áreas de risco. “Todo mundo sabe que o melhor é prevenir do que remediar, e é mais caro reconstruir do que investir na prevenção. Mas as prefeituras deixam para agir quando as chuvas chegaram. Falta investimento na área de prevenção e mais informação à população. Não se tem interação dos moradores com as secretarias municipais e as pessoas não têm conhecimento do risco”, diz Dutra.

Desde a semana passada, a prefeitura de Ouro Preto decretou situação de emergência no município. Até o momento foram registrados 175 deslizamentos, 70 famílias estão desabrigadas e 82 desalojadas.

O geólogo e professor Romero César Gomes, do Departamento de Engenharia Civil da Escola de Minas, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), fez um estudo sobre o zoneamento das áreas de risco (chamado comumente de carta geotécnica) do espaço urbano da cidade. O trabalho foi desenvolvido pelo Núcleo de Geotecnia da Escola de Minas da UFOP, sob a supervisão dele, e entregue recentemente à prefeitura do município, complementando uma pesquisa de campo de quase 10 anos. No mapeamento constam laudos técnicos de todos os eventos ocorridos e monitoramento de encostas.

O estudo classificou a área urbana de Ouro Preto segundo quatro níveis de risco: Risco I (áreas de baixo risco); Risco II (áreas de risco médio); Risco III (áreas de risco alto) e Risco IV (áreas de risco muito alto). Pelos levantamentos, as áreas mais afetadas pelo grau de risco IV estão localizadas na chamada Serra de Ouro Preto, por envolver uma orientação desfavorável das camadas geológicas, elevada presença de nascentes e ocupação desordenada deste espaço físico. Os bairros desta região mais afetados nas chuvas atuais foram Piedade, Taquaral, Morro Santana e São Francisco (onde ocorreu o deslizamento de terra que destruiu parte da rodoviária e matou dois taxistas).

Romero estima que na área urbana de Ouro Preto, inserida no âmbito da Serra de Ouro Preto, devem viver cerca de 5.000 pessoas, com 20% a 25% em áreas de risco muito alto. Desse total, cerca de 300 a 400 pessoas (algo como 60 a 100 famílias) teriam que ser efetivamente removidas destas áreas. “Na situação emergencial, este remanejamento tem sido feito mediante vistorias técnicas específicas, envolvendo a participação de professores da UFOP, profissionais geólogos e a Defesa Civil da cidade”, disse ele.

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Para diminuir a possibilidade de novas mortes, diz o professor, as cidades precisam investir com urgência no combate à ocupação desordenada de áreas críticas no espaço urbano. Romero também considera necessário implementar trabalhos preventivos de grande escala, incentivar a participação de especialistas em geologia e geotecnia da UFOP e das grandes empresas regionais de mineração, para formular propostas técnicas de estabilização das áreas mais afetadas pelos escorregamentos.

A cidade de Mariana – primeira vila, cidade e capital de Minas -, a exemplo dos anos anteriores, enfrenta sérios problemas por casa das chuvas fortes. Em dezembro, mais de 300 pessoas tiveram de deixar suas moradias, por causa de deslizamentos de encosta e a cheia do Ribeirão do Carmo, levando a prefeitura a decretar situação de emergência. Estradas de acesso a cidade foram fechadas e os moradores ficaram praticamente isolados. O relevo e o solo local são bem semelhante à vizinha Ouro Preto – e os problemas, idem.

Inundações – Em Congonhas, a “cidade dos profetas”, onde estão as doze esculturas em pedra sabão de Aleijadinho,na igreja do Senhor Bom Jesus, as chuvas causaram inundação devido ao transbordamento do Rio Maranhão. Cerca de 1.400 famílias que vivem na região ribeirinha sofreram com as cheias. Mais de 4.000 moradores ficaram desabrigados e 50 estão desalojados.

O secretário de Gestão Urbana de Congonhas, José Vicente Santana, também diz que os danos no município são conseqüência da ocupação irregular. “As pessoas invadiram áreas às margens dos rios. Elas causaram desmatamentos e assoreamento nas margens. Foram justamente essas famílias as mais afetadas. Essas ocupações foram herdadas em gestões passadas. Agora é necessário criar ferramentas para coibir as invasões e buscar recursos para fazer os remanejamentos”, contou, recorrendo a um mecanismo que se repete em todo o Brasil.

Como o descontrole sobre o solo vem de décadas, não há empenho para solucionar o problema e o desabamento é sempre creditado às gestões anteriores. Santana informou ainda que a última enchente em Congonhas havia ocorrido em 2008. Mas, este ano, segundo ele, a deste ano foi a mais rigorosa das últimas décadas.

Em São João Del Rei, dona de um valioso patrimônio cultural artístico do período colonial, mais de 800 pessoas foram afetadas pelas chuvas e 300 famílias tiveram que deixar suas casas após o Rio das Mortes e o Córrego Linheiros transbordaram. A Defesa Civil da cidade informou que choveu forte de sexta-feira até esta terça-feira (10). Três residências desabaram e uma ainda corre o risco de cair. Apesar do susto, não houve vítimas e as famílias desabrigadas foram encaminhadas para uma escola pública da cidade.

A cheia do Rio das Mortes também afetou a cidade de Tiradentes. Casas e ruas ficaram alagadas. Uma das áreas mais afetadas foi o bairro Várzea de Baixo. A água e a lama chegaram até o centro da cidade e moradores tiveram que sair às pressas. A BR-265, que dá acesso ao município também ficou coberta pela a enchente e teve que ser interditada.

Sabará – Todos os anos os moradores de Sabará, vizinha a Belo Horizonte, sofre com as cheias do Rio das Velhas. Os bairros General Carneiro e Santo Antônio de Roças Grandes que são cortados pelo ribeirão são sempre os primeiros a sofrer com as enchentes. Alertas da prefeitura e da Defesa Civil foram emitidos no início do período chuvoso e a população ribeirinha recebeu orientação para deixar suas residências sempre que perceberem aumento no nível do rio. As tempestades deste ano voltaram a castigar o município. Houve deslizamento de encosta, que destruiu parte de uma passarela de pedestre. No início do mês, a principal entrada de acesso a cidade chegou a ficar interditada por causa de um alagamento.

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