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Após confronto, quatro seguem detidos em São Paulo

Com os manifestantes, polícia apreendeu facas, canivetes, martelos e até machado. Pelo menos doze policiais ficaram feridos na tentativa de impedir tomada da Paulista

São Paulo conta os prejuízos causados pelo quarto dia de vandalismo nas ruas da capital paulista. Segundo dados da Polícia Militar, mais de 230 pessoas foram detidas, sendo que pelo menos quatro permanecem presas na manhã desta sexta-feira. Contra elas pesam acusações de formação de quadrilha, de depredação de patrimônio público e de incitação ao crime.

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Com os manifestantes, foram aprendidos dois martelos, quatro canivetes, um machado, três facas, dois fogos de artifício e onze litros de álcool. O grupo também portava toucas ninjas e latas de spray. Como nas outras três ocasiões, a depredação do bem público também marcou o protesto desta quinta-feira. De acordo com informações do Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano e Passageiros de São Paulo (SPUrbanuss), 47 ônibus acabaram depredados, queimados ou pichados.

A decisão de endurecer contra os manifestantes anunciada pela Polícia Militar, na manhã de quinta-feira, foi posta em prática. A ação, taticamente bem-sucedida, atingiu o objetivo de dispersar os manifestantes. Não, é claro, sem confusão. Ainda não há um número oficial de feridos, mas sabe-se que entre eles estão jornalistas e pelo menos doze policiais.

Segundo a Polícia Militar, 5.000 pessoas participaram do protesto, que teve início na região do Theatro Municipal, no centro da capital. Numa ação rigorosa que mobilizou a Tropa de Choque, a Cavalaria e teve o apoio de helicópteros, os manifestantes foram impedidos de mudar o trajeto previamente estabelecido para a passeata. Quando ficou claro que elas tentariam tomar a Avenida Paulista, como no ato da semana passada, os contingentes da PM foram acionados e repeliram seu avanço. Blindaram os acessos à avenida, palco anterior de depredações e vandalismo, fazendo uma varredura para garantir que grupos não furariam o bloqueio, e causaram a dispersão da turba. Às 21h30, a situação na região foi normalizada com a liberação do trânsito.

O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella Vieira, fez uma defesa veemente da ação da polícia e disse que eventuais abusos cometidos serão apurados. O Movimento Passe Livre, que organizou os quatro atos até agora, ameaça nova manifestação na segunda-feira e convoca o ato para as 17 horas, no Largo da Batata, em Pinheiros.

Além dos estragos na cidade, as manifestações também trarão consequências políticas para o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e para o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT). Os dois adotaram posições distintas nesta quinta. O tucano afirmou que não recuaria da decisão de reajustar as tarifas e determinou desde cedo que a polícia fosse rigorosa – um indicativo de que estava disposto a arcar com os eventuais custos de endurecer com os manifestantes. Esse dano político poderá aumentar se ficar demonstrado que houve ações arbitrárias paralelamente à operação estruturada de contenção da passeata – por exemplo, a atuação da Rota, força de elite da polícia para combater o crime organizado, no patrulhamento da passeata.

Já o prefeito passou o dia em silêncio e só se pronunciou quando a baderna estava em curso. Na gestão de seu antecessor, o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD), o PT, partido de Haddad, apoiou o Movimento Passe Livre, que encabeça as manifestações. O Movimento Passe Livre é formado, em sua maioria, por militantes de partidos de extrema esquerda, como o PSOL, PSTU, PCO, PCR, e de organizações como a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e União da Juventude Socialista, ligada ao PCdoB. Também participam militantes de grupos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) e militantes pró-aborto.

“São Paulo é o berço das manifestações. O que São Paulo não aceita é a violência. De qualquer parte”, disse o prefeito. Questionado sobre a participação da Juventude do PT no movimento, Haddad emendou: “A pessoa é livre para expressar sua opinião. Uma coisa é a opinião individual, outra coisa é a posição partidária”.

Nesta sexta-feira, o prefeito voltou a falar e, agora, diz que os manifestantes se negam a dialogar.

Se há uma diferença mensurável no risco enfrentado por Alckmin e Haddad é o fato de as eleições do ano que vem serem para governador do estado. No caso do prefeito, eleito no ano passado, ele só enfrentará as urnas novamente em 2016.

Enquanto o conflito ocorria em São Paulo, outras cidades registraram confrontos. No Rio de Janeiro, um ato que estava agendado também resultou em choque de manifestantes com a polícia. Inesperada foi a eclosão de um protesto em Porto Alegre e em cidades menores, como Sorocaba, no interior de São Paulo. Portanto, fica uma indagação: se está se formando uma onda que vai se alastrar pelo país e as razões que movem os manifestantes – na capital gaúcha, por exemplo, sequer houve reajuste de passagens. Resta saber se ao radicalismo político de esquerda e à revolta “juvenil” contra o sistema, que estavam no coração dos primeiros protestos em São Paulo, estão se acrescentando outros componentes.