‘Brasil vive quase terra de ninguém’ diante da IA nas eleições, diz pesquisadora
Para Dora Kaufman, velocidade da desinformação supera capacidade de reação do TSE e partidos e plataformas deixam vazio no combate ao uso malicioso da IA
https://www.youtube.com/watch?v=qsq4yePkvTQ&t=2180s
A inteligência artificial (IA) acrescentou um novo desafio às eleições brasileiras ao tornar a desinformação mais convincente e mais difícil de conter. Em entrevista ao Ponto de Vista, a professora da PUC-SP e pesquisadora Dora Kaufman afirmou que o país enfrenta um cenário de fragilidade institucional diante do avanço dessas ferramentas.
Na avaliação da especialista, a combinação entre limitações regulatórias, velocidade de disseminação dos conteúdos e falta de ação de partidos e plataformas faz com que o Brasil esteja “quase que uma terra de ninguém” às vésperas do processo eleitoral.
Segundo Dora Kaufmann, a inteligência artificial não criou a desinformação, mas ampliou seu potencial ao permitir a produção de imagens e vídeos capazes de reproduzir situações que nunca aconteceram. Para a pesquisadora, esse tipo de conteúdo afeta diretamente a confiança do eleitor, elemento que considera indispensável para o funcionamento de uma democracia.
Ela também chamou atenção para os limites da atuação da Justiça Eleitoral. Embora o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tenha estabelecido regras para o uso da inteligência artificial nas campanhas oficiais, a pesquisadora observou que grande parte da desinformação circula por meio de apoiadores e perfis sem vínculo formal com candidatos ou partidos. Além disso, afirmou que o tempo necessário para identificar irregularidades e determinar a retirada dos conteúdos é incompatível com a velocidade de propagação nas redes sociais.
Caso ‘Dona Maria’
Um dos pontos abordados foi o uso de “Dona Maria” — personagem criada por inteligência artificial e amplamente compartilhada nas redes sociais por perfis de direita. A apresentadora Laísa Dall’Agnol questionou como deveria funcionar a responsabilização de partidos e candidatos quando conteúdos desse tipo são disseminados, mesmo sem comprovação de quem os criou originalmente.
‘IA destruiu lógica de que uma imagem vale mais que mil palavras’
Durante a entrevista, Dora Kaufmann afirmou que a inteligência artificial rompe um dos princípios mais tradicionais da comunicação: a ideia de que uma imagem seria prova suficiente da realidade. Segundo ela, hoje é possível colocar uma pessoa em um ambiente onde nunca esteve ou fazê-la dizer algo que jamais disse, tornando a manipulação muito mais convincente. Na avaliação da pesquisadora, isso amplia a dificuldade do eleitor em distinguir fatos de conteúdos fabricados.
A especialista também avaliou que mecanismos previstos pela Justiça Eleitoral, como a obrigatoriedade de identificar conteúdos produzidos por inteligência artificial com marca d’água ou outro tipo de aviso, têm eficácia limitada. Para ela, além de essas exigências alcançarem apenas as campanhas oficiais, a maioria dos usuários sequer consegue perceber ou compreender esse tipo de identificação durante o consumo rápido de conteúdos nas plataformas digitais.
Por isso, Dora Kaufmann defendeu que o letramento digital da população se tornou uma prioridade. Segundo ela, preparar o eleitor para reconhecer conteúdos manipulados é uma das formas mais efetivas de reduzir os impactos da desinformação nas eleições.
Ao longo da entrevista, a pesquisadora também cobrou maior responsabilidade das plataformas digitais. Na avaliação dela, os conteúdos desinformativos não circulam de forma espontânea, mas dependem desses ambientes para alcançar grandes públicos. Dora afirmou que as empresas poderiam desenvolver mecanismos para detectar e remover materiais produzidos por inteligência artificial com finalidade de desinformação, mas ponderou que mudanças mais efetivas dependeriam de uma obrigação legal.
Ao comentar o ambiente político, a professora disse não ter observado mobilização significativa de partidos ou candidatos para enfrentar o problema. Também destacou que a identificação da origem de conteúdos falsos pode se tornar ainda mais difícil quando eles são produzidos fora do Brasil, dificultando a atuação das autoridades.
VEJA+IA: Este texto resume um trecho do programa audiovisual Ponto de Vista (confira o vídeo acima). Conteúdo produzido com auxílio de inteligência artificial e supervisão humana.







