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Carandiru: perito diz que cena do massacre foi alterada

Primeiro dia de julgamento de 26 policiais militares foi marcado por dispensa de quase todas as testemunhas de acusação; eles respondem por 73 mortes

Por Jean-Philip Struck 29 jul 2013, 18h33

Única testemunha a ser ouvida no primeiro dia da segunda fase do julgamento do massacre do Carandiru, o perito Osvaldo Negrini Neto afirmou nesta segunda-feira que o local da morte dos 111 presos foi alterado antes da realização da perícia.

Negrini, que já havia testemunhado no júri anterior, repetiu a versão de como realizou seu trabalho nos dias seguintes ao massacre. Ele disse que as celas foram limpas quando sua equipe de peritos finalmente conseguiu analisar o local.

O perito também voltou a contar o que viu no presídio quando chegou ao Pavilhão Nove, o palco do massacre. “Vi uma gosma escura descendo pelas escadas. Logo notei que era sangue. Como poderia haver um rio de sangue descendo daquele jeito? Até onde foi possível ver havia um mar de cadáveres. Contei naquele momento noventa cadáveres empilhados”, disse.

Negrini era ligado ao Instituto de Criminalística à época do massacre. Ele também afirmou que foi inicialmente impedido de entrar no presídio e que só conseguiu chegar ao pavilhão dentro do carro de um delegado. Negrini disse que não havia marcas de balas nos corredores (o que poderia mostrar que os presos haviam atirado), apenas dentro das celas.

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Ao inquirir o perito, a advogada Ieda Ribeiro de Souza, que defende dos PMs, tentou injetar alguma incerteza nas conclusões do relatório de Negrini, entre elas a informação de que 73 pessoas morreram no segundo andar – na chegada do perito os corpos já estavam empilhados no térreo. A advogada repetiu a pergunta diversas vezes. Negrini afirmou que concluiu isso porque o cruzamento de informações mostrou que esses 73 presos empilhados viviam no segundo andar e, portanto, devem ter morrido lá.

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Dispensa – A previsão era que oito testemunhas seriam ouvidas neste primeiro dia de julgamento, mas o Ministério Público optou por chamar apenas o perito, dispensando a presença das outras sete pessoas. A relação completa não chegou a ser divulgada. Três vídeos com as oitivas de duas testemunhas que falaram no julgamento de abril foram reaproveitados pela acusação e exibidos para os jurados nesta segunda.

Entre os vídeos, constam os depoimentos dos sobreviventes do massacre Antonio Carlos Dias e Marco Antonio de Moura, além do Moacir dos Santos, ex-diretor de disciplina do Carandiru.

Segundo dia – O julgamento será retomado na terça-feira, às 10h, quando devem ser ouvidas seis testemunhas de defesa (quatro delas pessoalmente, e duas em vídeo, segundo o Tribunal de Justiça). A defesa não informou se pretende dispensar alguma testemunha. O ex-governador Luiz Antonio Fleury (PMDB), que comandava o executivo paulista na época do massacre, e que falou no primeiro julgamento em abril, foi intimado a testemunhar novamente.

A expectativa do Ministério Público é que a mesma fórmula que determinou a sentença no primeiro julgamento prevaleça nesta segunda fase, e que cada um dos réus seja condenado a doze anos de prisão por cada uma das 73 mortes, o que pode totalizar 876 anos de prisão por réu. A previsão é que a sentença seja divulgada na madrugada de sábado.

Réus – Ao todo, 23 dos 26 réus compareceram nesta segunda-feira. Entre eles estava o tenente-coronel Salvador Modesto Madia, que foi deslocado nesta sexta-feira do comando do 4º Batalhão de Choque e havia comandado a Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota) no ano passado. Ele sentou na primeira fila dos réus.

Os réus respondem por 73 das 111 mortes que ocorreram na retomada do Pavilhão Nove do presídio, em outubro de 1992. Os crimes julgados nesta fase ocorreram no segundo andar (terceiro pavimento).

Em abril, outros 26 PMs foram julgados num primeiro bloco do julgamento por quinze mortes (posteriormente reduzidas para treze) ocorridas no primeiro andar (segundo pavimento) do pavilhão. Vinte e três acabaram condenados a 156 anosde prisão cada

(Atualizada às 21h20)

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