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Alunos e professores ficaram na linha de tiro em confronto na Maré

Grupo relata momentos de pavor em meio aos tiros e bombas trocados por policiais do Bope e traficantes desde a noite de segunda-feira

Por Pâmela Oliveira, do Rio de Janeiro Atualizado em 10 dez 2018, 10h01 - Publicado em 25 jun 2013, 13h54

Alunos e professores de três ONGs que trabalham com a educação de crianças ficaram na linha de tiro durante o confronto entre policiais e traficantes na noite de segunda-feira e na manhã desta terça-feira no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. Moradores ouvidos pelo site de VEJA relataram momentos de pânico durante o confronto, que teve muitos tiros, bombas de efeito moral e granadas lançadas por traficantes e terminou com oito mortos. O conflito começou ainda na noite de segunda-feira, depois que um grupo de viciados em crack, aproveitando-se de uma manifestação que congestionou o trânsito em Bonsucesso, promoveu um arrastão na região, fechando pistas e assaltando motoristas e pedestres.

O grupo mais afetado estava na ONG Redes da Maré, formado por moradores e ex-moradores. No momento do início do tiroteio na noite de segunda-feira, havia cerca de cem pessoas no prédio, que fica na favela Nova Holanda. Alunos e professores ficaram sitiados e apavorados com a quantidade de bombas e tiros. “O tiroteio durou a noite inteira. Quando os tiros diminuíram, os alunos correram para casa”, contou Patrícia Vianna, diretora da Redes.

“Aqui na Maré não tem ação da polícia com bala de borracha nem bomba de gás. O tiro é com arma de fogo mesmo, e explosões são pra valer”, disse Patrícia, que acusa os policiais do Bope de truculência. “Eles não separam o joio do trigo. Invadem as casas dos moradores. Muitos nem pedem para entrar. Estão dizendo que só saem daqui quando acharem quem matou o sargento. Estamos com medo”, disse Patrícia.

Os tiros interromperam as aulas de ensino fundamental e de esportes da ONG Luta pela Paz, na favela Nova Holanda. Cerca de 40 pessoas ficaram presas por aproximadamente uma hora. Após intenso tiroteio e disparos de bombas, os professores levaram grupos de alunos de casa em casa, para evitar que eles se tornassem vítimas do confronto. “Foram muitos tiros. Precisamos suspender as aulas. Os professores aproveitavam as pausas nos tiros para deixar os alunos em casa”, contou Juliana Tibau, psicóloga que atua como gerente de projetos do Luta pela Paz.

Segundo os moradores, policiais lançaram uma bomba de gás na porta do Observatório das Favelas. Diretor da ONG, Jailson de Souza Silva contou que policiais do Bope agiram com truculência. Ela acusa ainda os policiais de terem atirado contra um transformador, deixando a favela sem luz. Jailson afirmou que, durante o tiroteio, vários cabos telefônicos foram cortados.

O cenário ainda é de tensão no Complexo da Maré. Parte do comércio está fechada. Escolas e projetos sociais suspenderam as atividades nesta terça-feira. Muitos moradores ainda estão sem luz e sem telefone fixo.

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O tiroteio começou por volta das 19 horas de segunda-feira, quando um grupo de criminosos iniciou um arrastão na pista sentido Zona Oeste da avenida Brasil, na altura da Nova Holanda, em Bonsucesso, na Zona Norte. Antes, os criminosos teriam participado de uma manifestação que saiu da praça das Nações, em Bonsucesso, e chegou a interditar uma faixa da avenida Brasil.

Após o início dos assaltos em série na via expressa, policiais militares do 22º BPM foram acionados e teve início um confronto com traficantes que estavam na Nova Holanda. Os policiais recorreram, então, ao Bope, que atua em momentos de maior tensão nos confrontos em favelas. Durante o tiroteio, morreram o sargento e um morador. Pelo menos outros cinco moradores foram atingidos por balas perdidas e um PM do 22º Batalhão, identificado como William Cordeiro Belo, de 37 anos, foi ferido no queixo com uma pedrada. Todos foram atendidos no Hospital Federal de Bonsucesso e passam bem.

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https://www.youtube.com/watch?v=5AmihMyiZN4

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