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Alerta de chuva: a difícil corrida contra o tempo

Da previsão meteorológica à interdição das áreas de risco, a prevenção contra enchentes e deslizamentos cobra um sistema de alertas rápido e preciso

Por Paula Reverbel - 22 jan 2011, 07h20

Conforme a fúria de um fenômeno natural, os danos materiais serão inevitáveis. O importante, na hora da emergência, é tirar a população das áreas de risco a tempo. Na Austrália, a polícia recorreu ao Twitter e ao Facebook para afastar boatos, conter o pânico e manter a população informada em tempo real das medidas de emergência contra as dramáticas inundações que atingiram o país. Uma única cidade americana, Jackson, no Mississippi, conta com 7 canais de TV e 21 estações de rádio para informar o risco de inundações. Em São Paulo, moradores estão sendo cadastrados para receber alertas via SMS. No Rio, a favela do Borel recebeu nesta sexta uma sirene para avisar os moradores da iminência de deslizamentos. Em Areal, Região Serrana do Rio, o prefeito saiu num carro de som para ordenar a evacuação de áreas de risco tão logo soube da tragédia nas vizinhas Petrópolis e São José do Vale do Rio Preto.

São todas tentativas de vencer uma corrida contra o tempo que começa na tela de um computador, com a leitura das condições meteorológicas, e termina – ou deveria terminar – com a interdição das áreas de risco iminente de deslizamentos e inundações. É uma cadeia complexa de operações que cobra responsabilidade de diversas instituições de diferentes esferas administrativas.

Em São Paulo, a cadeia começa pelo Sistema de Alerta a Inundações de São Paulo (Saisp), gerido por um convênio do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), do governo do estado, com a Universidade de São Paulo (USP). São 198 estações e um radar meteorológico para monitorar chuvas, ventos, temperatura, umidade do ar, pressão atmosférica, nível dos rios, represas e piscinões, com informações atualizadas de 5 em 5 minutos.

Os dados gerados pelo Saisp são monitorados 24 horas por dia por técnicos da nova Sala de Situação, inaugurada pelo DAEE em outubro de 2010. É de lá que se disparam atualmente os alertas. Conforme a leitura do tempo, técnicos da Sala entram em contato com uma série de órgãos e instâncias, cujos técnicos, por sua vez, avaliam a natureza do alerta e o repassam às equipes nas ruas ou ainda a outros órgãos. As conversas são feitas por telefone e SMS e envolvem prefeituras, subprefeituras, Defesa Civil do estado e dos municípios, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), Corpo de Bombeiros, Sabesp e Eletropaulo. A pleno vapor, cerca de dez pessoas cuidam de fazer e atender ligações na sala. “Isso aqui vira uma loucura”, diz um dos técnicos da sala. A sala também mantém contato constante com o Centro de Gerenciamento de Emergênca (CGE) da cidade de São Paulo, que também monitora os dados em tempo real e funciona como uma sala de situação do município.

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Rede de monitoramento

Confira as estações do sistema de alerta em São Paulo

A agilidade e a precisão do alerta são fatores-chave do sucesso ou insucesso na prevenção de desastres. O maior desafio dos meteorologistas são as pancadas de chuva, ou chuvas convectivas, que podem derrubar a margem de ação das equipes de 3 horas para apenas 30 minutos. “Este tipo de chuva aparece rapidamente no radar e é mais difícil de prever”, explica o superintendente do DAEE, Amauri Pastorello. “O tempo às vezes é pouco para todas as providências que precisam ser tomadas”, diz o coronel Jair Paca de Lima, coordenador-geral da Defesa Civil Municipal de São Paulo.

Para melhorar a qualidade das previsões, DAEE inaugurou também um novo sistema de modelagem matemática que incorpora o histórico de chuvas, o que permite prever com mais exatidão o momento em que um curso d’água vai transbordar. Ao mesmo tempo, começou a cadastrar moradores de áreas de risco para o envio de torpedos com alertas de enchentes. O procedimento ainda engatinha: apenas 2 mil pessoas estão cadastradas. Conforme mapeamento do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, apenas na capital há 115 mil pessoas vivendo em regiões de risco alto ou muito alto.

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Gargalos – A infraestrutura do sistema de alerta de São Paulo tem boa reputação. “Nosso equipamento de previsão está bem atualizado”, diz o professor Mario Thadeu Leme de Barros, titular de recursos hídricos da Escola Politécnica da USP. “Serve de exemplo para o Brasil inteiro”, opina o engenheiro Hassan Barakat, do CGE. Na cidade de São Paulo, alguns resultados são visíveis. “Há anos, a CET fecha os túneis assim que recebe alertas e não temos mais casos de carros presos em túneis alagados da cidade”, exemplifica Barakat, que estima que 90% das chuvas são previstas com antecedência e precisão suficientes.

Mas há também gargalos que emergem a cada nova tempestade. Em outubro, pouco após a inauguração da Sala de Situação, o sistema não pode prever o transbordamento do Ribeirão dos Aterrados, na zona sul, uma vez que este curso d’água não é monitorado em detalhe. Duas pessoas morreram. Em 7 de janeiro, a região do Córrego Aricanduva alagou, não foi interditada a tempo, e os motoristas tiveram de ser socorridos pelos bombeiros. Em 10 de janeiro, no mais grave temporal da estação em São Paulo, 14 pessoas morreram no estado, e a capital parou por conta de um temporal que fez transbordar o Rio Tietê e vários córregos.

Numa das pontas do sistema, Pastorello defende mais estações de medição, especialmente nos rios Aricanduva, Tamanduateí e Cabuçu. As informações geradas pelo radar também devem ganhar precisão. O atual, instalado nos anos 80 em Biritiba Mirim, deve ser substituído por um mais moderno, com informações mais detalhadas, um investimento da ordem de R$ 7 milhões.

Sala de monitoramento do Departamento de Água e Energia Elétrica do estado de São Paulo para controle de enchentes - 20/01/2011
Sala de monitoramento do Departamento de Água e Energia Elétrica do estado de São Paulo para controle de enchentes – 20/01/2011 VEJA

Já na transmissão dos alertas, um técnico que prefere não se identificar critica a comunicação dos avisos por telefone, sujeita a ruídos, e defende a transmissão instantânea a todos os órgãos envolvidos. São minutos que podem fazer a diferença. Em 18 de janeiro, a Sala de Situação soube com uma hora de antecedência da chegada de chuvas fortes ao município de Mauá. Um funcionário da prefeitura da cidade, que não quis se identificar, diz que o alerta só chegou “em cima da hora”. Neste dia, Antonia Avelaneda Grande, de 64 anos, morreu afogada dentro de sua casa. O Saisp não divulga o protocolo que define a rotina de emissão de alertas. Informa que a Defesa Civil estadual, o CGE e coordenação de subprefeituras da capital são avisadas por telefone, e as outras cidades, por mensagens de texto.

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Só alerta não adianta – Na ponta final da transmissão do alerta, são gargalos comuns equipes reduzidas para os trabalhos de campo, em particular os órgãos municipais de Defesa Civil, e a falta de um mapeamento de detalhe das áreas de risco. “Não adianta ter alerta se não houver um plano de contingência”, afirma o professor Airton Bodstein de Barros, que coordena o único curso de mestrado do país em Defesa e Segurança Civil, na Universidade Federal Fluminense (UFF). Segundo Barros, esta é uma falha corriqueira no país quando se tratam ações emergenciais.

Barros está a frente de um programa piloto na cidade de Itaboraí, no Rio de Janeiro. Por lá, líderes comunitários estão sendo treinados a instruir os vizinhos em casos de emergência, mesmo antes de a prefeitura, Defesa Civil ou bombeiros aparecerem na região. “Temos que pensar como as pessoas vão entender o aviso, como vão interpretá-lo e se saberão o que fazer”, diz.

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