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Amigos da juíza Patrícia Acioli suspeitam que ‘araponga’ tenha filmado missa de 7º dia

Magistrado reconheceu policial que atuava na segurança do Tribunal de Justiça durante celebração na Igreja do Carmo, nesta sexta-feira

Por João Marcello Erthal e Cecília Ritto 19 ago 2011, 19h47

Um episódio suspeito incomodou amigos da juíza Patrícia Lourival Acioli, assassinada na semana passada em Niterói, durante a missa celebrada na Igreja do Carmo, no Centro do Rio, na manhã desta sexta-feira. No meio da celebração da missa de sétimo dia pela morte da magistrada, um juiz reconheceu, entre os presentes, a fisionomia de um policial que já trabalhou em sua segurança, designado pelo departamento de segurança institucional do Tribunal de Justiça do Rio. Ao ser reconhecido, o suposto policial, que tinha uma pequena câmera presa à lapela do terno, se esquivou pela lateral da igreja.

“Estranhamos um senhor de terno que não parecia fazer parte do grupo ali reunido. Ele deu a volta pelos fundos da igreja, se benzeu próximo aos santos e sentou-se na extremidade de um banco do lado esquerdo. Quando ele percebeu que eu e outro magistrado olhávamos na direção dele, e que tinha sido reconhecido, ele fugiu discretamente”, conta o juiz, que pede para não ter o nome revelado.

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, por meio de sua assessoria de imprensa, nega ter enviado qualquer representação oficial à missa na Igreja do Carmo.

A presença do ‘araponga’ indignou os participantes da celebração. “É um episódio no mínimo muito suspeito. Que lembra a situação de arapongagem do período da ditadura militar”, afirmou o juiz que reconheceu o suposto policial.

A juíza que conquistou notoriedade pelas sentenças duras contra policiais acusados de crimes tinha, em sua vida privada, constante presença de agentes de segurança. Em alguns episódios, como deixou registrado em ofícios, ela suspeitou e procurou evitar esse tipo de aproximação. Daí a posição oficial do TJ de que Patrícia Acioli teria dispensado o serviço de escolta da instituição – tese que a família e o advogado que a representa, Técio Lins e Silva, refutam.

Patrícia registrou preocupação por ter, entre os encarregados do planejamento de sua segurança, um oficial que auxiliou dois policiais condenados por ela – o major Salema, que integrava a equipe de segurança do tribunal.

Um dos responsáveis pela indicação de profissionais para a segurança de Patrícia, ao longo de 2009, o capitão da reserva da PM Nelson Ruas dos Santos consta no relatório da CPI das Milícias como suspeito de comandar uma quadrilha em São Gonçalo, na região metropolitana. A informação foi publicada nesta sexta-feira pelo jornal O Globo. O oficial negou as acusações.

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Investigação – As investigações sobre o assassinato de Patrícia correm em sigilo, conduzidas pela Divisão de Homicídios (DH) da Polícia Civil. Apesar das suspeitas da família, de amigos da juíza e de autoridades sobre a participação de policiais e ex-policiais condenados ou réus em processos da 4ª Vara Criminal, onde atuava a magistrada, não há informação oficial sobre suspeitos ou hipóteses mais prováveis.

Policiais militares chegaram a afirmar que um traficante preso por policiais do 7º BPM (São Gonçalo) no dia seguinte ao crime, 12 de agosto, seria suspeito da morte de Patrícia. Em entrevista ao site de VEJA, o comandante da unidade militar, tenente-coronel Cláudio Luís Silva de Oliveira, negou que o preso seja tratado como suspeito.

Processo contra oficial – O oficial que comanda o batalhão de São Gonçalo já foi processado por Patrícia Acioli. O episódio ocorreu em e de setembro de 1989, no estádio do Maracanã, durante a partida entre Brasil e Chile – marcado pelo lançamento de um foguete em direção ao gramado.

Patrícia, que na época era defensora pública, recebeu voz de prisão por parte de Oliveira, então tenente. O oficial conta sua versão do episódio: “Patrícia estava no meio de um grupo de torcedores que estava envolvido uma briga, inclusive com agressão a policiais. Dei voz de prisão e todos foram levados para a 18ª DP (Praça da Bandeira). Ela me processou por abuso de autoridade e foi absolvido”, conta o oficial.

Segundo Oliveira, apesar da rusga no passado, a relação com a magistrada era cordial. “Ela chegou a telefonar para meu número pessoal, solicitando ajuda em um episódio, e não foi necessária movimentação oficial para atender ao pedido da juíza. Atuávamos em parceria”, afirma o comandante.

Atualmente há sete policiais do 7º Batalhão afastados por medida cautelar e oito militares com prisão preventiva decretada, por suspeita de envolvimento com crimes.

(Com reportagem de Leo Pinheiro)

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