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‘Agora estou tranquilo’, disse decapitador de Mogi na prisão

Rapaz de 23 anos era pacato, mas seu comportamento preocupava a família. Estopim para o que polícia crê ter sido surto psicótico foi briga no trabalho

Por Mariana Zylberkan - 5 dez 2014, 07h14

Até confessar o assassinato de seis pessoas – quatro delas, decapitadas – no espaço de quatro dias, a golpes de um pequeno machado e de uma faca de cozinha, Jonathan Lopes de Santana, de 23 anos, era uma pessoa que passava despercebida no cotidiano de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, onde os crimes ocorreram. Muito reservado e calado, o assassino em série que espalhou o pânico entre os moradores da pacata cidade levava uma rotina discreta. Trabalhava como segurança no estacionamento de funcionários da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) em Poá, cidade vizinha, morava com os pais e o irmão em um bairro distante do centro de Mogi e repetia sem exceção alguns rituais, como comprar pão na padaria em frente à estação de trem onde trabalhava todos os dias após o expediente, às 18 horas em ponto. Sempre ia trabalhar com a jaqueta azul marinho que faz parte do uniforme da empresa terceirizada que faz a segurança das linhas de trens, não importava se estivesse calor ou frio.

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Ser segurança era um sonho recém-realizado do assassino. Ele abandonou o ofício de soldador de conexão de polietileno para voltar para a casa dos pais e fazer curso de formação de vigilante. Antes, como soldador, havia passado por empresas nas cidades de Porto Alegre (RS), Ouro Branco e Ouro Preto (MG), entre 2011 e 2012. Ele trabalhou cerca de seis meses como segurança da CPTM até pedir demissão de forma inesperada, há dois meses. Segundo o maníaco afirmou à polícia, a saída do emprego coincidiu com o surgimento das ‘vozes’ que ele alega ouvir todo o tempo – e que o mandariam matar. A demissão teria se dado após um desentendimento com outro vigilante, chamado Diogo. O assassino alegou à polícia que o colega teria arrombado a porta do sanitário enquanto Santana usava o banheiro, deixando-o ‘extremamente constrangido’. De acordo com ele, por não ‘suportar o sentimento de humilhação’, pediu as contas no dia seguinte.

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Desempregado, Santana passava muito tempo dentro do seu quarto, localizado no térreo do sobrado onde vivia com a família, a quem é muito ligado. Ele ostenta no peito tatuagens com os nomes dos pais e do irmão e foi neles que pensou primeiro quando foi preso na última quarta-feira. De acordo com delegados que tomaram seu depoimento, o segurança insistiu para sua família ser preservada do assédio da imprensa.

Nos meses que antecederam a prisão, o assassino começou a despertar preocupação nos pais. Havia emagrecido muito e passou a fazer desenhos estranhos com tinta guache e lápis de cera. Ele dizia que eram paisagens, mas a mãe tinha certeza de que se tratavam de imagens atribuídas a seitas demoníacas e destruiu tudo. Ele era constantemente flagrado fumando maconha porque, dizia, estava muito depressivo. O resto do tempo era dividido entre trabalhos na reforma da casa, como assentar o piso, e assistir a vídeos violentos que baixava na internet. Alguns mostravam sem cortes decapitações feitas por integrantes do Estado Islâmico, que registram em vídeo as execuções de reféns. Ele teria se inspirado nas imagens para fazer o mesmo com suas vítimas.

Durante uma festa de casamento de parentes, no fim de semana que antecedeu os ataques, Santana chamou mais uma vez a atenção dos pais ao tentar esganar o filho de sua prima, de 3 anos.

As tatuagens em cortes foram feitas também no peito, na forma de um círculo, e na perna direita, onde riscou o número 36. Segundo ele, o número se refere ao jogo imposto pelas vozes misteriosas. Ele teria que matar seis pessoas até o dia 3 de dezembro ou assassinar três pessoas na sequência entre as 6 e 7 horas ou entre as 18 e 19 horas. Se não cumprisse a ordem, seria “vitimado pelo sistema”, ou seja, morto.Proibido pela mãe de continuar com os desenhos, Santana passou a usar a própria pele como tela para suas assustadoras criações. Com uma lâmina de barbear, ele tatuou no braço esquerdo um desenho da pequena machada que usou para matar e decapitar suas vítimas. O objeto havia sido adquirido por ele há dois anos – segundo ele, para se ‘defender’ em caso de ataque. A machadinha era guardada em uma das gavetas de seu armário, junto com as roupas, onde também mantinha a faca de cozinha que usou em alguns crimes. Para o delegado titular da Divisão de Homicídios de Mogi das Cruzes, Luiz Roberto Biló, o caso tem características claras de surto psicótico. “Ele apresenta quadro de esquizofrenia e psicopatia, mas apenas laudo de um psiquiatra forense poderá fechar o diagnóstico com certeza.”

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Foi então que decidiu cumprir as ordens: matou seis pessoas num intervalo de seis dias. O último assassinato se deu juntamente em 3 de dezembro, quando foi preso em casa. Em todos os nove ataques – além dos seis mortos, Santana feriu três pessoas -, o maníaco se utilizava do mesmo método. Batia com a parte de trás da machadinha na cabeça da vítima para deixá-la desacordada. De acordo com ele, esse método poupava seus alvos de sofrimento. Em seguida, o assassino os esfaqueava e decapitava.

A série de assassinatos começou no último sábado, quando ele esfaqueou Flavia Aparecida Honório, de 23 anos, enquanto ela fumava crack em uma casa abandonada no bairro de Brás Cubas, em Mogi. No dia seguinte, atacou um guardador de carros, que sobreviveu. As outras cinco mortes ocorreram entre a madrugada de segunda-feira e a manhã de quarta-feira. De acordo com o Departamento de Homicídios de Mogi das Cruzes, ele escolhia as vítimas de forma aleatória, mas priorizava moradores de rua e usuários de drogas. Isso porque, segundo sua mentalidade perturbada, uma vez que ‘tinha’ de matar, preferia optar por pessoas que acreditava que ‘não fariam’ falta a ninguém. O mesmo raciocínio deturpado o teria convencido a investir contra um idoso de muleta que chegava para trabalhar na fábrica de cosméticos Max Love, no bairro de Vila Suissa, em Mogi, por volta das 7 horas da última quarta-feira. O homem foi salvo por ter entrado na fábrica. Santana, então, avistou a secretária Maria Aparecida do Nascimento, de 46 anos, em um ponto de ônibus próximo. Ela foi a sexta e última vítima.

Cerca de três horas após assassinar a secretária, o segurança foi preso por policiais em sua casa. Ele tentou resistir à prisão e afirmou que tinha saído de casa naquela manhã apenas para comprar pão. A confissão dos assassinatos foi feita durante interrogatório na Delegacia Seccional de Mogi das Cruzes. Em todos os crimes, ele usava seu carro, um Astra verde ano 2002, e foi através de imagens de segurança que registraram o último crime que os policiais localizaram o dono do veículo. Santana foi preso em flagrante e encaminhado ao Centro de Detenção Provisória de Mogi das Cruzes­­. Na prisão, externou certo alívio: “Agora estou tranquilo, não tenho mais cobranças das vozes”, disse, segundo policiais. O próximo passo do caso é o oferecimento de denúncia pelo Ministério Público. A partir disso, Santana irá aguardar a indicação de advogado de defesa pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo e esperar preso o julgamento pelo tribunal do júri. As mortes provocaram um clima de terror na cidade de pouco mais de 387.000 habitantes. Moradores trocavam mensagens de celular com alertas sobre a possibilidade de o irmão de Santana retomar a onda de assassinatos após a prisão do serial killer. Reforços de equipes policiais foram enviadas a pontos frequentados por moradores de rua e usuários de drogas, onde se concentraram as denúncias falsas de novos ataques durante toda a tarde desta quinta-feira. A família deixou a casa na periferia de Mogi devido ao assédio da imprensa e do temor de revolta dos vizinhos.

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