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Apreensão de armas registra queda no Rio de Janeiro

Apesar das críticas de Beltrame ao governo federal na fiscalização das fronteiras, índices mostram que a polícia fluminense tem tirado das ruas 39,4% a menos de armamento do que há uma década

Por Leslie Leitão 1 fev 2015, 12h42

Um dos principais argumentos usados pelo secretário de segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, para tentar explicar a explosão da violência e a chuva de balas perdidas que feriu 28 pessoas e matou outras seis só no primeiro mês deste ano, é a falta de fiscalização nas fronteiras, que fazem do Brasil uma verdadeira peneira. Não há dúvidas quanto a isso. É um problema histórico, com o qual o governo federal parece não saber lidar há décadas. Mas as estatísticas de apreensões de armas no estado, por exemplo, revelam uma queda drástica, que joga por terra esse discurso de defesa, empurrando a culpa no andar de cima. Afinal, se apreende-se menos armamento, das duas uma: ou é porque menos armas estão entrando, ou porque a repressão em território fluminense está falhando.

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Fato é que, em 2004, as forças policiais tiraram das ruas do estado 14.308 armas. De lá pra cá, ano a ano as apreensões foram diminuindo gradativamente, chegando à metade (7.367) em 2012. Atualmente, 2014 melhorou um pouco, fechou com 8.667 armas, um número 39,4% menor do que o registrado uma década atrás, quando o mercado negro e as ofertas eram menores. Para o antropólogo e ex-capitão do Bope, Paulo Storani, há algumas explicações para esta queda. “O Beltrame está replicando o discurso que venho falando há anos. De fato, existem as falhas na fronteira que são muito preocupantes. Mas há também um outro problema, interno. É nítido que a polícia daqui não está investigando”, dispara.

Storani refere-se, em especial, às atribuições da Polícia Civil. E faz sentido. Em 2011, por determinação da própria secretaria de segurança, a unidade responsável por estas investigações, a Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) – que havia prendido cinco grandes traficantes de armas nos anos anteriores – foi extinta sem maiores explicações em meio a uma briga política entre delegados pelo comando da instituição. Sem investigação, a própria estratégia de ocupação territorial para a implantação de UPPs se mostrou falha. Beltrame, em regra, sempre optou por anunciar qual seria seu próximo alvo antes de entrar na favela com as forças do estado. Com isso, evitava confrontos e, claro, balas perdidas e vítimas inocentes: “Acho essa estratégia correta, mas todos os serviços de inteligência falharam e os arsenais dos traficantes foram se movimentando para outras regiões”, diz Storani.

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As críticas de Beltrame não foram bem digeridas pela direção da Polícia Federal, em Brasília, e nem pela Secretaria Nacional de Segurança (Senasp), que tem, nos últimos anos, dado apoio financeiro e logístico às ações de combate ao crime no Rio de Janeiro. O Exército, por exemplo, já tinha ficado mais de um ano no Complexo do Alemão, após o processo de ocupação em 2010, e ano passado voltou para o Complexo da Maré, onde ocupa – e é atacado diariamente – até que novas turmas sejam formadas para a implantação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) ali, o que só deverá começar acontecer em abril. Nos três últimos anos, o Rio de Janeiro recebeu 117 milhões de reais de recursos federais para investimentos na pasta de segurança. Isso sem contar os 6 bilhões investidos pelo governo estadual ao longo de 2014.

Outro dado que confronta o discurso do secretário de segurança do Rio está numa pesquisa chamada ‘Mapa do Tráfico Ilícito de Armas no Brasil é Ranking dos Estados no Controle de Armas’. A informação está numa reportagem do jornal O Dia, e revela que 83% das armas apreendidas aqui são de fabricação nacional.

“Todo mundo sabe que o tráfico interno de armas é gigante, inclusive com a participação da polícia estadual. Quanto à crítica ao combate nas fronteiras, a questão também envolve um problema do Rio. Se os traficantes cariocas movimentam esse comercio de arma e drogas através da fronteira, é porque eles têm dinheiro. E eles tem tanto dinheiro porque o combate é feito sem inteligência”, afirma um delegado da cúpula da PF em Brasília.

Armas apreendidas na última década

2004 14.308 2005 14.876 2006 13.312 2007 11.062 2008 9.533 2009 8.914 2010 7.554 2011 7.435 2012 7.367 2013 8.101 2014 8.667

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