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‘A vida em primeiro lugar’

A mulher de Evanir Geraldo de Assis está entre os desaparecidos de Brumadinho. Angelita Cristiane era enfermeira do trabalho da Vale

Conseguir um emprego na mina Córrego do Feijão era um sonho de infância de Evanir Geraldo de Assis, de 39  anos. “Passava dentro da vila operária para ir até a escola. Via aquela barragem imponente e pensava que eu tinha de trabalhar ali”, diz ele. Em 1999, Evanir foi contratado como técnico de manutenção na mineradora alemã Ferteco, na época dona do campo de exploração que seria vendido à Vale em 2001.

Em seus primeiros anos na empresa, conheceu Angelita Cristiane, durante um curso aberto à comunidade. Eles flertaram, namoraram, casaram-se e tiveram os filhos Sávio, hoje com 15 anos, e Samuel, de 12. Em 2012, Angelita também foi contratada pela Vale. Enfermeira do trabalho, ela tinha como função primordial aplicar o programa de segurança chamado “A vida em primeiro lugar”. O obje­tivo: minimizar o risco de acidentes no cotidiano dos empregados.

Evanir pediu demissão no ano passado para ingressar na carreira de corretor de imóveis, mas a mulher permaneceu em seu posto. Ao receber uma ligação do seu irmão avisando sobre o desmoronamento, o marido embrenhou-se na lama para aproximar-se o máximo possível do prédio onde Angelita cumpria o expediente.

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O gigantismo do soterramento da área limou suas esperanças. “Cheguei bem perto e então vi com meus próprios olhos o que mais temia.” Preocupado agora com a criação dos filhos, só lhe resta a indignação. “A exigência com segurança sempre foi primordial no Córrego do Feijão. Como deixaram os prédios lá na parte de baixo da barragem, se existia algum perigo de desabar? A Vale deveria ter feito o que pregava.”

Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2019, edição nº 2620