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As pistas da tragédia de Santos

Reportagem de VEJA desta semana mostra que a inexistência dos registros da caixa-preta do Cessna Citation aumenta as dificuldades na investigação do acidente, mas não pode alimentar explicações improváveis

Por Carlo Cauti, de Santos, e Jennifer Ann Thomas 16 ago 2014, 01h00

A notícia, divulgada com desmedido alarde pela Força Aérea Brasileira (FAB) na sexta-feira, de que não existe na caixa-preta do Cessna Citation a gravação das conversas da cabine foi um baque para a investigação do acidente aéreo que matou Eduardo Campos e outras seis pessoas. Os técnicos identificaram duas horas de áudio de voos anteriores, sem data precisa. Mas ainda mais desmotivante foi a FAB concluir, horas depois, que também não havia um dispositivo para registrar dados fundamentais, como mudanças de velocidade e altitude. A gravação de voz é obrigatória, mas falhou (não é raro que falhe). A de dados, segundo a legislação dos Estados Unidos, onde o avião foi fabricado, e do Brasil, não é compulsória em aeronaves desse tamanho. As informações frustrantes deram asas a malucas teorias da conspiração. Mesmo com uma caixa-preta incapaz de falar, há outros caminhos de investigação para buscar indícios do que houve em Santos.

Por enquanto, a esperança reside nas turbinas, a ser analisadas por militares na cidade de São José dos Campos (SP). O revestimento dos compressores, feitos de titânio, resistiu ao impacto e pode indicar como funcionavam os motores no momento da queda. O modo como o metal se deformou ajudará a descobrir a rotação no instante fatal. Será possível saber o que provocou a pane. À falta de provas concretas, resta separar a verdade da ficção e as teses cabíveis das improváveis. As especulações começaram a aparecer minutos depois da tragédia. As suspeitas vão de um provável choque com um drone, que estava sendo testado na região (mas, até onde se sabe, não naquela quarta-feira chuvosa), a supostos, e prováveis, problemas das turbinas, ou mesmo falha dos pilotos ao realizar a manobra de arremetida na Base Aérea de Santos.

De certo, o que se sabe é pouco. O bimotor Cessna 560 XL Citation Excel decolou do Santos Dumont, no Rio, às 9h21 da quarta-feira 13 e viajou até a Base Aérea de Santos. Ao se aproximar, o piloto comunicou à torre: “Quem tá falando é o Papa Romeo Alfa Fox Alfa, vai (sic) fazer a Echo Uno da pista 35″. Ao dizer Echo Uno e pista 35, o piloto avisava que se aproximava pelo oceano – o que o colocava a favor do vento de 12 quilômetros por hora, condição ruim para pouso. “Normalmente se escolhe ir contra o vento, mais seguro, pois isso ajuda a reduzir a velocidade”, diz o piloto Joselito Sousa, supervisor de aeronaves no Aeroporto de Guarulhos. “Nesse caso, não havia opção”, acrescenta. Em teoria, a alternativa era se aproximar pelo continente, contra o vento. Mas a manobra não é permitida com baixa visibilidade, em nevoeiros por exemplo, como no caso, já que se sobrevoa a Serra do Mar. Daí a opção pelo pouso a favor do vento. O Cessna encontrou alguma problemática, como a velocidade excedente, e foi necessária a arremetida.

Arremeter é um procedimento comum, adotado quando as condições não são ideais para pouso. O piloto acelera e ganha altitude para se preparar para uma segunda tentativa. Cada pista possui uma carta com a recomendação a ser seguida. Na Base de Santos, deve-se virar à esquerda, num movimento em laço. O piloto Marcos Martins começou a manobra, mas parece ter feito a curva mais fechada. Foi quando o Cessna, por motivo desconhecido, perdeu a estabilidade.

Pessoas que trabalham na base aérea trocaram mensagens dizendo que avistaram fumaça nas turbinas. É indício de falha mecânica ou choque contra algo. Esse “algo” pode ser um pássaro, como um dos urubus que costumam sobrevoar um lixão próximo, mas raramente em dia de chuva. Ou mesmo o tal drone, o que é pouquíssimo provável. A queda foi brusca, e por enquanto se consideram duas trajetórias: ou o avião teria passado rente a um prédio, sobre casas baixas, ou entre dois edifícios. Em ambos os casos, o Cessna caiu com força suficiente para destroçar o jato e os corpos, cujos pedaços se espalharam por 130 metros, pulverizados de tal maneira que o reconhecimento terá de ser feito por DNA. As características da queda sugerem que o piloto realizou uma manobra para desviar dos prédios e cair no lugar mais vazio à vista.

Acidentes aéreos sempre criam temor. Só que é preciso destacar a raridade de um evento como esse. Trata-se do primeiro acidente com mortes de um Cessna 560. Há cerca de 90 000 aviões sobrevoando o planeta, e a probabilidade de um de seus passageiros morrer é de 1 em 7  229, muito menor que a de ser vítima de um acidente de carro (1 em 108) ou mesmo morrer engasgado com comida (1 em 3 842).

Com reportagem de Alana Rizzo

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