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ARTIGO: Maconha, não, filho

Proibida ou não, a droga é parte da sociedade e orientar é o caminho que temos hoje

Por Viviane Sedola*
28 ago 2023, 12h31

O século XX foi marcado pela proibição e por campanhas publicitárias negativas que pintavam a maconha como o grande mal da juventude. O estigma em torno da planta paira até os dias de hoje. Pesadelo para muitos pais é ver o filho envolvido com drogas, mesmo que seja apenas maconha. E comigo não é diferente.

Meu filho tinha cerca de 10 anos quando me acompanhou a uma conferência sobre o uso medicinal de cannabis em Natal. Passamos dois dias entre palestras, com expositores, cientistas e médicos debatendo o potencial terapêutico da planta.

No voo de volta para casa, meu filho começou a me fazer perguntas: “Mãe, as crianças precisam fumar para se tratar? Cannabis não é maconha? Crianças podem mesmo usar?” E eu me vi a 30 mil pés de altura tendo que articular a resposta o mais pé no chão possível.

Ao mesmo tempo em que queria sustentar o meu trabalho como algo bom e positivo para a sociedade, eu não queria estimular o uso indevido de maconha pelo meu filho. Ninguém quer.

A despeito da enorme polêmica que o assunto provoca há décadas e décadas, há muito pouca informação disponível sobre os danos provocados pelo consumo da maconha. Estudos em ratos mostram que os jovens podem ter o desenvolvimento do seu sistema nervoso central afetado pelo uso precoce de cannabis. Ao passo que os ratos velhos submetidos às mesmas substâncias parecem recobrar sinapses cerebrais que já mostravam sinais de cansaço. Estudos em humanos? Ainda não temos o suficiente para chegar a conclusões definitivas, e a proibição dificulta que novos sejam iniciados.

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É teoria aceita entre neurocientistas e médicos que o nosso sistema nervoso central não alcança a sua formação completa antes dos 21 anos de idade. Pensa em uma sementinha que você põe na terra e começa a brotar. Será que cutucar o broto vai ajudar ou atrapalhar o seu desenvolvimento? Não sou cientista ou bióloga, mas tendo a acreditar que a natureza tem os seus meios próprios de se desenvolver. Melhor não interferir.

Voltando à pergunta feita à queima-roupa durante nosso voo de volta para casa, procurei ser bastante franca e didática diante da criança curiosa que estava me encarando. “Filho, existem crianças que precisam de ajuda para controlar sintomas de doenças graves”, contei a ele. “Para elas há produtos de cannabis que podem ser prescritos por um médico e tomados, por exemplo, junto com o leite. Crianças sem sintomas como esses deveriam evitar o uso de maconha até se tornarem adultos por que isso pode atrapalhar o seu crescimento. Ah, e fumar, seja lá o que for, não faz bem para ninguém.”

Não posso confiar que o mundo não irá lhe oferecer drogas. De fato, já faz 6 anos que tivemos aquela primeira conversa no avião e o assunto vem evoluindo conforme ele cresce. Hoje ele me conta que tem amigos fumando rotineiramente, mas que opta por não participar. Meu filho sabe que, além dos impactos no seu desenvolvimento, a maconha ilegal provavelmente está contaminada e é de péssima qualidade.

Queria eu que as substâncias chamadas recreativas viessem como os cigarros, sempre com informações embasadas por estudos sobre os riscos reais e consequências do uso; controle etário nos pontos de venda; controle de qualidade; propaganda restrita e com impostos que deveriam ser revertidos para a saúde e para prevenção.

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Mas, sendo essas drogas proibidas, qualquer tipo de educação e controle ficam comprometidos. A oferta é alta e a venda ilegal não garante nenhuma proteção aos consumidores. Eu tenho que confiar que as instruções que tenho dado ao meu filho vão preveni-lo de fazer uso indevido ou irão, ao menos, retardar esse processo. Sei que ele tem fundamentos para tomar essa decisão e vejo que a minha atitude educativa teve um resultado positivo.

Proibida ou não, a maconha é parte da nossa sociedade. A sua posse está prestes a ser descriminalizada pelo Supremo Tribunal Federal, mas esse é apenas um passo. Controlar e educar são etapas fundamentais para que a nossa relação com essa planta seja cada vez menos histérica, e mais saudável e esclarecida.

*Viviane Sedola é empreendedora de impacto e fala sobre cannabis, tecnologia, startups, políticas públicas e o papel da mulher nesses espaços.

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