Assine VEJA a partir de R$ 9,90/mês.

Associação defende troca de dietilenoglicol por álcool em cervejarias

Carlo Giovanni Lapolli, presidente de entidade de cervejarias artesanais, afirmou que produto é mais barato e não é tóxico

Por Luís Lima - Atualizado em 15 jan 2020, 14h09 - Publicado em 15 jan 2020, 14h03

O presidente da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), Carlo Giovanni Lapolli, defendeu o álcool etílico potável como melhor alternativa para ser usada como anticongelante em sistemas de refrigeração de cervejas. Lapolli não recomendou “em hipótese alguma” o uso de dietilenoglicol, substância encontrada em garrafas da cerveja Belorizontina, da Backer, apontada como possível causadora de uma síndrome nefroneural (que afeta rins e sistema nervoso) que já matou três pessoas e intoxicou outras quinze, segundo números atualizados Polícia Civil de Minas Gerais. Além de mais barato, defende, o álcool não apresentara riscos à saúde em caso de eventual vazamento.

“Solicitamos ao Ministério da Agricultura que suspendesse, de forma cautelar, a utilização de dietilenoglicol. Vemos hoje que é inadequado para esta finalidade (anticongelante), pelo risco de contaminação acidental”, afirmou Lapolli a VEJA. Segundo ele, “99% das cervejarias artesanais” no Brasil não utilizam a substância, que pode ser tóxica se ingerida. “Além do mais o álcool etílico potável, usado para fazer licor e vodca, é muito mais barato”, completa. Ele atribuiu o uso pela Backer a uma “falta de atualização” de sistema de produção da cervejaria ou mesmo “de informação”.

Lapolli disse ainda que o padrão de fabricação de cerveja artesanal no Brasil é semelhante ao da Europa e Estados Unidos. “São os mesmos processos e equipamentos”, diz. O FDA (Food and Drug Administration), órgão regulador de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, porém, proíbe o uso dietilenoglicol como anticongelante em processos de refrigeração de cerveja.

O presidente da Abracerva não descartou a hipótese de sabotagem, como apura a Polícia Civil mineira, no caso Backer, mas admitiu que a contaminação em sistemas de refrigeração é possível, ainda que improvável, em razão do desgaste de equipamentos. “Uma eventual fissura em uma solda (onde se encontra a serpentina em que circula o anticongelante) e uma pressão de trabalho muito alta podem ter causado o vazamento”, opinou.

Publicidade

Em ofício enviado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e à Anvisa, a Abracerva pediu a edição de uma norma específica sobre trocadores de calor e produtos permitidos. Atualmente, o uso do dietilenoglicol é autorizado às cervejarias. Como medidas emergenciais, a entidade sugeriu aos parceiros cervejeiros a revisão de imediata de equipamentos e pontos críticos de contaminação, além de normas internas de controle, inspeção e manutenção, entre outras soluções.

Lapolli classificou como algo “inédito” a contaminação por dietilenoglicol e disse que o setor está “chocado” com o caso. Ele cobrou transparência para superar a crise na relação com “autoridades, consumidores e imprensa”. Considerou ainda que o setor como um todo pode ser afetado, devido a uma possível maior desconfiança dos compradores, mas ressaltou que será uma crise temporária. “É plenamente recuperável. Temos padrão de segurança alimentar, vistoria prévia para abrir, diversos controles documentais e fiscalização intensa do Mapa”, afirmou.

A Polícia Civil confirmou a morte de um homem nesta quarta-feira, em Belo Horizonte, que seria a terceira vítima do caso Backer. Um outro homem morreu em Juiz de Fora, na região Sudeste de Minas Gerais e uma mulher em Pompéu, na região Centro-Oeste. Oficialmente, no entanto, a corporação ainda não confirmou o caso de Pompéu, e contabiliza duas mortes oficiais relacionadas à ingestão de dietilenoglicol, após o consumo da cerveja Belorizontina.

Publicidade