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Cartel: Siemens admite à PF suspeita de propina

Executivo da empresa diz em depoimento que pediu investigação de conta em Luxemburgo seria utilizada para pagamento de propina a agentes públicos

Por Da Redação 4 dez 2013, 11h00

O executivo da Siemens na Alemanha Mark Gough declarou em depoimento à Polícia Federal que a multinacional suspeita que parte dos 7 milhões de dólares de uma conta em Luxemburgo, atribuída a Adilson Primo, ex-presidente da empresa no Brasil, foi utilizada para pagamento de propina a agentes públicos brasileiros. É a primeira vez que a Siemens, que denunciou a prática de cartel no sistema metroferroviário de São Paulo e do Distrito Federal, fala em pagamento de propina.

Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, o depoimento foi prestado no dia 6 de novembro e detalha as investigações feitas pela Siemens sobre a conta. Gough disse ter sido informado pela Justiça da Suíça que parte dos recursos que transitaram pela conta de Primo foi parar em contas de um funcionário da reserva da Marinha e de doleiros presos durante a investigação do caso Banestado – evasão de 30 bilhões de dólares de empresários brasileiros no exterior nos anos 1990, via o antigo Banco do Estado do Paraná.

Gough afirma que as transferências para uma conta bancária no paraíso fiscal de Luxemburgo foram “feitas sob as instruções e a mando de Adilson Primo”. O próprio ex-presidente da Siemens no Brasil era titular da conta com outros diretores da companhia. Primo alega que a conta era operacionalizada pela matriz na Alemanha, que tinha conhecimento dela.

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O executivo afirmou que a Siemens soube da conta em 2008, por meio de denúncia de um funcionário, cujo nome não revelou porque as regras de compliance – setor que disciplina regras internas de conduta – não permitem a identificação. Segundo ele, a conta “não estava registrada regularmente na contabilidade, não era declarada nos documentos oficiais e não era de conhecimento da empresa”. Gough relatou que metade dos 7 milhões de dólares foi transferida para Luxemburgo por meio de duas contas da Siemens, nos Estados Unidos e na Alemanha.

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Ele disse que após descobrir as transações e questionar Primo e outros detentores da conta, a investigação chegou a um “dilema”: ou os recursos tinham sido desviados para benefício próprio do ex-presidente e de diretores, ou o dinheiro tinha sido usado para pagar propina a agentes públicos, conforme informou o empregado que fez a denúncia sobre a conta.

“Caso a primeira hipótese fosse confirmada, o depoente teria levado os fatos imediatamente às autoridades competentes do país da subsidiária”, anotou a PF, citando o compliance. “Nesse caso, porém, como havia a possibilidade de os valores terem sido usados para propina, mas a empresa não tinha provas da participação de cada um dos envolvidos, o depoente pediu a seu chefe autorização para levar os fatos ao procurador de Luxemburgo e solicitar formalmente a abertura de uma investigação criminal.”

No começo de 2011, a Siemens entregou os documentos ao procurador de Luxemburgo. A investigação, disse Gough, mostrou que os ativos foram transferidos para offshores (empresas que tem a contabilidade em outro país) em paraísos fiscais. Uma parte “foi rapidamente aplicada em investimentos aparentemente legítimos, de curto prazo, em outros países, (…) em grandes bancos conhecidos em fundos de investimentos ou ações de empresas para que se pudesse lucrar com os juros”.

A Justiça da Suíça informou que valores foram transferidos para três contas de brasileiros, uma delas de Marcos Honaiser, oficial reformado da Marinha, que também foi membro da Comissão Nacional de Energia Nuclear. As outras duas contas são de escritórios dos doleiros Antonio Pires de Almeida e Ana Lucia Pires de Almeida, ambos falecidos, Paulo Pires de Almeida, Raul Henrique Srour e Richard Andrew Van Oterloo.

A Siemens informou em nota que as investigações “têm como fonte a denúncia espontânea e voluntária da empresa resultantes de suas investigações internas desde 2008, que não encontrou quaisquer evidências de corrupção”.

“Com base em sua política de integridade e obediência às leis, a Siemens forneceu e continua fornecendo documentos resultantes de suas averiguações internas para que as autoridades possam prosseguir com suas investigações”, disse a empresa, que fechou acordo de leniência em maio com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

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