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Carnaval do Rio: quando um advogado se transforma em pássaro prateado

Por Por Claire de Oliveira 14 fev 2012, 12h31

Casado, pai de família, Flávio Rocha, um advogado de 49 anos, leva durante todo o ano uma vida metódica em seu escritório do centro do Rio. Mas quando chega o Carnaval, abandona o terno e a gravata para viver sua paixão: criar fantasias luxuosas e desfilar em escolas de samba.

Neste ano, se transformará em pássaro e dançará no alto do último carro alegórico da escola de samba União da Ilha, que desfilará no Sambódromo na noite de segunda-feira.

“Sou funcionário, advogado e consultor da Petrobras, mas consagro meus fins de semana e minhas férias para fabricar fantasias”, conta Flávio à AFP.

No porão de sua casa situada no subúrbio do Rio, montou seu ateliê em 1998. Modelos de gesso, tecidos, pequenos cristais, lantejoulas, tesouras e cola mostram a atividade incessante do advogado neste período. No fundo do quarto, há uma cama.

“Minha casa é em cima, mas durmo aqui. Sacrifico tudo pelo Carnaval”, afirma.

Flávio mostra com orgulho a cabeça de pássaro muito trabalhada, toda prateada, que confeccionou e que utilizará no desfile do Sambódromo, apoteose da “grande loucura”, como é conhecido o Carnaval.

“Como pássaro, represento o ‘Rio da Paz’ para os Jogos Olímpicos de 2016”, que irão ocorrer na cidade, explica.

Na quinta-feira, Flávio também participará de um concurso de fantasias de luxo, algumas das quais pesando mais de 20 quilos.

“Vivo por esta loucura, para mostrar a alegria do Carnaval ao mundo inteiro”, afirma Flávio, que pesquisa seus desenhos na internet e na Biblioteca Nacional.

O advogado conta sobre uma fantasia que desenhou e fabricou para uma rainha do Carnaval. “É muito elegante e leve. Demorou meses para produzi-la”, afirma o artista, mostrando o biquini em strass, pérolas e lantejoulas.

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Muito solene, utiliza na cabeça um cocar com imensas plumas vermelhas.

“Eu as faço para vendê-las, tenho um site na internet. Um cocar como este custa mais de 1.500 reais”, afirma.

Também aluga fantasias e acessórios a grandes hotéis para sua decoração, e depois recicla o material.

Seus colegas da Petrobras apreciam sua atividade carnavalesca, afirma, e vão ao sambódromo para aplaudi-lo.

“Trabalho há nove anos na Petrobras e não tenho vergonha de dizer que sou um artista do Carnaval. É preciso conciliar família, trabalho e Carnaval”, acrescenta.

Sua paixão remonta à infância. “Nasci em Miracema, no interior do estado do Rio. Vivia em frente a uma escola de samba. Fui porta-estandarte e dançarino de uma escola de samba”.

Ao chegar ao Rio nos anos 80, assistiu a um concurso de fantasias de luxo e no ano seguinte decidiu se apresentar. “Desfilei com meu filho de seis meses nu nos meus braços e ganhei”, relata.

Hoje comerciante, seu filho, Flávio Junior, de 25 anos, detesta o Carnaval. Sua esposa, Maria Terezinha, também não gosta de desfilar.

“O Carnaval representa para mim a alegria, o amor. Tudo o que você faz deve fazer com amor, porque se você estiver feliz, se estiver satisfeito consigo mesmo, se amar a si próprio, estará bonito no Carnaval. Se não, parecerá uma marionete”, sustenta.

Na sala de sua casa, uma estante abriga os troféus conquistados nos concursos.

“Cumpro com meus dois trabalhos com amor e respeito: como advogado, ajudo o público a conhecer seus direitos. E como artista, forneço alegria”, resume Flávio.

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