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Artigo: Que país é esse?

Pandemia escancarou a profundidade das desigualdades socioeconômicas no país, escreve Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva e do Data Favela

Por Renato Meirelles Atualizado em 11 set 2020, 08h44 - Publicado em 11 set 2020, 06h00

A pergunta que mais tenho ouvido ultimamente é: afinal, qual é o Brasil que sai da pandemia? Desde as primeiras notícias sobre a chegada da Covid-19, o Instituto Locomotiva tem se debruçado sobre o tema. De março até o início de setembro, foram 27 pesquisas investigando como a doença e as consequências das medidas para combatê-la – ou a ausência delas – bateram nos costumes, no bolso, na alma e no futuro dos brasileiros. E a verdade é que não há uma resposta única. Em um país brutalmente desigual como o nosso nem poderia ser diferente.

Encontramos um otimista cauteloso. Um brasileiro que ainda está descrente com as instituições e exatamente por isso acredita que futuro será melhor do que o do país em que vive. Um cidadão que, na orfandade de lideranças, chama para si a responsabilidade pela melhora da própria vida

Um dos primeiros efeitos da Covid-19 foi pulverizar uma fake news muito disseminada no começo da pandemia: a de que o coronavírus era democrático, matava igualmente ricos e pobres. Os anticorpos sociais de quem tem água encanada e de quem não tem, de quem pode optar pelo home office e de quem divide o cômodo do barraco com a família, mostraram que não era nada disso.

Outro dado revelador: proporcionalmente, os pobres doaram mais do que os ricos durante o isolamento social. O senso de reciprocidade, o sentido de comunidade, é arraigado na quebrada. “Se um vizinho tem comida, ninguém passa fome”, foi uma frase que escutamos muito em nossas pesquisas. Por outro lado – e pasmem! – um terço das classes A e B, os 25% mais ricos do país, pediram o auxílio emergencial e 69% deles conseguiram. Proporcionalmente, mais ricos receberam o coronavoucher do que aqueles que realmente precisavam, as classes D e E.

Arrisco dizer que o processo de polarização em que o país mergulhou explica esse individualismo extremado, quase obsceno, da parcela mais rica da sociedade. O mais surpreendente é que os entrevistados não tinham a sensação de que o gesto de requisitar o auxílio emergencial no lugar de quem realmente dele necessitava fosse algo reprovável, uma nova versão da velha “lei de Gerson”.

Nossa elite só não se saiu pior porque uma parcela dela teve uma atitude fundamental no início da pandemia. Houve um movimento abrangente, liderado por grandes empresários, dispostos a minorar os efeitos da pandemia sobre a população mais vulnerável com doações. E estas chegaram ao seu destino porque esses empresários trabalharam em conjunto com ONGs como a Central Única das Favelas que atuam nas franjas da sociedade, lugares que o poder público não alcança. Esse encontro da elite com favela foi o que salvou o Brasil de uma convulsão social no momento zero da pandemia.

O encontro da elite com favela sinaliza um caminho. Ou socializamos as oportunidades ou correremos um sério risco de pagar o preço da nossa desigualdade. Um dos nossos levantamentos mostrou que nove entre dez brasileiros não sabem para onde vamos passada a pandemia, mas têm certeza de que nada será como antes. Faz todo o sentido. O “antigo normal” nos trouxe até aqui.

Procuramos entender se tem algo de positivo que pode sair desta tragédia que matou mais de 130 mil brasileiros. E tem. As pessoas saem dessa tragédia com um senso de solidariedade que desde a campanha contra a fome liderada pelo Betinho nós não víamos no nosso país. A polarização política perdeu espaço para a polarização entre quem defende a vida versus quem defende o vírus. Não custa lembrar que depois da Peste Negra, veio o Iluminismo e com ele, um dos maiores avanços civilizatórios da nossa história. O novo normal está em construção. A Covid-19 está se mostrando um formidável acelerador de processos e tendências que estavam latentes na sociedade. Que um Brasil mais solidário, generoso e humano prevaleça.

Renato Meirelles, fundador do Instituto Locomotiva e do Data Favela

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