Autoridades apertam cerco às bets enquanto políticos apostam na demagogia eleitoral
A onda mistura boas iniciativas a estocadas que podem gerar muito barulho e poucos efeitos práticos
Maior evento esportivo do planeta, a Copa do Mundo levou quatro em cada dez brasileiros a arriscarem a sorte em plataformas de apostas digitais. Apenas nas primeiras três rodadas do campeonato foram despejados 780 milhões de reais em palpites sobre o time vencedor, o placar do jogo e o número de cartões amarelos. No confronto entre Brasil e Marrocos, o gasto médio dos apostadores foi de 524 reais. A amostra, tabulada pela fintech Klavi com dados das 187 bets legalizadas que atuam no país, revela a dimensão de um tema que tem desafiado governos em várias partes do mundo. A jogatina digital exige apenas que o apostador tenha em mãos um telefone celular e um cartão de crédito. A facilidade de acesso e a ausência de mecanismos mais rígidos de controle e fiscalização têm resultado no endividamento de famílias, levado pessoas ao vício e permitido a proliferação de sites clandestinos que faturam alto, não pagam impostos e são usados por criminosos para toda sorte de operações ilegais. A situação provocou uma espécie de cerco ao negócio, vindo de variadas frentes — da Justiça aos órgãos de defesa dos consumidores. Ocorre que essa onda mistura boas iniciativas a estocadas puramente demagógicas, o que pode gerar muito barulho e poucos efeitos práticos.
No campo dos movimentos necessários e que fazem sentido para botar alguma ordem nesse mercado, na segunda-feira 6 a Polícia Federal investiu contra 87 empresas utilizadas por sites que operam na clandestinidade para lavar dinheiro e enviar verdadeiras boladas ao exterior. A descoberta do esquema foi possível depois que a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), repartição vinculada ao Ministério da Fazenda, rastreou a atuação de mais de uma dezena de plataformas que não tinham autorização para operar, mas funcionavam livremente. Um mapeamento feito pelo governo já identificou 300 operadores e quase quarenta instituições que atuariam em parceria com organizações criminosas explorando as apostas digitais. No melhor dos cenários, essas bets funcionam como arapucas que atraem os incautos com promessas de ganhos instantâneos. No pior, funcionam como braço financeiro ou lavanderia do crime organizado.
Recentemente, o Tribunal de Contas da União mostrou a fragilidade dos mecanismos de fiscalização sobre essas plataformas e cobrou providências do governo federal. A Corte descobriu que, em meados do ano passado, havia apenas três (isso mesmo, três) servidores na Secretaria de Prêmios e Apostas responsáveis por acompanhar todas as transações feitas pelas bets, analisar indícios de operações suspeitas e catalogar as irregularidades. Depois disso, o Ministério da Fazenda desenvolveu um sistema de cruzamento e checagem de dados que permitiu ao Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) emitir mais de 20 000 alertas, em apenas dois meses, sobre a atuação das casas de apostas ilegais, ao mesmo tempo que a Receita Federal pedia o bloqueio de contas bancárias suspeitas e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) tirava do ar páginas da internet que exploravam direta ou indiretamente a jogatina clandestina. Era algo que já devia estar acontecendo nessa escala desde o início da legalização no país das bets, em 2023 — mas, como diz o ditado, antes tarde do que nunca.
Entre 2024 e meados de 2025, a SPA instaurou 455 processos contra as plataformas ilegais. A ofensiva, ainda assim, tem se mostrado irrisória. Segundo o próprio Tribunal de Contas, é como enxugar gelo. As bets clandestinas continuam dividindo o mercado com as empresas legalizadas e faturando fortunas. “A manutenção de aproximadamente 41% a 51% do mercado sob controle de operadores não autorizados, movimentando entre 26 bilhões e 40 bilhões de reais anuais, não obstante 21 842 bloqueios de domínios e 483 encerramentos de contas bancárias, evidencia inefetividade que reduz a percepção de risco por parte dos criminosos”, diz o trecho de uma auditoria à qual VEJA teve acesso, que recomendou ao governo federal a adoção de um conjunto de medidas que passam pela ampliação do orçamento para os órgãos de fiscalização e pelo endurecimento de punições aos infratores.
As apostas foram legalizadas por Michel Temer, expandiram sua atuação na gestão de Jair Bolsonaro e tiveram o funcionamento regulamentado por Lula em 2023. Só em impostos o governo arrecadou 33 bilhões de reais no ano passado. Mas o ônus também é grande. Uma pesquisa da AtlasIntel constatou que 86% da população acredita que as bets causam prejuízos sociais — uma péssima notícia para alguns políticos, especialmente em tempo de eleição. Deu-se início a um jogo de hipocrisia, terreno no qual o governo atual vem ganhando de goleada. “Nós brigamos a vida inteira contra cassino, eu pelo menos, como cristão. Agora o cassino está dentro da sua casa”, disse o próprio Lula, como se ele nada tivesse a ver com o problema. “Se depender da vontade do presidente da República, eu vou dizer durante a campanha: sou favorável a acabar com todas aquelas bets que não estão prestando nenhum serviço de utilidade a este país”, acrescentou.
O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, que concorre atualmente ao governo de São Paulo pelo PT, fez coro ao discurso do presidente. Um pequeno “detalhe”: foi Haddad que coordenou o processo de regulamentação das bets com o aval de Lula. Parecia uma boa intenção, na direção correta, mas no que o governo realmente apostava eram os valores robustos que seriam arrecadados. Agora, Haddad, jogando para a torcida, passou a integrar a turma que demoniza o mercado que ele ajudou a legalizar. “As bets são um escândalo no Brasil”, escreveu o petista em sua rede social, na quarta-feira 8. Segundo ele, o negócio cresceu livremente e criou um problema que hoje afeta milhões de famílias brasileiras. “Essa é uma crise que o governo Lula herdou e enfrentou”, finalizou.
A oposição também entrou firme no campo da demagogia. Maior rival de Lula na corrida presidencial, Flávio Bolsonaro não hesitou em associar Lula aos problemas atuais: “Ele regulamentou os sites de apostas no Brasil. O resultado está aí”. Até o deputado Aécio Neves (PSDB-MG), que tentava viabilizar uma candidatura à Presidência, decidiu pegar uma carona no debate e se apressou para apresentar um projeto de lei proibindo a propaganda de apostas em todo o país. A publicidade, aliás, levou a Secretaria Nacional do Consumidor a abrir investigação contra supostos abusos da CazéTV pela divulgação de anúncios de bets. Na defesa apresentada ao governo, a empresa, que detém o direito de transmissão da Copa do Mundo, negou ter veiculado publicidade enganosa ou abusiva que sugerisse recorrer a apostas on-line como investimento.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003







